Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Autor: Luiza Lusvarghi (Página 1 de 5)

O legado de Chico Rei e o resgate da memória afetiva


Premiado como melhor documentário pelo público 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com Menção Honrosa do júri, o documentário Chico Rei entre nós foi uma grata surpresa para a maioria dos cinéfilos que costumavam se acotovelar nas filas neste período e que agora disputam um aluguel temporário de uma sala virtual, sujeita a no máximo duas mil visualizações, na internet.

O longa de  estreia de Joyce Prado sobre a história do rei congolês ora reputada como verdadeira, ora como lenda, coloca em primeiro plano um país que até então se desconhecia, ou melhor, uma versão da história da escravidão e dos afrodescendentes que é quase sempre ignorada ou mistificada em favor da versão colonialista e branca.

Galanga era o rei do Congo, mas acabou capturado com sua família para ser vendido como escravo no Brasil. No trajeto, sua esposa e filha são atiradas ao mar. Galanga sobrevive com seu filho Muzinga e ao chegar ao Brasil, em 1740, é batizado como Francisco. A construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos é atribuída a ele, que também era devoto de Santa Ifigênia, que trabalhou por anos na Mina da Encardideira, em Vila Rica (atual Ouro Preto) economizando dinheiro para concretizar esse sonho.

Essa não é a única façanha do rei Chico. Alforriado, ele vai comprar a liberdade de seus antigos súditos. Essa história de vencedores e não de vencidos, de um personagem que veio da África com um legado cultural e ético é a alma do documentário de Prado.


As irmandades criadas em torno dessas igrejas dos Homens Pretos, que eram proibidos de frequentar o culto católico com os homens brancos, surgem como uma manifestação de cultura afetiva e cultural de extrema importância para a comunidade negra, ainda que fruto de uma religiosidade imposta pela colônia, e o filme sabe explorar  em essa questão, por meio dos depoimentos de pessoas relacionadas a essas confrarias e das imagens de devotos e santos. O documentário não se limita a falar de Minas, e adentra São Paulo e os bairros de Santa Ifigênia e Liberdade, locais em que a memória da herança africana foram apagados.

Outro resgate importante que o longa faz é sobre a origem das congadas,  decorrentes precisamente do mito criado em torno de Chico Rei, do Congo, rito folclórico normalmente exibido como curiosidade turística de forma totalmente descontextualizada e sem nenhuma preocupação histórica e popular.


A maior riqueza do documentário é buscar nos personagens da atualidade os nossos Chico Reis, reavivando por meio das imagens e das falas a importância do sentimento de pertencimento à comunidade e a um coletivo, e o papel transformador que esse lugar pode trazer. Afina, a imagem do preto velho que é descartado pelo seu senhor com a abolição da escravidão, sem nenhuma utilidade, tem de ser desmistificada. A contribuição cultural da comunidade africana ao Brasil, e a diversos países latino-americanos, é prova inconteste de que essa visão do homem negro e escravo que nada tinha a oferecer além do seu suor é apenas mais uma faceta perversa do colonialismo que insiste em negar esse legado.

Os prazeres de Clarice, segundo Marcela Lordy


Quando decidiu converter o livro Um aprendizado ou o Livro dos Prazeres em filme, há quase 10 anos, a diretora Marcela Lordy se propôs a encarar um desafio e tanto. Não é fácil adaptar a enigmática Clarice Lispector para a tela grande. Suzana Amaral cometeu essa proeza e subverteu o texto da escritora que foi em vida chamada até mesmo de bruxa, e compareceu a um evento de feitiçaria na Colômbia munida de um texto em espanhol, o poético e onírico O Ovo e a Galinha – a maior celebração da vida – em A Hora da Estrela, transformando a singela Macabéa numa protagonista que nos arrasta num turbilhão de emoções e revolta, tendo ao seu lado a maravilhosa Marcélia Cartaxo.

Lordy, entretanto, foi além, e quis mergulhar de fato no universo da escritora, que era praticamente a protagonista de toda a sua literatura, e chamou para isso a atriz perfeita, Simone Spoladore, que pode encarnar a obsessão, a sensualidade e o fatalismo dessa mulher que fascinou o seu tempo, e nos deixou romances absurdamente angustiantes e originais.

O Livro dos Prazeres não é um filme sobre Clarice, mas a partir de Clarice. Para acompanhar a professora Lorelei, a Lori, temos a figura do filósofo e professor Ulisses, personagem do argentino Javier Drolas, do longa Medianeras (2011) que faz aqui seu segundo professor no Brasil  – o primeiro foi o professor assediado sexualmente por Bianca Comparato na excelente série A Menina sem Qualidades, na extinta MTV Brasil. A química entre os dois, Spoladore e Drolas, funciona bem, ele com seu ar cético e irreverente, fazendo o gênero sexualmente libertário, pansexual e de estudada indiferença, o que atrai imediatamente a Lori.


Por sua vez, ela entra em cena com seu ar sensual e perdido de musa existencialista,  que não consegue se entregar sexualmente e afetivamente a ninguém, por medo de se perder do seu verdadeiro eu, de se entregar a uma paixão que não consiga preenchê-la. Dilema típico de Lispector.


