Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Autor: Luiza Lusvarghi (Página 1 de 5)

O Noi Galego de O Sabor das Margaridas


Totalmente noir, a série espanhola Netflix O Sabor das Margaridas (El Sabor de las Margaritas),  tem protagonista feminina de peso. A guarda civil Eva Mayo, ou melhor, a tenente Rosa Vargas (María Mera), é a típica policial que acaba se envolvendo com o seu objeto de investigação a ponto de não medir mais a distância entre o que é legal e o que é justo. Além disso, ela exibe sintomas graves de perturbação mental, configuradas principalmente por episódios de amnésia, algo que certamente comprometeria a sua personalidade e sua carreira. Na primeira temporada, essas questões não são tão evidentes quando a tenente Rosa Vargas chega ao povoado de Murias, na Galícia, para investigar o desaparecimento de Marta Labrada (Paloma Saavedra). Na medida em que a trama avança, e surge a questão da morte de Margarita (Martina Stetson), nos damos conta de que a história pessoal da mocinha é também parte de mais uma tragédia envolvendo tráfico de mulheres e prostituição infantil. Uma das personagens mais frágeis do início, a inocente adolescente Rebeca Soane (Sara Sanz), filha do policial Mauro Soane (Toni Salgado) vai desempenhar um papel fundamental em toda a trama.A primeira parte da história se passa no povoado galego de Murias, pertencente ao condado de Lugo, a cidade onde se desenvolve a ação da segunda parte, em que o ar  bucólico de pequena cidade é abandonado pela intrepidez urbana. A trama passa a incorporar hotéis luxuosos, boates, agências de modelo que funcionam como fachada para o s negócios escusos e até mesmo uma fundação católica de apoio a meninas em situação de rua. Desta forma, enigmas que ficam apenas como mistérios não totalmente resolvidos na primeira temporada ganham desdobramentos essenciais na segunda temporada.
Não se trata aqui apenas de vingar a morte de uma irmã, mas de buscar justiça para mulheres e crianças que são tratadas como gado e que tem sua vida e morte comercializadas sem pudores pelos empresários do tráfico humano. Embora o alvo preferencial dessa caçada sem tréguas movida por ela sejam homens influentes e importantes, a história não perdoa as mulheres que colaboram e elas estão em cena também como personagens de destaque. Enquanto houver alguém disposto a pagar, diz a jornalista Laura Nogueira (Noelia Castaño), haverá vítimas.

Esse diferencial é interessante também na segunda temporada. Apesar do protagonismo feminino, os personagens masculinos são interessantes e assertivos, em outras palavras, incorruptíveis, como Miranda (David Seijo) e Raúl Salgado (Santi Prego), policiais que não se desviam de seus objetivos e que possuem uma perspectiva humanista. Por outro lado, Salgado tem plena consciência das dificuldades enfrentadas em uma sociedade conservadora , em que a corrupção está disseminada dentro da própria corporação, e sem nenhuma estrutura para enfrentar o crime organizado.

Ainda assim, Eva como boa protagonista noir, não reconhece mais no sistema legal e na sociedade um instrumento de justiça e equidade. E acaba influenciando Salgado, que vai fazer com ela uma boa dupla. Para quem assiste no Brasil, é fácil desligar as legendas, pois o galego é muito semelhante ao português, diferentemente de séries como A desordem que ficou, que usa a Galicia apenas como cenário.

Essa questão de borrar as linhas tênues entre o bem e o mal, que fazem a mocinha estar longe de ser uma modelo de conduta, é típico de um thriller policial. Eva é praticamente uma marginal, ainda que com muito toque romântico, bem latina. Não importa o que ela faça, torcemos por ela. Na segunda temporada, entretanto, esses elementos que pareciam perfeitos e já se encontravam enunciados se dissolvem por vezes em um roteiro algo confuso, ainda que ao final, muitas pontas soltas sejam alinhavadas.Outro problema que é comum nas séries coproduzidas para a Netflix, parcerias com emissoras e produtoras locais, é o de deixarem o lançamento para depois da exibição em televisão, e desta forma, para o mercado internacional, deixam ganchos para uma segunda e terceira temporadas que só se resolvem um ano depois, caso desta série, lançada em março de 2019. A revelação sobre os desígnios perversos de Maltilla (Carlos Villarino), algo que já era esperado desde a primeira temporada, contribui para acentuar o suspense, mas pelo visto vai ficar para a próxima, se houver renovação.

A coprodução desse original Netflix é da  produtora de audiovisual CTV,  TVG e Comarex, com roteiro original de Ghaleb Jaber Martínez, Eligio Montero e Raquel Arias, e recebeu o prêmio de “Melhor Série de Televisão” no XVII Premio Mestre Mateo, de Academia Galega do Audiovisual

 

 

Sky Rojo: o road movie das garotas do bordel


A série espanhola Sky Rojo da Netflix, divertida, um autêntico road movie latino, faz a linha de casting global para atingir o mercado de fala hispânica do Velho ao Novo Mundo, e é bem feliz nessa empreitada. A espanhola Coral (Veronica Sanchez), a cubana Gina (Yanis Prado) e a argentina Wendy (Lali Sposito) são três prostitutas que prestam serviços em um bordel alimentado pelo tráfico humano de mulheres, em Tenerife, balneário espanhol sofisticado. Sob ameaça de morte das famílias, passaportes devidamente confiscados, elas cumprem com toda a rotina da casa, que inclui bondage, mulheres com pintos de borracha e todas as perversões do catálogo de sexo pago. Coral, a espanhola, a argentina e a cubana são amigas que inesperadamente, por solidariedade, acabam se envolvendo em um assassinato e passam a ser perseguidas por seus patrões.

