Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Categoria: Filmes (Página 2 de 2)

O inferno das boas intenções: a punição como pedagogia

O teatro de marionetes é o recurso utilizado pelo documentário autobiográfico As Boas Intenções para nos relatar de forma lúdica um profundo trauma familiar ocorrido na infância da diretora e protagonista Beatrice Segolini.  O longa, codirigido com Maximilian Schlehuber, foi realizado para discutir a relação entre os irmãos, ela e a mãe, e as primeiras cenas acompanham sua visita à família com a equipe. A violência do patriarca da família criou profundas lacunas de relação entre os irmãos Michi, Stefi e Beatrice, perceptíveis nos primeiros diálogos e, sobretudo, nos silêncios. Os problemas giram sempre em torno do pai e de sua conduta, que a família não questiona, e que é defendido como sendo normal, o que faz do questionamento insistente de Bea  algo bastante inconveniente.

Outro dado importante que Beatrice vai revelar ao longo dos encontros é a extrema dificuldade do pai em lidar com a filha mulher, que pouco aparece nos videoteipes que ele fez sobre as crianças, como vamos descobrir ao longo do documentário. O excelente material de arquivo mostra cenas dos filhos quando eram bebês e os jogos em que o filho Michi, que é atleta profissional, participa. Os irmãos de Beatrice e sua rotina são o grande destaque das filmagens domésticas. A maior parte das locações se dá num apartamento de classe média, e aparentemente nada de incomum ocorre lá. Ao longo das refeições, entretanto, e na cozinha, surgem os diálogos mais tensos. A um dado momento, sua mãe retruca que ela não tem o direito de falar do pai sem que ele participe da conversa, que não é justo.

Assim, Bea, a diretora protagonista,  decide visitá-lo em seu habitat solitário no trailer de um haras. O ponto alto do filme é a conversa após tantos anos entre pai e filha. Só então percebemos de fato a ausência dele com relação ao processo de educação dos filhos e sua relação afetiva com a família e com o mundo. Ao isolar-se naquele pequeno universo bucólico, em companhia de um cachorro e um gato – os animais não têm nome -, o patriarca  pode exercer seu domínio, treinando e domando os cavalos, e o documentário cresce. Fica clara a dificuldade do pai de Beatrice em distinguir treinamento de educação, o que é habilmente demonstrado pelas cenas.  Animais são punidos fisicamente para serem adestrados.

Até a produção do documentário, os irmãos de Bea evitavam tocar no assunto abuso doméstico infantil. É como se fosse um tabu, e de fato ainda é. Em geral os jornais tratam da violência doméstica como se fosse um problema que ocorresse sempre na periferia por falta de educação, de dinheiro, e não uma regra, uma tradição cultural. Não faz tanto tempo assim que a palmatória foi abolida da sala de aula. Segundo dados da Unesco, 102 países proíbem o castigo corporal na escola. No Ocidente, as exceções são a França – e quem não se lembra de Os incompreendidos de Truffaut? -, alguns estados australianos – e 19 estados americanos, em que as crianças ainda apanham na escola. O direito de um pai ou mãe castigar fisicamente uma criança era considerado no Brasil, por exemplo, como salutar até 2014, quando finalmente foi aprovado um projeto de lei, que na prática, sabemos, não funciona. É comum ver mães e pais castigando seus pimpolhos publicamente.

É deste inferno que se alimenta As boas intenções. Todo o tempo a família de Bea, mãe, irmãos, defendem as atitudes grotescas e violentas do patriarca, calando-se diante de seus abusos. Eles assinalam sempre que ele fez o que fez por amor, que ele sofria com isso, que apenas queria educar. Esse talvez seja o maior limite deste documentário biográfico, que, ao final, acaba se traduzindo em uma briga entre pai e filha, que é suavizada pela teatro inicial de marionetes, em que os pais são representados como lagartos jurássicos. A verdade é que a maioria das famílias oculta esses acontecimentos, sem admitir problemas de abuso ou de violência. E quanto mais rica a família, mais impenetrável esse mundo de transgressão. Outro documentário da mostra que vai tratar de relação traumática entre pai e filha é Construindo Pontes, de Heloisa Passos, no qual ela resgata sua relação com o pai, um engenheiro que fez carreira durante a ditadura militar. No entanto, o filme de Beatrice, que não por acaso estudou Antropologia Visual, é singular por tratar do tema que a assombrou durante anos evitando a armadilha dos perfis biográficos, deixando que cenas e diálogos falem por si. O que está em pauta são as relações familiares dentro da família pequeno burguesa, e o conceito de educação como punição.