Para felicidade de quem assiste, essas questões não são nunca reduzidas ou estereotipadas em nenhum momento. O filme tem ainda excelentes coadjuvantes como a amiga taróloga interpretada por Vivida por Martha Nowill. O filme agrada tanto a quem espera um filme intimista que expõe de forma lírica e feminina a mulher e seus dilemas contemporâneos, coisa rara nos filmes brasileiros, quanto aos fãs de Clarice, que Lordy atualiza.

Os problemas de Lori com seu irmão Davi, interpretado por Felipe Rocha, e com o pai bolsonarista caem como uma luva no ambiente naquele apartamento de frente para o mar que ela não consegue decorar. O crochê que ela desfia como uma Penélope sem rumo e o vídeo que ela assiste do filme Terra em Transe, com Glauce Rocha recitando que gostaria de se casar, como qualquer outra mulher, tudo é parte do calvário que ela terá de trilhar para realizar seu desejo, o que ela mais teme.


Nessa mudança interminável, de casa e de vida, repleta de relações inconsequentes – amantes de ambos os sexos entram e saem do apartamento – Lori se apaixona por Ulisses, o que não acontece no livro. Assim, a personagem cumpre seu destino, saindo do casulo e batendo as asas de borboleta. A fotografia do filme, belíssima, não nos deixa margem para um cochilo, e nos mantém acesos diante dessa saga intimista e inquietante. Como Clarice. O roteiro é uma colaboração de Lordy com a argentina Josefina Trotta.

Ana. Sem título: Murat faz ensaio sobre Feminismo, Política e Arte na América Latina


Em seu longa-metragem Ana. Sem título, que estreou na 44ª Mostra, Lucia Murat volta a seus filmes-ensaio em que mescla tanto a linguagem do documental quanto a ficcional, e radicaliza a proposta que já estava presente em seu longa de estreia Que bom te ver viva (2000).

Ao criar, a partir de uma gravura, a personagem da artista plástica e performer brasileira Ana, desaparecida durante a ditadura militar, Murat se dispõe a percorrer o labirinto em que a região latino-americana se envolveu a partir da década de 1960, vale dizer, de sua geração. Ao longo do filme, por meio da jornada em busca de Ana, jovem e promissora artista negra, homossexual, revolucionária, vamos nos deparar com a presença de mulheres artistas tão distintas quanto Lygia Pape, Maria Luisa Bemberg, Antonia Eiriz, Frida Kahlo, Kati Horna, Lea Lublin e Luz Donoso.


A inspiração para produzir uma historiografia da mulher no contexto político e artístico da América Latina surgiu a partir da peça-documentário de Clarice Zarvos, Mariana Barcelos e Daniele Ávila Small, de 2017, Há mais futuro que passado. Embalada por essa encenação do real, Murat decidiu se lançar numa longa pesquisa e criou uma personagem que efetivamente existiu, mas da qual nada sabemos, e parte em longa viagem que se compara quase a um rito iniciático, uma aventura, plena de descobertas.


Os verdadeiros protagonistas do filme são a atriz Stella Rabello, que a partir da descoberta de Ana na exposição Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985, na Pinacoteca de São Paulo, decide empreender um mergulho no período, a própria diretora e sua equipe mínima composta pelo diretor de fotografia Leo Bittencourt; e Andressa Clain Neves, a técnica de som, que acabou se envolvendo num episodio verdadeiro de racismo ao ser barrada no aeroporto do México.

A eles se somam diversas personalidades do Chile, Argentina, Peru, México, Cuba, que vão nos ajudando a compor o rosto de Ana, que é a face da arte sob a repressão de ditaduras políticas, da repressão à expressão artística, de violência contra a mulher e, acima de tudo, da mulher negra. O time conta ainda com a atriz Roberta Estrela D´Alva, em belíssima performance do poema da poeta peruana Victoria Santa Cruz Me gritaron negra.


Além de tecer esse painel belíssimo e urgente sobre a arte e a política latino-americanas, o longa é um libelo feminista e um grito de revolta contra o racismo estrutural. Não por acaso, o filme fecha com uma leitura de Um teto todo seu, de Virginia Wolf, interpretado por Stella. É impossível assistir ao filme sem sair com a sensação de que um pedaço de nós, da nossa história, nos foi roubado, mas que, ao final, de alguma forma, o cinema pode trazer de volta não somente essas imagens como mera informação, mas a experiência.

 

 

 

Adaptação de romance húngaro, Pilato emociona ao falar de mãe e filha


Magda Szabó foi uma escritora húngara que sofreu perseguições políticas na Hungria comunista. Sua obra contundente, no entanto, está voltada para o terreno árido dos dramas pessoais.  Pilatos, adaptada para o cinema por Linda Dombrovszky,  com a colaboração dos roteiristas György Somogyi e Sándor Szélesi, trata mais especificamente das relações entre Anna (Ildikó Hámori), a mãe, dona de casa provinciana, e sua filha, Iza (Anna Györgyi), médica e profissional bem-sucedida.