O cafetão Romeo (Asier Etxeandia, de Dor e Glória) é ao mesmo tempo líder da gangue, traficante de drogas e explorador de mulheres. Seu principal capanga é Moisés, vivido por Miguel Angel Sivestre, o galã gay de Sense 8, da mesma Netflix, e do novelão Velvet.

Com essa sinopse, era esperado que estivéssemos diante de um dramalhão social, com cenas realistas e muitas lágrimas. Mas nada mais equivocado. É um thriller de ação, com pitadas de comédia, ou melhor de humor negro. Seu criador é o mesmo da Casa de Papel, Álex Pina, em parceria com Esther Martínez Lobato. Da mesma forma que torcíamos para os bandidos em La Casa de Papel, passamos a torcer para as prostitutas, que não possuem exatamente uma ficha muito limpa – os crimes das meninas vão bem além da ilegalidade da profissão que abraçaram, ou por coerção, ou por opção. Aos poucos elas vão se revelando delinquentes e pistoleiras tão cruéis quanto seus opressores, mas representam, sem dúvida, a parte oprimida.

O roteiro é muito bom, os diálogos são impecáveis, com falas inteligentes e bem resolvidas, a história prende do primeiro ao último minuto. No entanto, há algo estranho no ar, e a primeira pista está na direção de arte, na ambientação. Os enquadramentos do bordel e suas dançarinas, ainda que exibidas com seus dramas familiares, filhos que ficaram à espera, amores distantes, enfim, todas as mazelas que compõem o cotidiano de uma profissional do sexo, com surras do cafetão, e ameaças, são acentuadamente voyeurísticos. Quando o cliente diz que vai ficar com a puta que estiver mais excitada e enfia a mão pela calcinha de Gina fica a dúvida se a cena foi feita para mostrar o horror que ela sente por estar ali do ponto de vista do seu sofrimento, ou se esse desespero está retratado apenas para deliciar o cliente e por tabela o espectador que goza com este tipo de humilhação, e acha engraçado.

O veterinário que decide apoiar as garotas, pois é chantageado por elas, bancando o médico de emergência, as cenas no interior da loja de decoração e utensílios domésticos que personificam os desejos de consumo delas mas não passam de cenários, são extremamente ricos e interessantes, pelos contrastes que proporcionam – a casa dos sonhos das garotas é apenas uma vitrine. Outra cena hilária é protagonizada por Coral na piscina do resort repleto de turistas sorridentes, totalmente chapada. A sequência do depósito de escavadeiras figuraria sem esforço em qualquer clássico policial ou de terror, com direito a perseguições de carro que fazem a delícia de qualquer thriller do gênero. O cafetão é um mafioso sem remissão, e está bem representado por Romeo, mas há uma ênfase excessiva nos discursos sobre a necessidade de manter as garotas sob controle, defender a legalidade do negócio e o feminicídio que não conseguem ser assim tão cômicas, por mais que os discursos soem estereotipados e caricatos. A prostituição, aliada à distribuição de drogas, gera empregos e é uma das maiores receitas de renda da Espanha, afirma Romeo. Se é verdade, não há dados precisos, mas o livro El Proxeneta, do famoso cafetão espanhol conhecido como Miguel o Músico, prova que a ficção tem base na realidade, e em um negócio que gera, segundo dados do governo, cinco milhões de euros por dia, sendo que em 2016 foram identificadas 14 mil vítimas de tráfico. Muitas líderes dessas gangues são mulheres.

A serie já foi renovada. Ao final da primeira temporada, as três amigas conseguem escapar de seus algozes, mas com muita dificuldade, e não parece haver muita esperança para elas. Vamos ver como é que fica na segunda temporada, mas por enquanto impera o empoderamento feminino em sua versão neoliberal, ou seja, a única forma de se libertar é tomar o lugar do opressor, e reproduzir os mesmos comportamentos. Não há outra saída.
Imagens: Netflix/Tamara Arranz

 

 

Silenciadas: a Inquisição como o primeiro feminicídio da história

Silenciadas | Filme espanhol baseado em uma história real chega à Netflix - A OdisseiaNão sou bruxa, diz a jovem tecelã Amaia (Amaia Aberasturi) a seu inquisidor, o Juiz Rostegui (Alex Brendemühl). E ele responde perguntando a ela se ela sabe o que é uma bruxa. Ela diz que não, e ele então arremata: se você não sabe o que é uma bruxa, não pode saber se é ou não, você não sabe quem você é. Ao longo da narrativa, vamos descobrir que ele, o meritissimo inquisidor, tampouco sabe o que é uma bruxa, e muito menos o que é uma mulher, esse ser ameaçador, que o fascina. Em 1609 qualquer característica feminina libertária poderia ser considerada subversiva e um ato de bruxaria. A história de caça às bruxas no País Basco também é rica ao ao deixar entrever a distância entre os hábitos do povo pagão e os da elite cristã.