A opressão da família feliz, segundo Michael Haneke

O novo filme do cineasta austríaco, nascido na Alemanha, Michael Haneke, é Happy End, e estreia no Brasil na Mostra Internacional de Cinema que começa dia 18 de Outubro. O final feliz do título, um clichê cinematográfico, tributário de romances e peças literárias para moças de fino trato, costuma ser atribuído em geral a melodramas e comédias românticas, em que um casal, separado por circunstâncias da vida, ou intrigas, acaba ficando junto ao final, para delírio da plateia. Aqui, na verdade, a ideia central é exatamente a oposta: afinal porque eles continuam juntos?

A família em questão, de empresários com problemas financeiros que vivem em Calais, França, em meio à crise  social causada por refugiados africanos, é uma farsa que não resiste a um único almoço. Calais se tornou o centro das atenções no ano passado por abrigar um acampamento conhecido como “Selva”, integrado por migrantes  procedentes em sua maioria do Afeganistão, Sudão e Eritreia,  que foi desmantelado por pressões da sociedade local. Alguns personagens do filme já faziam parte do elogiado e premiado Amor (2012), do diretor, estrelado pelo mesmo Jean-Louis Trintignant, como Georges Laurent,   e sua filha Eve, interpretada por Isabelle Huppert.

O patriarca Georges Laurent, vivido por  Trintignant, velho e decrépito, desgostoso com a morte de sua mulher, vive mergulhado em sua própria solidão, e frequentemente, tenta o suicídio, das mais diversas formas.  Todos os seus movimentos são seguidos por seu fiel criado de quarto, o marroquino Rachid (Hassan Ghancy), que vive com sua esposa Jamila (Nabiha Akkari) na casa, em regime que lembra as nossas senzalas, com rituais cotidianos e relações que remetem à monarquia. O gestual do café da manhã, a relação entre ambos, se configura como uma relação de servidão que o restante do filme vai confirmar, de maneira impiedosa.

O tema do suicídio, aliás, abre o filme, pois a ex-mulher de Thomas Laurent (Matthieu Kassovitz), filho de Georges, tenta suicídio, e assim, ele se vê obrigado a cuidar de sua filha adolescente, a expressiva  Eve Laurent (Fantine Harduim), que ele mal conhece. Desconcertante e reveladora é a cena à mesa em que a jovem Eve é apresentada ao avô, que não se recordava dela. Os diálogos nesta cena são preciosos. Ele pergunta se ela vai ficar, e todos ficam embaraçados, pois a mãe da garota está agonizando num hospital. Ele a viu uma única vez na vida, e ela não se lembra dele.

A relação de Anne Laurent (Isabelle Huppert), irmã de Thomas, que administra os negócios da família, com o seu próprio filho, Pierre (Franz Rogowski)  não é melhor do que a de seu irmão, Thomas, médico irreverente e recém-casado com a jovem Anais, que tem um bebê para o qual ele mal lança um olhar. A maior preocupação de Thomas é, na verdade, dedicar-se a relações eróticas pela internet. Já Anne, impassível em seu jogo meticuloso e hipócrita de performar a fantasia da família feliz em eventos sociais cuidadosamente planejados, não poupa esforços para controlar seu filho Pierre, por quem ela na verdade tampouco aparenta uma afeição real. Os momentos mais angustiantes do filme são os não diálogos entre mãe e filho. Ela repete monocordicamente expressões totalmente clichês de amor para ele, que ora ouve em silêncio ora ironiza em frases curtas.