É também uma trama que aborda a forma como lidamos com a morte e a velhice, com a nossa mortalidade. A narrativa está dividida, assim como o livro em terra, fogo, água e ar. O outro título em inglês, Iza´s Ballad, coloca a filha Iza num papel central, enquanto Pilatos remete à figura do governante romano Pôncio Pilatos, conhecido por ter sido o juiz que não interveio contra os fariseus na condenação de Jesus Cristo a morrer na cruz. Desta forma, o ato de Iza de  lavar as mãos, ao início do filme e ao seu final,  eximindo-se de sua responsabilidade, está envolto em culpa e dor.

A abertura do filme, com a mãe recebendo a notícia da morte de seu amado marido, com a câmera em close, funciona como uma introdução ao belo trabalho de Dombrovszky, em seu primeiro longa. Não há diálogos, o  médico é apenas uma voz, a relação se estabelece a partir da expressão facial de Anna – ela entra como uma mulher feliz, empoderada, e a partir da notícia, seu rosto se apaga, como se ela estivesse entranto em transe.

O que é importante não são os detalhes, as imagens do hospital são muito rápidas,  são as emoções de Anna que nos conduzem. Para a viúva, que conversa com o marido e companheiro como se jamais houvesse partido ao longo de todo o filme, o tempo não passou.


A partir dali, vamos acompanhar as duas em sua conflituosa jornada que se inicia com Iza decidindo, de forma autoritária, que a mãe irá morar com ela, na cidade. O apartamento elegante e moderno em tons de cinza contrasta de forma impactante com a casa ampla e iluminada do campo, com artefatos simples, e um coelho de estimação, o Capitão.

Iza decide o que é melhor para sua mãe naquele momento, porque não consegue entender a importância afetiva de uma panela velha, de um quadro roto, que para ela são apenas elementos decorativos. É preciso inovar, ela diz. Para Anna, tudo é memória, e sua expressão vazia e dilacerada antecipa a tragédia.

O filme é excepcionalmente maduro para uma autora estreante, não apenas pelos lindos planos, pela fotografia, e pelo trabalho de atores, mas pelo tema escolhido e pelo recorte preciso que ela faz dos dois mundos que jamais se encontram, o da mãe e o da filha.  Não se trata aqui apenas de mais uma história abordando as relações nem sempre fáceis entre mãe e filha, mas também de uma reflexão sobre a morte e a vida. Anna representa um passado antiquado, Iza a cidade moderna e nem sempre acolhedora, e elas travam aqui um embate duro e fatal.

O filme deve estrear na televisão húngara em novembro.

Mosquito: a saga antibelicista e decolonial de Portugal


O longa português Mosquito não é a estreia de seu diretor João Nuno Pinto, nascido em Moçambique, de onde saiu para Lisboa com 5 anos. No entanto, essa coprodução Portugal, Brasil e França é considerada o primeiro grande filme de guerra português a tratar com densidade da participação do país na Primeira Guerra Mundial e a investigar de forma crítica a relação com as colônias africanas.

O personagem Zacarias foi baseado no avô de Pinto. Frágil, com apenas 17 anos, ele é enviado a combater pelo exército português em Moçambique, para defender a pátria de uma invasão alemã. Uma vez desembarcado, contrai malária e é deixado à própria sorte por sua companhia. Sozinho, desesperado, Zacarias se embrenha pela selva, a princípio com dois escravos, e termina só e febril, buscando voltar para os seus companheiros.


Sua jornada mata adentro é totalmente surreal, delirante, e mal se percebe o que é imaginação ou realidade. A ideia é essa, provocar, colocar Zacarias em conflito permanente com a sua presença de homem branco, colonizador, de encarar a desumanidade da guerra e a forma como seu país trata seus súditos, escravos. Na abertura do filme, uma voz grita que eles podem desembarcar se agarrando à carapinha dos negros que foram designados para sua recepção. Sempre amarrados, tratados como animais, os colonos negros desfilam pelo filme em andrajos humilhantes. Em seus delírios, Zacarias aos poucos vai se colocando no lugar deles. Afina, o que o diferencia daqueles homens e mulheres? Sua roupa de expedicionário se converte em trapos,  e ele é confundido com um andarilho.

Em uma das passagens do filme, a mais lisérgica, ele cai prisioneiro de uma tribo de mulheres africanas, e é colocado em regime de trabalho forçado, mas mais uma vez, o limiar entre realidade e imaginário é posto à prova. Na verdade, Zacarias está entregue a suas alucinações e a sua culpa.


A saga do personagem pelas terras moçambicanas tem o prenúncio de um rito iniciático, e traz um processo de auto-descoberta. Afinal, o que é que ele defende? Um povo brutal que mal se importa com a sua condição?

Os alemães surgem em cena personificados por um soldado tão vulnerável quanto ele, não há tropas. Zacarias aos poucos vai se modificando, se sentido mais identificado com os oprimidos do que com os opressores. Talvez seu maior inimigo esteja mesmo em solo pátrio, ali, entre os companheiros.

Quando ele acorda num hospital de campanha, ao final, e pergunta há quanto anos está ali, o médico responde três semanas. Sua incredulidade é a nossa, então foi tudo um delírio tropical? Pouco importa, Zacarias não é mais o mesmo, os minutos finais deixam isso claro. Agora, sim, ele tem um lugar no mundo.