Imagem do filme SilenciadasO filme Silenciadas (Akelarre) joga o peso da Inquisição sobre o juiz, e não sobre a Igreja, representada pelo abobalhado Padre Cristóbal (Asier Oruesagasti), que caminha sorumbático, patético, e amedrontado, disposto a qualquer coisa para agradar pessoas hierarquicamente superiores, e livrar-se e de qualquer responsabilidade sobre a atrocidade daquelas mortes. Essa a maior armadilha da história do filme, pois sabemos que não foi bem assim. Mirar em camponeses ou pessoas de posse, e depois ficar com seus bens, era algo certamente que ia muito além da questão religiosa, embora não seja por acaso que eles decidam visitar a aldeia justamente no período do ano em que os homens, dedicados à pesca, se encontram ausentes. No entanto, o horror que a Igreja expressa às características femininas, exaltadas como sintomas de bruxaria, é algo que está presente desde o Malleus Maleficarum, o Martelo das Feiticeiras, manual inquisitorial, publicado entre 1486 ou 1487 na Alemanha por dois monges dominicanos. Para eles, não existiam bruxos, apenas bruxas. As práticas mágicas se confundem aos traços mais exuberantes da feminilidade. A falta de memória e de inteligência atribuída às mulheres as transformavam em escravas de seus instintos, seres amorais por natureza, segundo o Malleus. Esse é o conceito que permeia a trama e a relação entre os personagens.

Silenciadas: Conheça o novo premiado filme da Netflix baseado na Inquisição Espanhola - Notícias de cinema - AdoroCinemaO homem não é vulnerável ao demônio, ele é sempre basicamente bom, mas a mulher sim é instável, e pode se converter num instrumento do mal levando o homem à ruína. Daí ser necessário mantê-las sob controle. Não se pode deixá-las dançar sem parar, explica o Juiz. Então é preciso que se diga que essa obra não pretende inventariar a maior matança de gênero já registrada pela história baseada em pressupostos políticos e ideológicos, ou dados. O filme, que estreou em cinemas espanhóis antes de entrar para o catálogo da Netflix, foi baseado no livro A Feiticeira, de Jules Michelet, e busca compreender quais os aspectos essenciais da sexualidade feminina que desafiavam o status quo daquele período, e que talvez o desafiem até hoje. A sensualidade livre das camponesas que falam um dialeto que eles não compreendem, o puritanismo perverso do inquisidor que quer ver um autêntico Sabá, e chega ao êxtase ouvindo as histórias criadas pela Sherazade basca e suas amigas, a menina Katalin (Garazi Urkola), María ( Yune Nogueiras), Maider (Jone Laspiur ), Olaia (Irati Saez de Urabain) e Oneka (Lorea Ibarra), em sua busca desesperada para escapar da morte nas chamas, são temas que infelizmente permanecem em voga, basta atentar para o avanço do conservadorismo.

Crítica | Silenciadas e a temida liberdade feminina - CanaltechO personagem hesitante e  cético do argentino Daniel Fanego, o Consejero, embora contribua para respaldar a ideia do clero e dos burocratas a serviço do poder como meramente omissos, o que não é respaldado pela história, ajuda a contribuir para que se veja que as acusações de bruxaria não possuíam a menor fundamentação, não se nutriam de uma religiosidade alternativa e panteísta, ainda que as crenças populares politeístas tenham sido efetivamente os maiores obstáculos enfrentados pela Igreja para se consolidar. O pais basco, cenário do filme, é efetivamente uma região da Espanha com fortes tradições culturais pagãs, e uma mitologia farta repleta de demônios, bruxas, antropomorfos. Mas elas são evocadas pelo filme de forma muito discreta. E até poéticas. Os inquisidores, na verdade, acreditavam na existência das bruxas porque necessitavam delas para extenuar sua obsessão mórbida pelo temido demônio que os habitava e seu vazio existencial. Pablo Agüero conduz com delicadeza a narrativa, além de também assinar o seu roteiro ao lado de Katell Guillou. Foi  vencedor de cinco prêmios Goya, o Oscar da Espanha, em categorias como figurino, efeitos especiais e direção de arte.

Alta (in)fidelidade: nada melhor do que uma boa traição

Rolling Stone · 5 motivos para ficar fissurado por High FidelitySérie baseada em um dos romances mais populares do autor Nick Hornby, imortalizado no cinema por Stephen Frears em filme protagonizado por John Cusak, a série Alta Fidelidade traz Zoe Kravitz como a vendedora de uma loja de discos vintage em Crown Heights, no Brooklyn, Brooklin. No filme, de 2000, uma loja de vinis era realmente algo anódino, frequentada por egressos de Woodstock ou jovens completamente avessos ao mainstream, quase uma subversão. O tema do sebo de vinil como sinônimo de retrô falido aliás faz parte até mesmo de filmes nacionais, vide  Durval Discos, em que o protagonista interpretado por Ary França representa um solteirão edipiano subjugado pela mãe. Ao trazer esse cenário do livro de Hornby para o século 21, em que prensar um disco virou um traço hipster e muito cult, as coisas mudam.

