Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Categoria: Mostra de Tiradentes

Tremor Iê: Revolução, Transgressão Narrativa e Feminismo

Silêncios, luzes, sombras. O filme Tremor Iê começa com um road movie que nos leva a crer que iremos assistir a um thriller ao estilo de Feminino Plural, o clássico de transgressão feminina caboclo dirigido por Vera Figueiredo. Não é isso que acontece, e o filme corta para uma cena quase bucólica numa casa em meio ao nada. Vozes sussurradas ao pé da fogueira, relatos de opressão e de dor. Num filme de pluriprotagonismos, as mulheres são as personagens principais. Janaína, presa política numa manifestação em 2013 em Fortaleza, sua amiga Cássia, e suas companheiras, clamam por liberdade, por espaços experenciados e brutalmente suprimidos, de forma arbtitrária por um governo totalitarista. Os únicos homens em cena são policiais, eles encarnam a face mais perversa da sociedade patriarcal, um Estado policial, escorado por um fanatismo religioso que lança mão de palavras de fé cristã para manter a ordem. As religiões populares surgem então como o perfeito contraponto subversivo de tamanho maniqueísmo político, baseadas em práticas e culturas populares. Essa atmosfera asfixiante é mantida pela narrativa até o final, que encena uma espécie de milícia feminista que se articula para soltar as companheiras presas, libertar esse velho mundo de suas amarras.

O que mais agride nessas novas mulheres de Atenas é que a descrição acima bem poderia se referir a um thriller gélido como Atômica (2017) estrelado pela elegante Charlize Teron, ícone de beleza anglo-saxônica que desfila figurinos impecáveis enquanto massacra de cinco a oito homens por cena no mínimo. No entanto, o que se vê são tipos étnicos bastante brasileiros, caboclos, mescla de indígenas e negros, com sandálias havaianas, roupas adquiridas em lojas populares como Torra Torra e similares, nenhuma preocupação com qualquer tipo de glamurização. A violência é sugerida, é de outra natureza, ela atinge o imaginário, a ideologia,  é plasmada em longos diálogos e monólogos, ela se apresenta menos por espetáculos de lutas marciais do que pelo medo e pela indignação, o tom de revolta e de conspiração que vai se apropriando de suas personagens constrói o filme. Decididas, elas se unem contra a ditadura e planejam sua revolução. A maioria das mulheres nas telas que representam heroínas na atualidade servem a propósitos delirantes e suspeitos, a governos cujas proposições mereceriam um olhar mais aprofundado, mas seguem suas vidas sem grandes questionamentos. Muitas, como a heroína biônica da minissérie Hanna (Amazon, 2019-2020)  sequer sabem a quem estão servindo. Só querem fugir, mas não sabem bem para onde vão, e acabam voltando para as organizações paramilitares de onde saíram. A audiência, igualmente privada dessas referências, segue desnorteada em meio a tanta pirotecnia e cenários deslumbrantes, ansiando por um final feliz, que naturalmente não virá.

A narrativa de Tremor Iê escapa literalmente dessas armadilhas, mas se ressente de sinapses longas entre as cenas, divididas entre três episódios distintos, que por vezes quebram o ritmo do filme, recurso que poderia ser usado de forma mais pontual, pois a ruptura como convenção enfraquece a sua eficácia como estratégia. A sequência em que sequestram os restos mortais do ex-ditador Castelo Branco como moeda de troca, algo que nos remete parodicamente ao ato de sequestro do cônsul Charles Burke Elbrick estadunidense pelo grupo MR-8 nos anos de chumbo brasileiros, mais precisamente em setembro de 1969, é evocada somente por palavras, o que é a tônica do filme, mas acaba soando como mera elocubração das personagens, quase um delírio e nada mais, retirando o caráter vigoroso do ato simbólico..

O filme Tremor Iê é o primeiro longa-metragem das diretoras Elena Meirelles e Lívia de Paiva, cearenses e lembra produções do coletivo Alumbramento – Guto Parente é um dos únicos personagens masculinos, ao lado de Petrus dos Bairros, que também assina o roteiro -. e de certa forma espelha as inquietações artísticas e políticas que contribuíram para que o grupo se transformasse numa referência nacional. Estreou na mostra competitiva Corpos Adiante, da 22ª edição do Cine Ceará. Sua proposta necessitaria talvez de maior elaboração no roteiro, mas é altamente promissora.