O filme teve excelente repercussão em seu país, e abriu o Festival de Roterdã no ano passado. O ator João Nunes Monteiro é o protagonista absoluto do filme, tem atuação sensível e intensa, e sua angústia nos remete a outros personagens puros que são lançados em conflitos de extrema crueldade, como o jovem camponês Florya (Aleksei Kravchenko) em Vá e Veja (1985), obra-prima de Elen Klimov.

Aqui, a tragédia desse libelo contra a guerra, vem com acento lusitano e nos faz pensar, como brasileiros, para além das guerras, nas relações de poder de Portugal com suas colônias, e no desprezo pela África e seus habitantes, no racismo estrutural que se coloca de modo permanente, e que nós em alguma medida herdamos. João Nuno Pinto tem vivido entre Lisboa e São Paulo. Dirigiu os curtas Don’t Swim (2015) e Skype Me (2008). Seu primeiro longa-metragem, América (2010), foi exibido na 34ª Mostra. Mosquito é seu segundo longa, e ele vem afirmando em entrevistas que é  sua forma de se redimir do lado sombrio da colonização, e defender a sua origem moçambicana.

 

 

Miss Marx: uma feminista do século 19

A cinebiografia, ou a biopic, como prefere Hollywood, da filha mais nova de Karl Marx, Eleanor, Miss Marx, é um dos filmes imperdíveis da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Produção da diretora italiana Susanna Nicchiarelli, e uma coprodução Itália e Bélgica falada em inglês, terra natal da protagonista. Eleanor, também chamada pela família e pelo pai de Tussy (porque tossia muito quando criança), era inteligente, sagaz e livre demais para a época, embora sempre contasse com o apoio do pai. Extremamente devotada ao pai,  e ao seu ideário,  ela rapidamente transforma-se em uma espécie de secretária e assessora do filósofo e jornalista cuja obra é fundamental para compreender a sociedade capitalista, mas é interessante ver como o apelido doméstico é utilizado com frequência para diminuir a sua importância pelos aliados políticos e pela família.
Eleanor fuma,  dança, estuda, se diverte, até que em 1883 conhece Edward Aveling, socialista como ela, boêmio, autor e teatrólogo, por quem se apaixona, e com quem vai construir uma relação tórrida e destrutiva. Mas Aveling é irresistível, e reconhece em sua mulher o brilho que ela tem, e sabe como envolvê-la com esse tipo de sedução. Como tantos outros homens com esse perfil, ele se sente atraído por essa mulher tão entusiasmada e repleta de energia, e não consegue lidar com essa realidade, a de ser o companheiro de uma mulher intelectualmente tão arrojada, o que socialmente cobra dele uma postura mais firme perante a vida. Os companheiros socialistas não o vêem com bons olhos, ele naõ consegue lidar com limites sociais de nenhum tipo, expõe a companheira a situações politicamente delicadas. Ela por sua vez acolhe esse sujeito inseguro e galanteador que, inicialmente, a trata como uma rainha, e asume a relação com um homem casado, um escândalo para o período, disposta a encarar as consequências.
Eleanor Marx foi uma das primeiras mulheres de seu tempo a associar o socialismo à luta das mulheres, sempre participando dos movimentos de reivindicações e dos direitos das mulheres trabalhadoras, se posicionando contra a exploração do trabalho infantil, uma barbárie que contribuiu para a riqueza de tantos empresários.
O papel cai como uma luva em Romola Garai, atriz britânica que consegue lidar na tela com essa mescla de determinação, coragem e fragilidade da personagem. É impressionante como ela veste, literalmente, Eleanor. Não é sua primeira personagem de época, em Desejo e Reparação (2007) ela interpreta Briony Tallis na adolescência, mas aqui ela é uma mulher madura, extremamente sensível. Patrick Kenndey contribui com o seu Edward de personalidade instável, e transmite essa fragilidade.
Susanna Nicchiarelli - WikipediaEsta não é a primeira cinebiografia de Nicchiarelli, que nos brindou com outra obra sobre uma mulher marcante, Nico, 1998 (2017, 41a Mostra) que narra a história de uma das estrelas mais atormentadas da música pop no mundo, e que foi seu terceiro longa-metragem –  Cosmonauta (2009)  e La Scoperta Dell’Alba (2013) foram os primeiros filmes. Christa Päffgen ganhou o nome de Nico de Andy Wharol, por ser um anagrama da palavra ICON. Nico foi vocalista do Velvet Underground e teve uma vida marcada pela tragédia e pelas drogas.
Além da trilha punk que compõe o longa, esse é talvez o traço em comum entre as duas. Bonitas, inteligentes, e à frente do seu tempo, tiveram ao seu redor homens brilhantes e inteligentes, mas bastante autoritários, e tiveram de lidar com esses conflitos em meios que não eram adversos a essas mudanças. Nico, belissima, dizia que odiava sua beleza, e que preferia o seu rosto marcado pelas overdoses e pela vida. Eleanor, nossa Miss Marx, nos enternece com seu jeito adolescente e irresistível, porque se recusa a aceitar o papel de mero suporte para grandes homens, e de provedora, que a família tenta lhe imputar, para viver sua trajetória singular, com muita ternura. A narrativa começa em primeira pesssoa, com a personagem olhando para a câmera, e contando a sua história , mas rapidamente se libera desse ar falsamente testemunhal e deixa a trama fluir. Sempre com um pique muito pop. É  punk marxista, afnal a música de Miss Marx é da autoria da banda Downtown Boys que gravou Full Comunism.