Zoe Kravitz stars in 'High Fidelity'O figurino hippie chic de Kravitz condiz totalmente com esse novo ambiente, essa releitura, e a atriz está muito bem performando Robin Brooks, garota imersa na cultura pop de seu tempo e dona da loja em questão. Entre velhos ícones do rock e do pop, e as novidades contemporâneas, sobre espaço até para o pernambucano Lula Cortês, que aparece in memoriam na trilha, sem mencionar os comentários sobre Mutantes e Caetano Veloso, raridades do catálogo da lojinha de Robin.

High Fidelity é a série para mulheres negras que amam música – Sopa AlternativaEssa aparente traição à obra original, que resulta interessante, no entanto, não é tão radical quanto seria desejável. As decepções amorosas de Rob não soam tão melancólicas e niilistas quanto às do personagem original de Hornby, que por ser homem acaba assumindo ares de romântico e outsider, um cara apegado ao passado, vivendo fora da realidade, entre um romance frustrado e outro, ao som de clássicos do pop. Já o desespero de Rob para arrumar um marido é algo que costumeiramente é abordado em personagens femininas que passaram dos 30 anos ainda solteiras, e embora as roteiristas não cheguem a cair em estereótipos muito batidos do gênero, acabam ficando na superfície em temas que poderiam ser mais aprofundados. Nesse quesito, a música acaba ficando em segundo plano, como se fosse apenas um artifício secundário da mocinha em busca do amor verdadeiro.

High Fidelity Episode 6 Recap, Season 1: 'Weird … But Warm'Ainda assim, o desempenho de Kravitz é acima da média para esse tipo de trama, e quem está esperando por sua interpretação como a nova Mulher Gato da franquia do Batman certamente não vai se decepcionar. Kravitz é ainda produtora da série, que estreou na Hulu em 2020, mas está disponível na Starzplay, e que não teve a segunda temporada renovada, mas bem merecia uma segunda chance.

High Fidelity | Série de comédia é cancelada pela Hulu após a 1ª temporada | Reserva CinéfilaEm sua companhia, brilham os parceiros de loja, a estonteante e histriônica Cherise (Da’Vine Joy Randolph), e o ex-namorado, gay encruado, Simon Miller (David H. Holmes), hilários como vendedores que escolhem seus clientes. Nem todo mundo merece um vinil. Thomas Doherty faz o músico Liam, com a maior pinta de Oasis clonado- ele lembra muito o icônico astro indie Pete Doherty do Babyshambles -, e Kingsley Ben-Adir faz outro ex-namorado, Russell McCormick, que se converte no amor ideal e inacessível de Rob, e uma de suas maiores frustrações amorosas.

Zoe Kravitz in Hulu's High Fidelity Pictures | POPSUGAR EntertainmentO interesse de Kravitz pela música não é casual, e nisso coincide com sua personagem. Filha de Lenny Kravitz com a atriz Lisa Bonet, desde cedo se interessou por atuar e por música. Sua banda com Jimmy Giannopoulos se chama Lolawolf, junção do nome de seus dois irmãos mais novos, fruto da relação de Bonet com Jason Momoa, o Acquaman. A banda já gravou até com Miley Cyrus. Essa característica certamente contribui para enriquecer a performance de Kravitz como Robin, ela se movimenta pelo mundo da música com uma naturalidade de fazer inveja ao inspirado Rob Gordon de Cusak. O monólogo e a quebra da quarta parede funcionam de forma mais livre uma vez que a série traz mais personagens e externas. Uma curiosidade: a mãe de Kravitz, Lisa Bonet, fez um dos interesses amorosos de Cusak no filme de Frears como Marie DeSalle.

Cidade Invisível: o Brasil que não se vê


A série criada por Carlos Saldanha para a Netflix, Cidade Invisível, é uma grata surpresa para quem lê a sinopse, que fala em criaturas míticas a partir do nosso folclore, o que poderia sugerir algo conservador e didático, quase sempre recorrentes nos discursos nacionalistas.

Meio ambiente é um tema frequente para Saldanha, o criador da animação Rio (2011), e da arara brasileira Blu, mas esta é a sua primeira série em live action. O Rio de Janeiro da série explora uma outra dimensão da Cidade Maravilhosa, que raramente é enfocada, que corresponde ao  sepultamento incessante que é promovido em nome do progresso.

Ao atualizar as lendas de nosso folclore tupiniquim como Iara, Cuca, Curupira e Tutu Marambá, e as inserir na capital carioca, Cidade Invisível vai muito além de um Sitio do Picapau Amarelo para adultos, sem  jamais abandonar a linha do entretenimento a que se propõe. O enredo policial conta com um protagonista que é um investigador ao estilo noir – quebrando as regras do jogo para chegar à verdade, doa a quem doer, e borrando as linhas entre o bem e o mal. O papel cai bem para o ator Marcos Pigossi no papel do agente policial ambiental Eric e sua filha Luna, interpretada por Manu Dieguez, atriz infantil e influenciadora digital, além de Julia Konrad que performa a esposa e ativista Gabriela. O estopim da trama se dá a partir da morte inexplicável de Gabriela, e do surgimento de um Boto Cor de Rosa numa praia carioca.