A sequência da dança pirotécnica no karaokê em que Pierre se machuca é memorável. A angústia, dizia o filósofo Søren Kierkegaard, é a vertigem da liberdade. Mas Pierre tampouco deseja se libertar. Suas reações à frieza materna e à família burguesa e controladora são totalmente  adolescentes, dissimuladas, ele não deseja efetivamente ajudar os refugiados, ou a Rachid e sua Jamila, ele apenas se compraz em humilhar a todos, com indiferença e sadismo.

A uma certa altura do filme, atendendo a um pedido de Thomas, o velho Georges tem uma conversa com sua jovem neta Eve, talvez a mais honesta dentro desse jogo alegórico  de poder. E nasce uma afinidade e uma cumplicidade entre ambos que, parece, pode modificar tudo. Mas a ilusão dessa reviravolta se desfaz no evento social organizado pela filha Anne, para festejar o aniversário de seu pai. Ali percebemos que nada vai mudar, que até mesmo a rebeldia de Pierre, a melancolia de Georges, são passivas. E assim como seu avô, Eve se limita a tirar fotos, sem interferir nas situações, apenas uma observadora, aprendendo a sobreviver naquele novo habitat.  

O incômodo em cena, entretanto, não resulta apenas na representação do universo claustrofóbico da família decadente, à qual Eve se agarra com medo de ir pra um orfanato. O uso que Haneke faz da linguagem audiovisual, buscando narrar as aventuras amorosas de Thomas por múltiplas telas, câmeras de celulares, resulta por vezes forçado, deslocado do contexto e gratuito. As cenas do filme ganham força nos diálogos tradicionais, em espaços abertos ou fechados. O plano sequência da garota com o pai na praia é revelador nesse sentido.

O filme é interessante, e coloca em cena os jogos perversos e a crueza do diretor de A Professora de Piano (2000), A Fita Branca (2009), Amor (2012), ao tratar das relações amorosas e familiares, mas bastante irregular em termos de estrutura narrativa. O Georges de Trintignant efetivamente remete ao Georges de Amor, sobretudo quando evoca a perda da mulher, mas a esta altura estamos quase na metade do filme. De qualquer forma, a ideia de amor de Haneke pouco tem a ver com idílios e poemas, e Georges é coerente com seu criador. O conceito de família burguesa  é disfuncional, não existe um modelo de família feliz.

Nó do Diabo: a maldição do eterno cativeiro

Em 2017, um proprietário de terras invadidas que se tornou uma comunidade contrata um pistoleiro para assustar os moradores. A maioria dos habitantes é de ascendência africana. Um dia, o pistoleiro fica na estrada aguardando um casal que vive na comunidade na volta do culto evangélico. Com a desculpa de que seu carro quebrou, o matador se aproxima friamente do casal e mata ambos a tiros de espingarda. Este é um dos atos de terrorismo do qual se vale o pistoleiro para assustar os pacatos moradores a ir embora das terras de seu patrão.

O paraibano O Nó do Diabo, lançado no 50º Festival de Brasília como um filme de terror, é na verdade um longa-metragem que transita entre o fantástico e o sobrenatural para comentar a trajetória de homens e mulheres negros no País, partindo de 2018 e voltando atrás no tempo, mais precisamente a 1818. Concebido originalmente  para ser uma série de TV  em cinco episódios, o filme foi dirigido por Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi, e parte do Brasil do impeachment para discutir resquícios da escravidão no comportamento de homens brancos e pretos. Sob essa perspectiva, o quilombo surge como libertário, e é visto como um estágio de consciência muito mais avançado do que as periferias da sociedade moderna, as novas senzalas.

A idealização do quilombo é absoluta dentro da narrativa, sabemos hoje que muitos quilombos também possuíam escravos, por exemplo. No imaginário construído pelo filme, entretanto, há total liberdade de elaborar religiosidade, tipos étnicos. O Brasil é apenas um suporte histórico que surge de forma estetizada e nem sempre contextualizada historicamente. Da mesma forma, a relação com o sobrenatural não obedece a nenhuma simbologia especifica, quer de umbanda, quer de candomblé. A jurema é uma planta conhecida por sua capacidade de cura, mas não existe nenhum rito a ela vinculado da forma como se coloca no filme. O final, com um quilombo fantasma ressuscitando da terra é totalmente fantasioso, e de fato remete ao cânone de narrativas de zumbis e fantasmas, sem preocupação em historicizar esses elementos.