 

 

 

 

 

 

 

Borrando a história: Limiar


Em busca de sua relação com as raízes históricas da Armênia, um jovem cineasta perambula pela região Sudeste daquele país, e colhe imagens e cenas ao redor do extinto trecho da estrada de ferro Yerevan-Baku, apagada da história, e das ruínas de Ani, a capital armênia, cidade fantasma, cujos escombros são hoje território turco e tombados como Patrimônio Mundial da UNESCO. O genocídio armênio, também conhecido como Holocausto Armênio, perpetrado pelo Império Otomano e liderado pelos “jovens turcos”, fez deste povo sofrido uma das primeiras diásporas do Século 20.

A  relação do cineasta-protagonista com esse passado, no entanto, é um vácuo. Aparentemente, para ele e sua geração tudo não passa de uma inútil paisagem, e isso é demonstrado plano a plano, em indisfarçável tédio.

Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson são artistas plásticos, radicados no Canadá, país com tradicional comunidade armênia , da qual a maior expressão é o cineasta Atom Egoyan, e o filme foi antecedido por uma vídeo instalação chamada A Passage (Uma Passagem), que  faz uma bricolagem de imagens da histórica estrada de ferro Yerevan-Baku. O trecho foi suspenso pouco antes da consolidação da FEZ, a Free Economic Zone of Armenia (Zona Franca da Armênia) que se encontra na fronteira e transformou a vida de seus habitantes, agudizando ainda mais a condição de pobreza da população.


Akhbari é iraniano, e Kalmenson, russo. A Armênia foi parte integrante das Repúblicas Socialistas Soviéticas, mas não fica muito claro o objetivo do cineasta personagem e dos cineastas autores ao investigar essa realidade, que ainda passa pelo conflito com o Azerbaijão, que é muçulmano xiita, rico em petróleo, apoiado pela Turquia, em contraste com a Armênia Ortodoxa Cristã, apoiada pela Rússia. Tampouco fica claro para quem assiste qual é o território em que se baseia a narrativa.


Nem mesmo o conflito religioso chega a ser devidamente explorado. Ainda que a película abra com a Ave Maria de Bach e Gounod, é como se o protagonista e seus autores se deparassem com um umbral que não conseguem transpor. E, na verdade, talvez não queiram. Aparentemente, o cineasta protagonista de Limiar  prefere não resgatar essa história, e ainda faz uma brincadeira sobre os turcos em uma das poucas vezes em que se expressa ao longo do filme.

“Poderíamos jogar uma bomba lá que eles continuariam orando”. A frase não tem nenhum traço de ressentimento. Apenas indiferença e o sentimento explícito de não pertencimento.  Mesmo o encontro com a avó, a única personagem nomeada no filme, parece uma brincadeira. Percebe-se que a dupla de cineastas se identificam com o cineasta andarilho, sentem-se estrangeiros naquele país.


A palavra threshold é usada para conceituar o processo de segmentação das imagens a partir de um processo de limiarização de objetos que não se tocam, não possuem relação. Nos programas de edição de imagens, é um filtro que converte uma imagem real em borrões. Se a intensidade do pixel for maior que o valor da imagem original, o pixel passará a ser branco, se for menor será preto, criando assim uma imagem binária, reduzindo a riqueza de informação da imagem original.

É mais ou menos o que ocorre, um exercício de experimentação fotográfica, de cores estouradas. O filme Limiar (Threshold) é uma coprodução Canadá/Turquia/Armênia. O filme está na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que começa amanhã, dia 22 de Outubro.

King Kong en Asunción: a transamérica distópica e intercultural de Camilo Cavalcanti

King Kong é um ícone cinematográfico, hollywoodiano, surgido em 1933, com direito a diversas adaptações cinematográficas. A imagem terna do macaco monstruoso segurando com ternura na palma da mão a então estreante Jessica Lange entrou para a história do cinema fantástico. Existe uma relação entre o gorila cinematográfico e o matador de aluguel interpretado pelo ator Andrade Junior, verdadeiro símbolo do cinema candango, morto em 2019 antes do lançamento, o Velho de King Kong en Asunción, produção fantástica do pernambucano Camilo Cavalcanti que arrebatou o Kikito em Gramado nessa edição histórica de 2020. No curta gaúcho O Dia em que Dorival Encarou a Guarda (1986), de Jorge Furtado e José Pedro Goulart, podemos encontrar uma pista.

Nele, João Acaiabe interpreta um prisioneiro negro que é diariamente maltratado por um agente penitenciário de baixa patente, um cabo branquelo, o “catarina”, e ousa desafiá-lo. Seu único intuito é tomar um banho, e para isso ele desafia hierarquias, é cruelmente espancando, valendo-se do seu tamanho e de sua massa muscular, do medo que inspira, para ter direito a um privilégio básico que ele sabia que não obteria por meios formais. Ele está proibido de tomar banho, e ninguém sabe explicar o motivo. E ao final, ele consegue realizar seu intento, que quase lhe custa a vida.