A delegacia da Polícia Ambiental e a relação entre Eric e sua parceira Marcia (Aurea Maranhão) conferem o clima exato de uma narrativa policial tradicional. Pigossi deixou a Globo pelas incertezas da Netflix e vem se aventurando em séries internacionais, como o vilão de Tidelands (2018), por exemplo, que também explora o sobrenatural. Por outro lado, investir na discussão sobre a importância da ecologia e preservação do meio ambiente, e apontando para a escalada de crimes engendrados por empresários inescrupulosos e grandes grupos das grandes cidades globais, que almejam crescer  pisoteando florestas e pessoas, é um tema de grande apelo tanto internacional quanto nacional. basta pensar nas recentes queimadas do Pantanal e no imbróglio internacional em que se encontra o atual governo por conta da Amazônia.

Atores como Alessandra Negrini e Fabio Lago dão verossimilhança com sua interpretação aos personagens Cuca e Curupira, mas o Tutu Marambá vivido pelo ex-Matanza Jimmy London é de tirar o chapéu, embora bem distante do Bicho Papão das histórias para não dormir.  Os personagens míticos do nosso folclore ganham uma repaginada bem atual, com elementos que mesclam figuras do nosso folclore caboclo como Saci, Corpo Seco, Iara, a traços de demônios gananciosos, feiticeiras da idade média. Mas como já diziam Hobsbawm e Terence Rancer, em A invenção das Tradições, muitas das nossas tradições culturais foram sendo adaptadas a partir de lendas ou até inventadas, como um novo olhar sobre o passado, por questões patrimoniais e econômicas, e são sempre releituras.

A Cuca, por exemplo, acabou moldada ao nosso imaginário local pela figura de um jacaré, mas sua provável origem, pesquisada por Câmara Cascudo, é a da Santa Coca das lendas ibéricas, uma feiticeira que pode assumir formas de bichos, ou ainda da Coca, que no Minho faz parte dos festejos de Corpus Christi. A Iara tem algo em comum com as sereias, mas também com Iemanjá, então é perfeito que ela seja representada por uma mulher negra, embora seja praticamente inédita essa apropriação, pois Iemanjá é também frequentemente representada por Nossa Senhora dos Navegantes.

O Curupira, defensor das florestas e dos animais, encontra similaridades com entidades míticas europeias, como o deus celta Cernunnos, que surge na série franco-belga Labirinto Verde (2017-2019), ou o espírito basco Basajaun, explorado na primeira parte da Trilogia Baztán, também produzida para a Netflix a partir da obra da escritora espanhola Dolores Redondo – os filmes O Guardião Invisível (2017), Legado nos Ossos (2019) e Oferenda à Tempestade (2020) estão disponíveis na plataforma. Essas produções, coincidentemente, exploram o filão criminal para traçar sua narrativa que se alterna entre o horror e o fantástico.

De volta à Cidade Invisível, a ambientação perfeita da Lapa como reduto de entidades míticas, em meio a ocupações e barzinhos da moda contribui para dar consistência à trama e verossimilhança. O abuso de alguns efeitos especiais, desnecessários, poderia ser atenuado, mas não chega a comprometer. A sequência em que a Cuca entra na mente de Eric é primorosa e de impacto, e é descrita por Saldanha em material promocional. A narrativa demora para entregar a origem de Eric, o que dá a sensação de que foi meio gratuito. O Rio de Janeiro que já foi ocupado por franceses, retomado pelo portugueses, e cartão postal do País para gringos, evoca a partir da série esse imaginário que oscila entre matas (ainda) virgens e urbanidade, o passado colonial , a gentrificação e as novas tecnologias.

O tema da especulação imobiliária que avança sobre a natureza sem piedade não poderia ser mais atual e está bem contextualizado. E ainda que a direção escorregue em muitos pontos, tampouco explorados de forma adequada no roteiro, que venha a segunda temporada. Uma narrativa fantástica brasileira de referência, e que conta com o suporte de atores maravilhosos como José Dumont (Ciço) no papel de líder de uma comunidade de pescadores e Thaia Perez como a avó de Erica, Januária. A produção é da Prodigo Filmes e a direção geral é de Luiz Carone (HBO, Pico da Neblina, 2019) e Julia Jordão (HBO, O Negócio, 2013-2018), mais conhecidos pela série da HBO. O roteiro foi desenvolvido em colaboração com a dupla de escritores de literatura fantástica Carolina Munhóz e Raphael Draccon. Eles desenvolveram também a série O Escolhido (2019) para a Netflix, mas o resultado aqui foi bem melhor.

 

 

 

O legado de Chico Rei e o resgate da memória afetiva


Premiado como melhor documentário pelo público 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com Menção Honrosa do júri, o documentário Chico Rei entre nós foi uma grata surpresa para a maioria dos cinéfilos que costumavam se acotovelar nas filas neste período e que agora disputam um aluguel temporário de uma sala virtual, sujeita a no máximo duas mil visualizações, na internet.

O longa de  estreia de Joyce Prado sobre a história do rei congolês ora reputada como verdadeira, ora como lenda, coloca em primeiro plano um país que até então se desconhecia, ou melhor, uma versão da história da escravidão e dos afrodescendentes que é quase sempre ignorada ou mistificada em favor da versão colonialista e branca.