Inferninho é drama romântico e simulacro de hiper-realismo

Um bar que lembra o circuito gay underground brasileiro é o cenário para o drama romântico Inferninho  que tem como protagonista a proprietária trans, Deusimar (Yuri Yamamoto), e seu amado o marinheiro Jarbas (Démick Lopes). O longa cearense  Inferninho – o título internacional é My own private hell – nasceu como dramaturgia para teatro, e estava destinado  a ser adaptado para série de televisão após passar pela primeira edição do Laboratório de Audiovisual do Porto Iracema, em 2013. Ao longo do processo converteu-se num longa-metragem. Destaque na primeira mostra de cinema de Tiradentes, o filme é uma parceria entre o coletivo Alumbramento Filmes, Grupo Bagaceira de Teatro e Marrevolto Filmes, dirigido por Guto Parente e Pedro Diógenes. A produção já foi exibida em diversos festivais como Mix Brasil, Roterdã e está sendo comercializada na Berlinale deste ano.

O ambiente escuro, a mobília velha e brega, localizado num lugar ermo de uma rua escura, contribuem para criar a atmosfera de refúgio alternativo do local que é frequentado por clientes que vivem uma realidade paralela, uma solução fugaz para a opressão da vida cotidiana. O clima se adequa como uma luva ao conceito de presente nostálgico que Jameson evocou para falar de obras como Veludo Azul, de David Lynch: tudo ali é nostalgia, é reminiscência de um passado recente que na verdade nunca existiu da forma que é representada ali, como uma bricolagem de estilos que se manifesta nas roupas, mobílias, músicas e até na expressão de sentimentos. Deusimar é uma mulher discreta, à moda antiga, moralista, e sua composição contia referenda esses valores – ela nunca saiu dali, o bar é uma herança de família, seus trajes são bastante tradicionais, distante de uma dama da noite. Sua delicadeza desaparece no trato com os funcionários, extremamente mesquinho e patriarcal. Sabemos, entretanto, pela relação das pessoas que a própria casa noturna, está fadada a desaparecer desde a primeira cena, pois se trata de uma forma de relação afetiva, na vida e nos negócios, que não consegue mais ter seu espaço no mundo contemporâneo.

 A relação amorosa de Deusimar e Jarbas é o movimento disruptor que transforma o cotidiano do lugar e a vida dos funcionários Luiziane (Samya de Lavor), a cantora do bar, Coelho (Rafael Martins), o garçom e Caixa-Preta (Tatiana Amorim), a faxineira, que por sua vez vivem nesse universo paralelo sem questionar em profundidade sua obsolescência. Inferninho foi rodado durante 12 dias no Ateliê Rural Alpendre, em Cascavel, onde foi construído o ambiente do bar, em que se passam todas as cenas. Nos sonhos de Deusimar, em que se mesclam anseios de aventura, libertação, reminiscências e desejos surgem como cenas de filmes e anúncios de destinos paradisíacos que são comercializados como autênticas promessas de felicidade pela mídia, em projeções de chroma key, que acentuam o seu caráter de impossibilidade, de consumação. A superficialidade, no entanto, envolve sentimentos profundos.

Essa encenação do real corresponde a uma espécie de segunda natureza, criada pela sociedade tecnológica, e conceito criado por Hegel, mas também explorado por Jameson para referir-se a obras de conteúdo distópico, mas que não necessariamente correspondem a filmes de ficção científica. Ela está presente em obras como O fundo do coração, de Coppola, por exemplo. O artificialismo emerge como escape, mas também como único caminho para encontrar a verdade, a realização. A onírica Las Vegas em luzes de neon de Coppola aqui é o inferninho de Deusimar, e o lugar comum de um romance banal referenda a transgressão, a mulher que busca um amor e uma identidade de gênero que foi corrompida pelo sistema, em uma casa noturna que será substituída por arranha-céus e fachadas de progresso de vidro temperado. O excesso de cores, quase surreal, incita ao delírio, à permissividade. O francês Baudrillard sustentava que quando o real já não é o que era, e a nostalgia então assume todo o seu sentido, simulação e simulacro servem para experenciar uma estratégia de real, de neo-real e de hiper-real.

As relações de gênero homoafetivas são vistas aqui como referência de pureza e de ingenuidade, em que pese o ar lascivo do inferninho, expressão usada para designar bares de prostituição e de shows eróticos no Brasil. Alguns desses locais tendem a mesclar públicos de diferentes sexualidades, tendência que é mais comum na América Latina do que na Europa e Estados Unidos, em que esses limites são mais rígidos e intransponíves. A noção da mulher trans e  do mocinho gay como ideal de integridade moral numa sociedade que perdeu o controle de seus instintos e da ética vem surgindo de forma discreta em outras obras. No Brasil, certamente, o precursor foi Chico Buarque, com a canção Geni e o Zepelin, mas nas obras audiovisuais ela está presente até mesmo em narrativas policiais como Cães de Berlim, da Netflix. Para sobreviver, entretanto, esses personagens, em algum momento, têm de negociar. Nada escapa à lógica do capital.

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