Pois bem, o Velho, esse matador de aluguel solitário, decide abandonar sua carreira de assassino profissional para reencontrar o amor de sua vida, com quem teve uma filha, que ele desconhece. Sabe que ela vive em Asunción, no Paraguai. Brasileiro expatriado, ele abandona tudo para ir atrás de seu último desejo. Nessa trajetória ele realiza uma autêntica imersão nessa América do Sul que insistimos em ignorar, ela abre mão de sua identidade nacional e mergulha na noite, na dimensão mais trágica de sua existência, percorre estradas, becos, bairros, bares.

Entre hotéis luxuosos e pousadas fétidas, ele está sempre perambulando em busca de um sentido. No trajeto, reencontra velhos amigos como o barbeiro João  (o paraibano Fernando Teixeira, outro ícone de sua geração). O itinerário inclui festas em bordeis baratos, orgias. Ao final, ele encontra sua redenção, de alguma forma. O King Kong imaginário, que  no curta gaúcho só existe na imaginação do amedrontado cabo, mas é instigada pelo astuto prisioneiro, no filme de Cavalcanti é o artifício do personagem que nos impede de arrancar a sua máscara de homem violento e perigoso, de refletir sobre a solidão da velhice, a inevitabilidade da morte de cada um.

Ele consegue ter nos braços a amada, por um momento fugaz, e reencontrar amigos importantes. Mas tudo isso agora é inútil. Desesperado, ele se envolve com um grupo de trambiqueiras que tentam se aproveitar dele em sua miséria afetiva. Seu grito ecoa como um último sinal de luta pela vida.  Seu King Kong enjaulado irrompe como um grito de dor no meio da noite, expressão de um animal ferido que sabe que está agonizando, não há mais refúgio possível. A inspiração real de Cavalcanti, revelada na coletiva de Gramado, se deu na verdade por meio de um encontro dele com o próprio Andrade, em 2007, ao compartilharem um quarto de hotel em um festival da Baixada Fluminense. Andrade fez uma performance encarnando o legendário gorila que encantou o cineasta e se fixou em sua memória.

As imagens finais ao som de Volver a los 17, emblemática canção escrita pela chilena Violeta Parra, que muitos atribuem ao seu amor por um rapaz mais jovem, e que foi celebrizada na voz da índia argentina Mercedes Sosa, trazem ainda outra referência, e falam da importância da memória e do resgate das emoções vividas na adolescência das paixões para a idade madura. A canção foi sucesso no Brasil interpretada por Sosa em parceria com Milton Nascimento.
King Kong em Asunción é repleto de referências cinematográficas e culturais que remetem à América Latina, e mais especificamente à América do Sul. O Brasil sempre se sentiu à parte dessa região, numa espécie de auto-exclusão, afinal fomos uma monarquia portuguesa, a sede do império. É como forasteiro que o Velho viaja e cumpre seu destino, sempre se expressando em portunhol em suas poucas falas. Ele não é reconhecido como um igual nesse mundo que fala guarani, dialeto que perpassa a produção, e que é recorrente em diversas regiões do Brasil, Bolívia, Argentina e Paraguai nas comunidades mais pobres e marginalizadas.

A produção do filme registra ainda créditos para Colômbia, mas na verdade toda a ação do filme se passa entre Paraguai e Bolívia, com exceção da cena da chacina da família do protagonista, feita no Brasil. O Velho, desde então, é sempre um estrangeiro, por onde quer que passe. Ele se sente parte de tudo, mas não pertence à nada. Só lhe resta a estrada, eterno peregrino.  A narração over em guarani de sua jornada se dá pela voz da atriz paraguaia Ana Ivanova, conhecida entre nós pelo filme As Herdeiras (2018). No roteiro original, ela seria do próprio ator, mas Cavalcanti intuiu a força da narrativa feminina para falar da vida e morte do Velho, e esse é mais um acerto do filme. E aí entra a questão do feminino. Para o Velho, a mulher é sempre uma grande incógnita.

Seu mundo é o dos homens, e por esse mundo as mulheres transitam ora como interesse amoroso, ou apenas como sexo pago e orgia, umas mais honestas, outras menos. Ele não consegue dialogar com elas em nenhum momento. Não é episódico que a Morte seja uma voz feminina. A excelência dessa narração e de seu texto, que transcende em muito a voz over de narrativas policiais, documentais, lhe dá um caráter antológico, essencial.

No cinema, o formato que antecede os documentários são os travelogues, relatos pessoais documentais que remetem aos diários, e que embora sejam originalmente de não-ficção, vão influenciar a produção ficcional. Tanto o documentário quanto as formas ficcionais híbridas, que fazem uso dessas referências, trabalham tanto com a viagem quanto com a questão da experiência, enquanto argumento e também estética, integrando-se livremente ao ambiente, permitindo uma articulação de planos que pode ser aleatória, lúdica e poética.

O longa King Kong em Asunción se propõe a ser uma obra ficcional experimental, mesclando realidade e ficção, explorando hibridismos de linguagem, e utilizando personagens e paisagens reais. Segundo seu diretor declarou em entrevistas anteriores, o filme segue os passos do “cinema marginal, cinema de guerrilha com várias citações ao gênero western” para distanciar-se de referências europeias, tão frequentes em abordagens cinematográficas locais, postulando uma “nova gramática cinematográfica”. Filmado com uma equipe compacta e uma estrutura de produção enxuta que lhes permitiu viajar por 3 mil quilômetros, o baixo orçamento proporcionou aqui total liberdade criativa e artística.