Galanga era o rei do Congo, mas acabou capturado com sua família para ser vendido como escravo no Brasil. No trajeto, sua esposa e filha são atiradas ao mar. Galanga sobrevive com seu filho Muzinga e ao chegar ao Brasil, em 1740, é batizado como Francisco. A construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos é atribuída a ele, que também era devoto de Santa Ifigênia, que trabalhou por anos na Mina da Encardideira, em Vila Rica (atual Ouro Preto) economizando dinheiro para concretizar esse sonho.

Essa não é a única façanha do rei Chico. Alforriado, ele vai comprar a liberdade de seus antigos súditos. Essa história de vencedores e não de vencidos, de um personagem que veio da África com um legado cultural e ético é a alma do documentário de Prado.


As irmandades criadas em torno dessas igrejas dos Homens Pretos, que eram proibidos de frequentar o culto católico com os homens brancos, surgem como uma manifestação de cultura afetiva e cultural de extrema importância para a comunidade negra, ainda que fruto de uma religiosidade imposta pela colônia, e o filme sabe explorar  em essa questão, por meio dos depoimentos de pessoas relacionadas a essas confrarias e das imagens de devotos e santos. O documentário não se limita a falar de Minas, e adentra São Paulo e os bairros de Santa Ifigênia e Liberdade, locais em que a memória da herança africana foram apagados.

Outro resgate importante que o longa faz é sobre a origem das congadas,  decorrentes precisamente do mito criado em torno de Chico Rei, do Congo, rito folclórico normalmente exibido como curiosidade turística de forma totalmente descontextualizada e sem nenhuma preocupação histórica e popular.


A maior riqueza do documentário é buscar nos personagens da atualidade os nossos Chico Reis, reavivando por meio das imagens e das falas a importância do sentimento de pertencimento à comunidade e a um coletivo, e o papel transformador que esse lugar pode trazer. Afina, a imagem do preto velho que é descartado pelo seu senhor com a abolição da escravidão, sem nenhuma utilidade, tem de ser desmistificada. A contribuição cultural da comunidade africana ao Brasil, e a diversos países latino-americanos, é prova inconteste de que essa visão do homem negro e escravo que nada tinha a oferecer além do seu suor é apenas mais uma faceta perversa do colonialismo que insiste em negar esse legado.

Os prazeres de Clarice, segundo Marcela Lordy


Quando decidiu converter o livro Um aprendizado ou o Livro dos Prazeres em filme, há quase 10 anos, a diretora Marcela Lordy se propôs a encarar um desafio e tanto. Não é fácil adaptar a enigmática Clarice Lispector para a tela grande. Suzana Amaral cometeu essa proeza e subverteu o texto da escritora que foi em vida chamada até mesmo de bruxa, e compareceu a um evento de feitiçaria na Colômbia munida de um texto em espanhol, o poético e onírico O Ovo e a Galinha – a maior celebração da vida – em A Hora da Estrela, transformando a singela Macabéa numa protagonista que nos arrasta num turbilhão de emoções e revolta, tendo ao seu lado a maravilhosa Marcélia Cartaxo.

Lordy, entretanto, foi além, e quis mergulhar de fato no universo da escritora, que era praticamente a protagonista de toda a sua literatura, e chamou para isso a atriz perfeita, Simone Spoladore, que pode encarnar a obsessão, a sensualidade e o fatalismo dessa mulher que fascinou o seu tempo, e nos deixou romances absurdamente angustiantes e originais.

O Livro dos Prazeres não é um filme sobre Clarice, mas a partir de Clarice. Para acompanhar a professora Lorelei, a Lori, temos a figura do filósofo e professor Ulisses, personagem do argentino Javier Drolas, do longa Medianeras (2011) que faz aqui seu segundo professor no Brasil  – o primeiro foi o professor assediado sexualmente por Bianca Comparato na excelente série A Menina sem Qualidades, na extinta MTV Brasil. A química entre os dois, Spoladore e Drolas, funciona bem, ele com seu ar cético e irreverente, fazendo o gênero sexualmente libertário, pansexual e de estudada indiferença, o que atrai imediatamente a Lori.


Por sua vez, ela entra em cena com seu ar sensual e perdido de musa existencialista,  que não consegue se entregar sexualmente e afetivamente a ninguém, por medo de se perder do seu verdadeiro eu, de se entregar a uma paixão que não consiga preenchê-la. Dilema típico de Lispector.


Para felicidade de quem assiste, essas questões não são nunca reduzidas ou estereotipadas em nenhum momento. O filme tem ainda excelentes coadjuvantes como a amiga taróloga interpretada por Vivida por Martha Nowill. O filme agrada tanto a quem espera um filme intimista que expõe de forma lírica e feminina a mulher e seus dilemas contemporâneos, coisa rara nos filmes brasileiros, quanto aos fãs de Clarice, que Lordy atualiza.

Os problemas de Lori com seu irmão Davi, interpretado por Felipe Rocha, e com o pai bolsonarista caem como uma luva no ambiente naquele apartamento de frente para o mar que ela não consegue decorar. O crochê que ela desfia como uma Penélope sem rumo e o vídeo que ela assiste do filme Terra em Transe, com Glauce Rocha recitando que gostaria de se casar, como qualquer outra mulher, tudo é parte do calvário que ela terá de trilhar para realizar seu desejo, o que ela mais teme.


