A maioria das bruxas retratadas nas séries e filmes que mencionam a feitiçaria reproduz o imaginário celta, ou anglo. Outro é o contexto histórico e cultural da personagem Carmen Eguiluz (Angely Gaviria) de Siempre Bruja (Always Witch, 2019), produção original da Netflix, série colombiana que explora a tradição de feitiçaria na América Latina, e se passa em Cartagena, cidade que foi o grande centro da inquisição espanhola, em 1646. A série é voltada para a audiência adolescente, e além de Carmen envolve um grupo de jovens colegas de escola vivendo as agruras da passagem para a vida adulta, com todas as incertezas e indefinições características desse momento.

Carmen é uma jovem bruxa, que vive no século XVII, que se enamora de Cristobal de Aranoa (Lenard Vanderaa), o filho de seus senhores. Sua mãe, Isabel de Aranoa (Cristina Warner), entra em desespero, e denuncia Carmen para os inquisidores espanhóis, e ela é assim condenada à fogueira. Mas seu destino trágico acaba sendo modificado por conta de um bruxo condenado à morte, Aldemar (Luiz Fernando Hoyos) que necessita dela para recuperar sua liberdade e eliminar um oponente, o jovem bruxo maligno Lucien. Em troca dessa missão, Aldemar lhe promete a possibilidade de ter de volta o seu grande amor e a envia para a Cartagena moderna. A série é baseada no best seller “Yo, Bruja” (Eu, Bruxa), de Isidora Chacón, criada por Ana Maria Parra, produzida por Juliana Barrera Pérez e a direção geral é de Liliana Bocanegra, que traz no currículo diversas produções audiovisuais, a maioria seriadas, com protagonistas femininas fortes.

No lado de baixo do Equador, os demônios e bruxas acabavam sendo sempre encarnados pelos escravos, notadamente as mulheres, pois eram objeto de atração sexual para seus senhores e alvo da ira de suas senhoras. Esse é um dos motivos pelos quais  a questão da caça às bruxas na Idade Média, na Europa e nas colônias,  é discutida como feminicídio, pois a maioria das vítimas eram mulheres. Embora a maioria dos curandeiros fossem homens, a figura da mulher como parteira, como vidente, reforça o seu papel de feiticeira, que disputa o poder da cura.Erotismo e feitiçaria erótica, contudo, sempre foram associados, e essa tradição vem da Europa. Promiscuidade sexual e bruxaria era o tipo de associação comum, e essa relação é anterior às colônias, mas encontra terreno fértil na América colonizada. Carmen, em sua nova vida, vai se interessar fortemente pelas aulas de biologia, ministradas pelo professor Estebán (Sebastian Eslava), e vai poder aprimorar seus conhecimentos sobre plantas medicinais, pois é um traço cultural que está presente desde sempre em sua formação.

O primeiro amigo que ela vai conhecer é Jhony Ki (Dylan Fuentes), jovem nerd com habilidades de hacker, responsável por introduzir Carmen a esse mundo moderno. Afetuosa, sociável, ela logo conquista um grupo de amigos na escola, Alicia (Sofia Bernal Araujo), Daniel (Dubán Andrés Prado), Leon (Carlos Quintero) e Mayte (Valeria Henríquez),  que vão proporcionar a ela uma experiência totalmente inovadora para uma garota que emerge dos tempos coloniais, a de ter um grupo de colegas de sua idade, viver sua adolescência.

A série Siempre Bruja se alimenta desse caldo cultural. Inserida na Cartagena moderna, Carmen perde bastante de seus poderes mágicos ao adentrar a civilização contemporânea, em meio a smartphones e novas tecnologias, aplicativos de namoro. Como conciliar esses universos aparentemente tão distintos? A questão da bruxaria e dos feitiços não remete necessariamente ao demonismo nem à possessão dentro da cultura latino-americana, ou ainda afro-caribenha. Ainda mais na Cartagena atual, que convive com serial killers como o “Assassino do Fogo”, cuja identidade vai ser revelada ao final, e contribui para atualizar o discurso machista e patriarcal que também ronda o universo da feitiçaria. O assassino executa suas vítimas em um ritual equivalente à fogueira moderna, vitimando as mulheres que não consegue subjugar.

É fato que a série se perde ao contextualizar sem grande aprofundamento essas questões mais complexas. Para uma audiência local e regional, com estruturas sociais caracterizadas por forte sincretismo religioso, toda essa discussão aparenta ser mais simples e justificável à luz da cultura, então nos resta o aspecto sentimental e afetivo. Não há luta contra o demônio no mundo latino, em que até pentecostais arriscam um descarrego, mas o discurso feminista está presente em Carmen, que não se conforma mais com a sua posição social numa sociedade colonial, e nem mesmo com a sua condição de escrava. Ela é negra, e sente orgulho de suas raízes. E não quer resolver sua vida com um casamento, embora preze o amor romântico, como nos deixa mais claro o final.

A série, entretanto, faz concessões à moral e aos bons costumes, e transforma um personagem assumidamente gay em hetero, em nome do amor verdadeiro, por exemplo, esse regenerador dos maus hábitos que ao final acabam sempre em casamento, mesmo que a cerimônia não seja exatamente cristã. O tema seria até interessante se não estivesse tão deslocado na trama. Há também a exploração de clichês de filmes de terror, como a cena do tabuleiro Ouija. No entanto, o final aberto à exploração do novo, e essa Carmem tão sensual desabrochando como mulher, valeriam uma segunda temporada, e há indícios de que isso possa ocorrer. Cartagena, ademais, é o cenário perfeito para uma ficção com essa temática. A associação entre feitiçaria, emancipação das mulheres e Inquisição é forte tanto na trama quanto nos teasers disponíveis na rede.