As mulheres têm um papel absolutamente hegemônico dentro deste universo. São subjugadas, mas resistem, e parte de suas atitudes a ruptura, enquanto alguns de seus companheiros acabam sendo corrompidos por seus patrões brancos e sádicos, e passam a torturar seus semelhantes. Pertence a elas a ligação com a natureza, com as ervas, com a magia, que pode redimi-los. Ao se distanciar desse circulo mágico e ancestral, adotando costumes das mulheres brancas e da sociedade patriarcal, e das religiões ocidentais, elas parecem perder esse poder. E as mulheres parecem estar mais aptas a optar pela liberdade, são sem dúvida mais oprimidas, trabalhando até a exaustão, e obrigadas a compartilhar a cama de seus senhores. Apesar disso, trata-se de uma idealização do sagrado feminino, sem dúvida, em que o quilombo surge como um espaço do matriarcado, que desaparece na sociedade capitalista.

O fato das histórias serem protagonizadas pelos mesmos atores, à exceção de Zezé Motta, que surge apenas na última história, a mais antiga, e do patrão ser sempre o mesmo, o excelente ator paraibano Fernando Teixeira, reforça uma ideia de perenidade, de continuidade da opressão, e da hierarquização dentro da ordem social que parece perpetuar-se no presente com muito mais eficiência do que no passado. O capitão do mato nem sempre é branco, assim como já assinalava o escritor Machado de Assis em Pai contra mãe, o conto que originou Quanto vale ou é por quilo (2005), de Sergio Bianchi.

O casarão colonial dos senhores onde se desenvolve a maior parte da trama é a casa do escritor José Lins do Rego. As referências do grupo, que possui uma produtora em Campina Grande (PB), a Vermelho Profundo, vão de Mario Bava, John Carpenter a José Mojica Marins. A matéria-prima é a cultura brasileira, mas eles adoram fazer filmes de gênero, e com isso, acreditam, garantem uma leitura universal à obra fílmica. Ao adaptar esses cânones ao local, entretanto, eles acabam por conferir um olhar transgressivo ao gênero no qual buscam inserção, e ao mesmo oferecem um olhar diferenciado a um tema pouco explorado, o da escravidão, que se perpetua de forma violenta na sociedade contemporânea.

Desconstruindo as narrativas hollywoodianas de gênero: o thriller El Mate

Imagens iniciais lembram Tarantino e Cohen, mas o humor negro acaba sendo a tônica.

Thriller de suspense e ação, comédia de humor negro bilíngue em português e espanhol, El Mate (Brasil, 2017), o longa-metragem de estreia do ator e diretor Bruno Kott, engana à primeira vista. O assassino de aluguel Armando (o portenho Fábio Markoff), vive em São Paulo, a grande capital multicultural da América Latina, nossa cidade global.  O filme se inicia com Armando em casa, na garagem, onde mantém um homem russo sob custódia, enquanto aguarda um telefonema de um mandante que virá resgatar a “encomenda”, interpretado pelo diretor Mauro Baptista Vedia. Ele é surpreendido pela chegada de Fábio (Bruno Kott), um jovem evangélico que bate a sua porta para levar a palavra de Deus, e que acaba por mudar o rumo da vida da dupla.

No imaginário cinematográfico contemporâneo, a primeira cena remete a Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), obra emblemática de Quentin Tarantino, na medida em que aborda um universo alternativo e violento, de assassinos e matadores, banalizados como pessoas comuns, em seu dia a dia. Seu diretor, o também ator e personagem Bruno Kott, que ganhou um prêmio como melhor ator coadjuvante pelo filme em Gramado no ano passado, reconhece a referência, mas diz preferir “os Irmãos Cohen”. A ideia era partir de uma cena que lembrasse uma fórmula clichê e desconstruir aos poucos a ideia de um thriller de suspense, surpreender. O roteiro é aberto, a frustração interna dos personagens é na verdade o estopim da ação,  e a estrutura narrativa lembra algumas situações a comédia de erros. Um tiro disparado por acaso é o gatilho para narrar uma história de busca de identidade e de sentido para a vida de ambos os personagens que não deveriam estar ali.