Nessa mudança interminável, de casa e de vida, repleta de relações inconsequentes – amantes de ambos os sexos entram e saem do apartamento – Lori se apaixona por Ulisses, o que não acontece no livro. Assim, a personagem cumpre seu destino, saindo do casulo e batendo as asas de borboleta. A fotografia do filme, belíssima, não nos deixa margem para um cochilo, e nos mantém acesos diante dessa saga intimista e inquietante. Como Clarice. O roteiro é uma colaboração de Lordy com a argentina Josefina Trotta.

Ana. Sem título: Murat faz ensaio sobre Feminismo, Política e Arte na América Latina


Em seu longa-metragem Ana. Sem título, que estreou na 44ª Mostra, Lucia Murat volta a seus filmes-ensaio em que mescla tanto a linguagem do documental quanto a ficcional, e radicaliza a proposta que já estava presente em seu longa de estreia Que bom te ver viva (2000).

Ao criar, a partir de uma gravura, a personagem da artista plástica e performer brasileira Ana, desaparecida durante a ditadura militar, Murat se dispõe a percorrer o labirinto em que a região latino-americana se envolveu a partir da década de 1960, vale dizer, de sua geração. Ao longo do filme, por meio da jornada em busca de Ana, jovem e promissora artista negra, homossexual, revolucionária, vamos nos deparar com a presença de mulheres artistas tão distintas quanto Lygia Pape, Maria Luisa Bemberg, Antonia Eiriz, Frida Kahlo, Kati Horna, Lea Lublin e Luz Donoso.


A inspiração para produzir uma historiografia da mulher no contexto político e artístico da América Latina surgiu a partir da peça-documentário de Clarice Zarvos, Mariana Barcelos e Daniele Ávila Small, de 2017, Há mais futuro que passado. Embalada por essa encenação do real, Murat decidiu se lançar numa longa pesquisa e criou uma personagem que efetivamente existiu, mas da qual nada sabemos, e parte em longa viagem que se compara quase a um rito iniciático, uma aventura, plena de descobertas.


Os verdadeiros protagonistas do filme são a atriz Stella Rabello, que a partir da descoberta de Ana na exposição Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985, na Pinacoteca de São Paulo, decide empreender um mergulho no período, a própria diretora e sua equipe mínima composta pelo diretor de fotografia Leo Bittencourt; e Andressa Clain Neves, a técnica de som, que acabou se envolvendo num episodio verdadeiro de racismo ao ser barrada no aeroporto do México.

A eles se somam diversas personalidades do Chile, Argentina, Peru, México, Cuba, que vão nos ajudando a compor o rosto de Ana, que é a face da arte sob a repressão de ditaduras políticas, da repressão à expressão artística, de violência contra a mulher e, acima de tudo, da mulher negra. O time conta ainda com a atriz Roberta Estrela D´Alva, em belíssima performance do poema da poeta peruana Victoria Santa Cruz Me gritaron negra.


Além de tecer esse painel belíssimo e urgente sobre a arte e a política latino-americanas, o longa é um libelo feminista e um grito de revolta contra o racismo estrutural. Não por acaso, o filme fecha com uma leitura de Um teto todo seu, de Virginia Wolf, interpretado por Stella. É impossível assistir ao filme sem sair com a sensação de que um pedaço de nós, da nossa história, nos foi roubado, mas que, ao final, de alguma forma, o cinema pode trazer de volta não somente essas imagens como mera informação, mas a experiência.

 

 

 

Adaptação de romance húngaro, Pilato emociona ao falar de mãe e filha


Magda Szabó foi uma escritora húngara que sofreu perseguições políticas na Hungria comunista. Sua obra contundente, no entanto, está voltada para o terreno árido dos dramas pessoais.  Pilatos, adaptada para o cinema por Linda Dombrovszky,  com a colaboração dos roteiristas György Somogyi e Sándor Szélesi, trata mais especificamente das relações entre Anna (Ildikó Hámori), a mãe, dona de casa provinciana, e sua filha, Iza (Anna Györgyi), médica e profissional bem-sucedida.

É também uma trama que aborda a forma como lidamos com a morte e a velhice, com a nossa mortalidade. A narrativa está dividida, assim como o livro em terra, fogo, água e ar. O outro título em inglês, Iza´s Ballad, coloca a filha Iza num papel central, enquanto Pilatos remete à figura do governante romano Pôncio Pilatos, conhecido por ter sido o juiz que não interveio contra os fariseus na condenação de Jesus Cristo a morrer na cruz. Desta forma, o ato de Iza de  lavar as mãos, ao início do filme e ao seu final,  eximindo-se de sua responsabilidade, está envolto em culpa e dor.

A abertura do filme, com a mãe recebendo a notícia da morte de seu amado marido, com a câmera em close, funciona como uma introdução ao belo trabalho de Dombrovszky, em seu primeiro longa. Não há diálogos, o  médico é apenas uma voz, a relação se estabelece a partir da expressão facial de Anna – ela entra como uma mulher feliz, empoderada, e a partir da notícia, seu rosto se apaga, como se ela estivesse entranto em transe.

O que é importante não são os detalhes, as imagens do hospital são muito rápidas,  são as emoções de Anna que nos conduzem. Para a viúva, que conversa com o marido e companheiro como se jamais houvesse partido ao longo de todo o filme, o tempo não passou.