King Kong en Asunción tem ritmo de estrada e acompanha a jornada do personagem principal pelas artérias da América do Sul, expondo o interior e seu povo, sua multiculturalidade  com suas tradições, folclore e formas locais de expressão social. A obra se propõe a refletir sobre uma possível integração cultural entre Bolívia, Paraguai e Brasil, abolindo fronteiras, na busca de uma possível identidade comum, vivendo sob uma realidade economicamente perversa e um contexto cada vez maior de exclusão.

Watchmen: a apoteose de Sister Night


Os super-heróis são de modo geral justiceiros. E portanto, alimentam o mito do bandido romântico, do Robin Hood, do marginal com causa. São também, historicamente, sempre homens brancos.  Esse é o imaginário fascinante e sedutor em torno do qual é construída a personagem Sister Night, a policial Angela Abar, interpretada por Regina King de forma magistral e densa em Watchmen (2019), a minissérie produzida pela HBO que venceu como melhor minissérie e que deu à sua atriz o prêmio Emmy deste ano na categoria melhor atriz de minissérie.

Ela é uma mulher negra em meio a personagens masculinos de HQ, e esse detalhe por si só já seria suficiente para ser um marco enquanto referência no universo do super-heróis. No entanto, os quadrinhos, e a minissérie ainda mais, vão agregar novos ingredientes a essa questão mais óbvia. Os Watchmen, criação genial de Alan Moore, representam uma espécie de subversão nas histórias de HQ, pois dão visibilidade a heróis que estão longe do padrão ético de um Batman ou Superman.

Totalmente amorais, David Veitz/Ozymandias (Jeremy Irons) e até mesmo o Jonathan Osterman, o Dr Manhattan (Yahya Abdul-Mateen, também vencedor na categoria coadjuvante), e sua representação humana Calvin “Cal” Jelani, não representam mais o que poderíamos classificar de mocinhos ou marginais românticos. Alheios à sua própria essência, eles seguem suas vidas como semideuses, que podem causar catástrofes em nome da moral e dos bons costumes, dos quais abdicaram.

Em 1985, ano em que se inicia a ação da minissérie, os justiceiros foram banidos, e não podem se apresentar publicamente. Por sua vez, a policial Angela, nascida em um Vietnã em que os Estados Unidos ganharam a guerra, casa-se com o investigador Calvin, a versão terrena do Dr Manhattan,  que abdica de sua imortalidade para estar ao lado da amada. Quando criança, em Saigon, Angela vê o cartaz do filme Sister Night, da onda blackexploitation (a grande onda do cinema independente negro e moderno  nos Estados Unidos), e a personagem a inspira. Angela se torna policial ainda em Saigon, e se casa com Calvin.


O casal vai morar em Tulsa, Oklahoma, na década de 1990, em um tempo em que os policiais devem andar disfarçados, para não serem identificados e mortos. O chefe de Angela, o policial Judd Crawford (Don Johnson), possui uma esposa e três filhos. Angela é a descendente direta de duas vítimas do massacre de Tulsa, conhecido ainda como Massacre da Black Wall Street, (conflito racial verídica e histórico,  ocorrido em 1921), e tem direito a uma indenização por parte do governo do presidente Robert Redford (sim, ele mesmo) como uma espécie de reparação. Seu avô, negro e homossexual, foi o primeiro justiceiro mascarado e se chamava Justiça Encapuzada Discriminado mesmo por seus companheiros, ele tem um caso com outro super-herói, o capitão Metrópoles.

A ação da série transcorre durante os eventos envolvendo as tensões raciais em Tulsa, Oklahoma, em 2019. Um grupo supremacista branco chamado Seventh Kavalry (Sétima Kavalaria), que lembra em demasia a Klu Klux Khan, pretende instaurar a sua Noite Branca, eliminando os negros.

Uma das sessões deliciosas de encontro do grupo é para assistir, com direito a pipocas, à sessão especial do filme Birth of a Nation (Nascimento de Uma Nação, 2015), de David Grifith, autêntico libelo racista em favor da um nacionalismo branco e considerado pelo próprio Alan Moore como o primeiro filme de super-herói da história estadunidense. Desta forma, a série narrando a trajetória de Abar e sua descoberta de que é descendente daquele que teria sido o primeiro justiceiro negro ganham ainda mais relevância.


Há outras personagens femininas de peso na minissérie, como Laurie Blake (nascida Juspeczyk), interpretada por Jean Smart, anteriormente Silk Spectre,  que se torna agente do FBI e membro da Força-tarefa Anti-Vigilante; ou ainda Hong Chau como Lady Trieu, a dona da Trieu Industries, uma corporação que comprou a Veidt Enterprises seguindo notícias de sua morte, e mais tarde revelada como a filha de Veidt por inseminação artificial.

Nenhuma delas tem o brilho e a unicidade de Abar. No processo de sua transformação em Sister Night, uma monja justiceira, ela se redescobre como mulher negra e se afirma como uma anti-heroína, em meio a uma luta de disputas raciais e de poder, em uma nação distópica que já foi considerada como a mais poderosa do planeta. Aqui, não há comunistas a serem combatidos, os demônios e os conflitos são todos domésticos.