Na medida em que a trama avança, as referências estéticas e de humor se afastam de Hollywood e vão se tornar cada vez mais latino-americanas, a começar pela trilha, que na verdade não é argentina, e foi criada para o filme pelo músico e compositor brasileiro, Marcos Romera. A canção Para que tu vuelvas é cantada pela cubana Alba Sants, Estoy perdida pela espanhola Irene Atienza, e Olvidate de mi por Gustavo Filipovich. Todos eles vivem em São Paulo. Na primeira versão, exibida em Gramado, as músicas eram cumbias selecionadas por Kott em função do desenvolvimento da história. Como eles não conseguiram os direitos sobre as músicas, refizeram a trilha com canções originais. El Mate, que foi lançado no dia 31 de agosto de 2016, o dia do golpe, em Gramado, em um contexto de manifestações e repúdio ao impeachment, fecha com uma interpretação em cena do icônico tango Cambalache (1935),  de Luis César Amadorie Enrique Santos Discépolo, imortalizado por Carlos Gardel, interpretado pelo uruguaio Cesar Cantero, que Kott descobriu no You Tube, e que deixa no ar a ideia de um final em aberto, de uma história entre outras  : Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé/En el quinientos seis y en el dos mil también/Que siempre ha habido chorros/Maquiávelos y estafáos/Contentos y amargaos, valores y dublé/Pero que el siglo veinte es un despliegue/De maldá insolente ya no hay quien lo niegue/Vivimos revolcaos en un merengue/Y en el mismo lodo todos manoseaos.

O thriller de ação se transforma em em festa embalada por músicas latinas.

O roteiro também é assinado pelos dois, que foram elaborando os personagens baseados em experiências anteriores, e na sua relação profissional. Kott e Markoff, atores de formação, vêm do teatro. Durante três anos, fizeram um programa de televisão No Divã do Dr. Kurtzman, com três temporadas, exibido pelo Canal Brasil, e criaram uma “escada” para se relacionarem, com palavras e chistes. O filme tem legendas para as falas do personagem argentino, que ao se relacionar com as vizinhas, interpretadas pelas divertidíssimas Carlota Joaquina e Mochele Boesche, acaba descambando naturalmente para o portunhol.

A ideia de produzir uma obra bilíngue aqui é a de provocar o público, mas sem experimentalismos, e a iniciativa não partiu de nenhuma demanda de coprodução, e sim do envolvimento do diretor com esse imaginário.  O Dr. Kurtzman do programa é interpretado por Marcoff, que já atuou nas séries 9 mm (Fox) , Passionais (Globo), Família Imperial (Futura), Magnífica 70 (HBO), e no filme O Roubo da Taça (2016, Brasil). Kott, que na trama usa o nome verdadeiro de Markoff, atuou ainda em O Jogo das Decapitações (2013), de Sergio Bianchi.

Os diálogos, repletos de alusões à infância, melancolia, conferem empatia aos dois personagens, e verossimilhança à trama. Portanto há muito improviso. Bruno faz um garoto de subúrbio que pertence a uma igreja pentecostal, e vende Bíblias. A facilidade com que ele ingressa no mundo do matador de aluguel, totalmente sádico e amoral,  o que aparentemente seria muito contraditório, se dá, como vamos perceber, por serem ambos totalmente desajustados. Nada é o que parece ser. O estranhamento inicial e um acontecimento imprevisto abrem espaço para a aproximação entre ambos, e propiciam uma cumplicidade insólita. A atmosfera híbrida do filme se inicia com algumas fórmulas consagradas de narrativa criminal, mas se consolida na verdade a partir da intensa relação de camaradagem que surge entre os dois, num clima de quase bromance – a locação era a casa de Fábio, e eles cozinhavam no set -, em que as diferenças se diluem rapidamente nos jogos de cena criados pelos atores. O orçamento é baixo, o filme custou cerca de R$ 300 mil, e foi coproduzido pelo Canal Brasil, que deve exibir o filme após sua estreia nos cinemas. As cenas eram gravadas, e depois editadas, com no máximo três tomadas por cena. O filme entra em cartaz no dia 17 de agosto.