A partir dali, vamos acompanhar as duas em sua conflituosa jornada que se inicia com Iza decidindo, de forma autoritária, que a mãe irá morar com ela, na cidade. O apartamento elegante e moderno em tons de cinza contrasta de forma impactante com a casa ampla e iluminada do campo, com artefatos simples, e um coelho de estimação, o Capitão.

Iza decide o que é melhor para sua mãe naquele momento, porque não consegue entender a importância afetiva de uma panela velha, de um quadro roto, que para ela são apenas elementos decorativos. É preciso inovar, ela diz. Para Anna, tudo é memória, e sua expressão vazia e dilacerada antecipa a tragédia.

O filme é excepcionalmente maduro para uma autora estreante, não apenas pelos lindos planos, pela fotografia, e pelo trabalho de atores, mas pelo tema escolhido e pelo recorte preciso que ela faz dos dois mundos que jamais se encontram, o da mãe e o da filha.  Não se trata aqui apenas de mais uma história abordando as relações nem sempre fáceis entre mãe e filha, mas também de uma reflexão sobre a morte e a vida. Anna representa um passado antiquado, Iza a cidade moderna e nem sempre acolhedora, e elas travam aqui um embate duro e fatal.

O filme deve estrear na televisão húngara em novembro.

Mosquito: a saga antibelicista e decolonial de Portugal


O longa português Mosquito não é a estreia de seu diretor João Nuno Pinto, nascido em Moçambique, de onde saiu para Lisboa com 5 anos. No entanto, essa coprodução Portugal, Brasil e França é considerada o primeiro grande filme de guerra português a tratar com densidade da participação do país na Primeira Guerra Mundial e a investigar de forma crítica a relação com as colônias africanas.

O personagem Zacarias foi baseado no avô de Pinto. Frágil, com apenas 17 anos, ele é enviado a combater pelo exército português em Moçambique, para defender a pátria de uma invasão alemã. Uma vez desembarcado, contrai malária e é deixado à própria sorte por sua companhia. Sozinho, desesperado, Zacarias se embrenha pela selva, a princípio com dois escravos, e termina só e febril, buscando voltar para os seus companheiros.


Sua jornada mata adentro é totalmente surreal, delirante, e mal se percebe o que é imaginação ou realidade. A ideia é essa, provocar, colocar Zacarias em conflito permanente com a sua presença de homem branco, colonizador, de encarar a desumanidade da guerra e a forma como seu país trata seus súditos, escravos. Na abertura do filme, uma voz grita que eles podem desembarcar se agarrando à carapinha dos negros que foram designados para sua recepção. Sempre amarrados, tratados como animais, os colonos negros desfilam pelo filme em andrajos humilhantes. Em seus delírios, Zacarias aos poucos vai se colocando no lugar deles. Afina, o que o diferencia daqueles homens e mulheres? Sua roupa de expedicionário se converte em trapos,  e ele é confundido com um andarilho.

Em uma das passagens do filme, a mais lisérgica, ele cai prisioneiro de uma tribo de mulheres africanas, e é colocado em regime de trabalho forçado, mas mais uma vez, o limiar entre realidade e imaginário é posto à prova. Na verdade, Zacarias está entregue a suas alucinações e a sua culpa.


A saga do personagem pelas terras moçambicanas tem o prenúncio de um rito iniciático, e traz um processo de auto-descoberta. Afinal, o que é que ele defende? Um povo brutal que mal se importa com a sua condição?

Os alemães surgem em cena personificados por um soldado tão vulnerável quanto ele, não há tropas. Zacarias aos poucos vai se modificando, se sentido mais identificado com os oprimidos do que com os opressores. Talvez seu maior inimigo esteja mesmo em solo pátrio, ali, entre os companheiros.

Quando ele acorda num hospital de campanha, ao final, e pergunta há quanto anos está ali, o médico responde três semanas. Sua incredulidade é a nossa, então foi tudo um delírio tropical? Pouco importa, Zacarias não é mais o mesmo, os minutos finais deixam isso claro. Agora, sim, ele tem um lugar no mundo.

O filme teve excelente repercussão em seu país, e abriu o Festival de Roterdã no ano passado. O ator João Nunes Monteiro é o protagonista absoluto do filme, tem atuação sensível e intensa, e sua angústia nos remete a outros personagens puros que são lançados em conflitos de extrema crueldade, como o jovem camponês Florya (Aleksei Kravchenko) em Vá e Veja (1985), obra-prima de Elen Klimov.

Aqui, a tragédia desse libelo contra a guerra, vem com acento lusitano e nos faz pensar, como brasileiros, para além das guerras, nas relações de poder de Portugal com suas colônias, e no desprezo pela África e seus habitantes, no racismo estrutural que se coloca de modo permanente, e que nós em alguma medida herdamos. João Nuno Pinto tem vivido entre Lisboa e São Paulo. Dirigiu os curtas Don’t Swim (2015) e Skype Me (2008). Seu primeiro longa-metragem, América (2010), foi exibido na 34ª Mostra. Mosquito é seu segundo longa, e ele vem afirmando em entrevistas que é  sua forma de se redimir do lado sombrio da colonização, e defender a sua origem moçambicana.

 

 

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