A cena final, com Angela colocando o pé na piscina, rumo a um destino que poderia bem ser o de Jesus caminhando sobre as águas, é de arrepiar.

O projeto da minissérie é de Damon Lindelof, de Lost, mas os episódios foram dirigidos por Nicole Kassell, que fez o piloto e assina a produção executiva. Watchmen arrebatou os Emmys de melhor atriz e ator, que já citamos, além de melhor minissérie, mas também foi lembrado nas categorias técnicas de Melhor Fotografia em Minissérie ou Filme; Melhor Figurino de Série de Fantasia ou Sci-Fi; Melhor Mixagem de Som para uma Série ou filme Limitado; Melhor Edição de Imagem Com uma Única Câmera em Minissérie ou Filme Limitado. O autor de sua trilha é Trent Reznor do Five Inch Nails).

Tremor Iê: Revolução, Transgressão Narrativa e Feminismo

Silêncios, luzes, sombras. O filme Tremor Iê começa com um road movie que nos leva a crer que iremos assistir a um thriller ao estilo de Feminino Plural, o clássico de transgressão feminina caboclo dirigido por Vera Figueiredo. Não é isso que acontece, e o filme corta para uma cena quase bucólica numa casa em meio ao nada. Vozes sussurradas ao pé da fogueira, relatos de opressão e de dor. Num filme de pluriprotagonismos, as mulheres são as personagens principais. Janaína, presa política numa manifestação em 2013 em Fortaleza, sua amiga Cássia, e suas companheiras, clamam por liberdade, por espaços experenciados e brutalmente suprimidos, de forma arbtitrária por um governo totalitarista. Os únicos homens em cena são policiais, eles encarnam a face mais perversa da sociedade patriarcal, um Estado policial, escorado por um fanatismo religioso que lança mão de palavras de fé cristã para manter a ordem. As religiões populares surgem então como o perfeito contraponto subversivo de tamanho maniqueísmo político, baseadas em práticas e culturas populares. Essa atmosfera asfixiante é mantida pela narrativa até o final, que encena uma espécie de milícia feminista que se articula para soltar as companheiras presas, libertar esse velho mundo de suas amarras.

O que mais agride nessas novas mulheres de Atenas é que a descrição acima bem poderia se referir a um thriller gélido como Atômica (2017) estrelado pela elegante Charlize Teron, ícone de beleza anglo-saxônica que desfila figurinos impecáveis enquanto massacra de cinco a oito homens por cena no mínimo. No entanto, o que se vê são tipos étnicos bastante brasileiros, caboclos, mescla de indígenas e negros, com sandálias havaianas, roupas adquiridas em lojas populares como Torra Torra e similares, nenhuma preocupação com qualquer tipo de glamurização. A violência é sugerida, é de outra natureza, ela atinge o imaginário, a ideologia,  é plasmada em longos diálogos e monólogos, ela se apresenta menos por espetáculos de lutas marciais do que pelo medo e pela indignação, o tom de revolta e de conspiração que vai se apropriando de suas personagens constrói o filme. Decididas, elas se unem contra a ditadura e planejam sua revolução. A maioria das mulheres nas telas que representam heroínas na atualidade servem a propósitos delirantes e suspeitos, a governos cujas proposições mereceriam um olhar mais aprofundado, mas seguem suas vidas sem grandes questionamentos. Muitas, como a heroína biônica da minissérie Hanna (Amazon, 2019-2020)  sequer sabem a quem estão servindo. Só querem fugir, mas não sabem bem para onde vão, e acabam voltando para as organizações paramilitares de onde saíram. A audiência, igualmente privada dessas referências, segue desnorteada em meio a tanta pirotecnia e cenários deslumbrantes, ansiando por um final feliz, que naturalmente não virá.

A narrativa de Tremor Iê escapa literalmente dessas armadilhas, mas se ressente de sinapses longas entre as cenas, divididas entre três episódios distintos, que por vezes quebram o ritmo do filme, recurso que poderia ser usado de forma mais pontual, pois a ruptura como convenção enfraquece a sua eficácia como estratégia. A sequência em que sequestram os restos mortais do ex-ditador Castelo Branco como moeda de troca, algo que nos remete parodicamente ao ato de sequestro do cônsul Charles Burke Elbrick estadunidense pelo grupo MR-8 nos anos de chumbo brasileiros, mais precisamente em setembro de 1969, é evocada somente por palavras, o que é a tônica do filme, mas acaba soando como mera elocubração das personagens, quase um delírio e nada mais, retirando o caráter vigoroso do ato simbólico..

O filme Tremor Iê é o primeiro longa-metragem das diretoras Elena Meirelles e Lívia de Paiva, cearenses e lembra produções do coletivo Alumbramento – Guto Parente é um dos únicos personagens masculinos, ao lado de Petrus dos Bairros, que também assina o roteiro -. e de certa forma espelha as inquietações artísticas e políticas que contribuíram para que o grupo se transformasse numa referência nacional. Estreou na mostra competitiva Corpos Adiante, da 22ª edição do Cine Ceará. Sua proposta necessitaria talvez de maior elaboração no roteiro, mas é altamente promissora.

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