Imagens de Aline Arruda

A nova série brasileira da Netflix, Irmandade, dirigida por Pedro Morelli, poderia ser apenas mais uma série sobre o desenvolvimento de uma facção criminosa dentro de uma penitenciária no Brasil, tema muito atual e com recentes episódios de violência. A trama se passa na década de 1990, o contexto de surgimento do PCC (Primeiro Comando da Capital) em São Paulo, fevereiro de 1994. No entanto, a obra se destaca justamente por não se preocupar em apresentar um histórico preciso do surgimento dessas organizações, tema que ainda deve merecer algo à altura, mas por destacar o papel das mulheres dentro desses episódios e sua participação no crime. O acento carioquíssimo de Seu Jorge quase atrapalha, mas a atriz Naruna Costa, a Cristina, de Taboão da Serra, São Paulo, e o goiano Lee Taylor, o Ivan, não deixam esse aspecto predominar. Essa é uma história que não se passa numa favela carioca.

A sinopse menciona Cristina (Naruna Costa), uma advogada honesta, que enfrenta um dilema moral ao descobrir que seu irmão, Edson (Seu Jorge) é o líder de uma facção criminosa em ascensão. O resumo é sincero, mas Cristina não se resume exatamente a um modelo inatingível de bom comportamento, e seu conflito é real e compreensível. Ela aspira uma posição melhor no mundo real, dentro do sistema, fora do crime, e aí surge naturalmente o maior problema. Ela nasceu pobre, na periferia, é negra, e tem de cuidar da família, como muitas outras mulheres na sua condição. Em uma sociedade tão corrompida, em que a polícia serve de suporte para a corrupção e todo tipo de politicagem, talvez não seja possível que ela realize seus sonhos.

O maior trunfo da série é a composição desta personagem, na verdade a protagonista, tarefa que a atriz cumpre com talento. Os teasers e a publicidade da série acabam por disseminar a ideia de que Seu Jorge, o Edson, é quem domina a cena. Não é bem assim, e quem brilha encadeando a narrativa é ela. Cristina está longe do estereótipo de mulher negra e favelada que vigora na maioria das produções de gênero. É atuante, ousada, e quer conquistar um lugar ao sol e seu quinhão de felicidade.

Na tentativa de escapar ao estigma de discriminação racial, de gênero e social, Cristina acaba se envolvendo com um dos parceiros de crime de seu irmão, Lee Taylor, o Ivan, sempre uma presença forte e densa em sua atuação, que compartilha os sentimentos de Cristina, mas não consegue escapar da inevitabilidade de seu destino. Cristina vive em estado de tensão permanente para dar conta desse conflito eterno entre a lei e a ordem em um país assolado por desigualdades sociais e um sistema legal corrupto. E seu envolvimento com o irmão dificulta a ela a tomada de decisão.

Ela não está sozinha nessa composição elaborada, e tem como coadjuvante nada mais nada menos do que Hermila Guedes, que interpreta a mulher de Edson, Darlene, e chefona do tráfico. Essa função é exercida sem que ela perca, em nenhum momento, a sua característica de mãe e dona de casa, uma dupla jornada bastante peculiar. Esse detalhe, que pode ter desagradado à audiência que preferiria um thriller de ação mais focado em cenas de embate entre Edson e o sistema penitenciário e a corporação policial, é um diferencial que deveria ser melhor explorado, mas que está colocado de forma bastante satisfatória.

Hobsbawn, em seu ensaio emblemático sobre o banditismo, Bandidos (2015), incluiu um capítulo sobre as mulheres. Ele mencionava sempre o fato de que o Brasil foi um dos poucos  países no mundo em que as mulheres assumiam um papel dentro dos bandos, e citava Maria Bonita. Havia indícios da presença de mulheres nas organizações criminais em outros lugares da América Latina, como, por exemplo, Peru e Argentina, mas de fato, não é traço comum. Hobsbawn, contudo, não foi muito  além de nomear as exceções, e conclui dizendo que provavelmente um estudo mais aprofundado deveria investigar as relações ao redor da constituição das organizações criminais, pois em geral as mulheres não integravam o bando de forma direta, mas exerciam funções de coadjuvante em outras esferas.

O elenco principal tem origens diversas. Mas artistas locais, como os rappers curitibanos Hauly, Menthor, Betinho Celanex e Mano Cappu fazem parte da série Irmandade, que estreou no dia 25 de outubro, na Netflix. As cenas de presídio da série de oito episódios foram rodadas na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara (região metropolitana), para onde o elenco todo se deslocou por meses, para dar mais autenticidade ao relato. Um dos diretores é Aly Muritiba, baiano radicado no Paraná que tem os presídios como locação frequente, certamente por ter trabalhado como agente penitenciário antes de fazer cinema.

A série já possui uma segunda temporada anunciada, mas vale a pena sobretudo por arriscar-se a abordar um tema tão presente na cinematografia brasileira de todos os tempos, desde o advento do cinema mudo, mas com um enfoque diferenciado que corre o risco de desagradar a amantes do gênero criminal. Ao introduzir a presença feminina na narrativa, o ponto de vista passa a ser o da família, e o lugar de fala é da mulher, que na verdade é quem ocupa o espaço do patriarca nas decisões cotidianas. O desafio da segunda temporada é encontrar um desfecho que não reproduza todos os clichês conhecidos sobre essa temática.