Em busca de sua relação com as raízes históricas da Armênia, um jovem cineasta perambula pela região Sudeste daquele país, e colhe imagens e cenas ao redor do extinto trecho da estrada de ferro Yerevan-Baku, apagada da história, e das ruínas de Ani, a capital armênia, cidade fantasma, cujos escombros são hoje território turco e tombados como Patrimônio Mundial da UNESCO. O genocídio armênio, também conhecido como Holocausto Armênio, perpetrado pelo Império Otomano e liderado pelos “jovens turcos”, fez deste povo sofrido uma das primeiras diásporas do Século 20.

A  relação do cineasta-protagonista com esse passado, no entanto, é um vácuo. Aparentemente, para ele e sua geração tudo não passa de uma inútil paisagem, e isso é demonstrado plano a plano, em indisfarçável tédio.

Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson são artistas plásticos, radicados no Canadá, país com tradicional comunidade armênia , da qual a maior expressão é o cineasta Atom Egoyan, e o filme foi antecedido por uma vídeo instalação chamada A Passage (Uma Passagem), que  faz uma bricolagem de imagens da histórica estrada de ferro Yerevan-Baku. O trecho foi suspenso pouco antes da consolidação da FEZ, a Free Economic Zone of Armenia (Zona Franca da Armênia) que se encontra na fronteira e transformou a vida de seus habitantes, agudizando ainda mais a condição de pobreza da população.


Akhbari é iraniano, e Kalmenson, russo. A Armênia foi parte integrante das Repúblicas Socialistas Soviéticas, mas não fica muito claro o objetivo do cineasta personagem e dos cineastas autores ao investigar essa realidade, que ainda passa pelo conflito com o Azerbaijão, que é muçulmano xiita, rico em petróleo, apoiado pela Turquia, em contraste com a Armênia Ortodoxa Cristã, apoiada pela Rússia. Tampouco fica claro para quem assiste qual é o território em que se baseia a narrativa.


Nem mesmo o conflito religioso chega a ser devidamente explorado. Ainda que a película abra com a Ave Maria de Bach e Gounod, é como se o protagonista e seus autores se deparassem com um umbral que não conseguem transpor. E, na verdade, talvez não queiram. Aparentemente, o cineasta protagonista de Limiar  prefere não resgatar essa história, e ainda faz uma brincadeira sobre os turcos em uma das poucas vezes em que se expressa ao longo do filme.

“Poderíamos jogar uma bomba lá que eles continuariam orando”. A frase não tem nenhum traço de ressentimento. Apenas indiferença e o sentimento explícito de não pertencimento.  Mesmo o encontro com a avó, a única personagem nomeada no filme, parece uma brincadeira. Percebe-se que a dupla de cineastas se identificam com o cineasta andarilho, sentem-se estrangeiros naquele país.


A palavra threshold é usada para conceituar o processo de segmentação das imagens a partir de um processo de limiarização de objetos que não se tocam, não possuem relação. Nos programas de edição de imagens, é um filtro que converte uma imagem real em borrões. Se a intensidade do pixel for maior que o valor da imagem original, o pixel passará a ser branco, se for menor será preto, criando assim uma imagem binária, reduzindo a riqueza de informação da imagem original.

É mais ou menos o que ocorre, um exercício de experimentação fotográfica, de cores estouradas. O filme Limiar (Threshold) é uma coprodução Canadá/Turquia/Armênia. O filme está na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que começa amanhã, dia 22 de Outubro.