 

 

 

 

As armadilhas do drama romântico Gay com final feliz

A descoberta do amor na infância

Esteros (Argentina/Brasil), coprodução que passou em Gramado na mostra competitiva no ano passado,  e estreia na quinta, 27 de julho, é um longa que aborda a homossexualidade sob uma ótica pouco usual no cinema. O diretor, Papu Curotto, oprtou por  narrar a história de amor entre dois garotos que se conheceram meninos, e cujas famílias são amigas. Matías (Ignácio Roers) e Jerónimo (Estebán Maturini) cresceram juntos em Paso de Los Libres (Argentina), região folclórica, reserva ecológica e que possui um carnaval muito parecido com o do Brasil.

Ambos sentem uma forte atração um pelo outro, mas Matías já assume sua identidade sexual precocemente, enquanto o Jerónimo oscila entre as garotas e o amigo por quem nutre uma afeição especial. As cenas entre os dois que abordam a infância são muito líricas, e evidenciam as contradições entre os dois, mas são suficientemente elaboradas para não cair em relacionamento clichê e estereotipado de boy meets boy. As brincadeiras, embora carregadas de sensualidade, são bastante pueris. A amizade prevalece, e a atração é narrada de forma apropriada para a discussão das inclinações de ambos naquela idade em, sobretudo, naquela pequena cidade.

O pai de Jerónimo acaba decidindo ir embora de Paso de Los Libres, seguindo para o Brasil, e com isso os dois se separam por muitos anos. Essa transição surge na forma de uma memória afetiva em flashback de Matías, o ator Joaquín Parada quando menino,  despertada pela volta do amigo Jerónimo –  interpretado por Blaz Finardi Niz na infância, mais expressivo do que o ator Estebán Maturin na fase adulta do personagem. Quando se reencontram, Jeronimo está namorando uma brasileira, Rochi  (Renata Calmon).Há alguns diálogos em português, mas que funcionam dentro dos limites diegéticos da história, não existe nenhuma reflexão sobre questões transfronteiriças ou transculturais. Trata-se de uma eventualidade, como acontece em muitas coproduções, e até mesmo na vida real. O encontro casual entre os dois amigos acaba fazendo renascer as memórias da adolescência e a paixão.

O conflito aqui é sempre interno, embora a questão da orientação homossexual não ser aceita socialmente esteja sempre presente. Não existem cenas em que a questão social e cultural da homoafetividade e da sua inserção na sociedade esteja em relevo, ela é sempre implícita. Existe a suposição de que os pais de Jeronimo jamais aceitariam a relação, receio que ele expressa, enquanto os pais de Matías, e em especial, sua mãe, embora nunca confrontados com a opção sexual do filho, pareçam mais inclinados a lidar com essa possibilidade.

O filme resolve o conflito entre os dois jovens, mas deixa em aberto a questão do preconceito que provavelmente terão de enfrentar para viver o seu amor. O famoso beijo entre os dois chegou a ser aplaudido durante a projeção em Gramado. A paisagem da pequena cidade do interior e seus estuários, que dão titulo à película, garantem o tom bucólico perfeito para o romance.

A questão que nos afeta, entretanto, é mais de elaboração de personagens. Rochi, a garota, que papel joga na relação? É enganada. E isso não parece ser problema, o que é bastante duvidoso. O fato da existência do preconceito justifica o ato de omissão, e de certa forma, da infidelidade. Não explica, entretanto, a falta de discussão entre os dois, que poderia estar presente, afinal são um casal. Apesar disso, Rochi aceita de forma bastante natural a relação de Jerónimo e Matías, e o fim de seu compromisso com Jeronimo. A expectativa de romance entre os dois e a previsibilidade do “enfim juntos” acaba por consumir outras possibilidades abertas pelo filme, que na atualidade não pode ser mais visto como diferente apenas pelo fato de abordar uma love story gay. O momento atual pede um pouco mais de audácia. O lirismo e a sensibilidade das cenas de infância entre os dois amigos, preenchidas com muitos silêncios,  são o maior acerto do filme. O projeto surgiu a partir de um curta intitulado Matías y Jerónimo, e é o longa de estreia de Papu Curoto.

 

 

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