Zohan (Foto: Divulgação)

FEITO PRA CUTUCAR
Novo filme de Sandler se destaca pela ousadia temática, mas ainda abusa dos velhos clichês de comédia
Por Lidianne Andrade

ZOHAN – O AGENTE BOM DE CORTE
Dennis Dugan
[You Don’t Mess with the Zohan, EUA]

Policiais fantasiados de mulheres loiras, homem disfarçado de velhinha, detetive investigador de animais… O cinema de Hollywood tem uma boa gama de opções no currículo quando o assunto é comédia “escrachada”. Aquela que tentar arrancar um sorriso com tratamento intensivo de piadas seqüenciais para não deixar o maxilar descansar. Para gastar ainda mais a musculatura facial, chegou às telas brasileiras neste fim de semana Zohan – O Agente Bom de Corte, há mais de um mês nas salas americanas e há muito disponível livremente na internet para download, com direção de Dennis Dugan.

O ator Adam Sandler é o comandante deste fiasco no papel principal de Zohan, contra-terrorista israelense especializado em capturar homens malvados com uma super força à lá Matrix, com direito a pular de prédios saltitando, andar sobre paredes e desviar de balas. Famoso em seu país, o soldado é sucesso entre as mulheres por suas habilidades e belo físico (com certeza retoque de Fotoshop, devem concordar os que lembram de Sandler em Como Se Fosse A Primeira Vez…, e Eu os Declaro Marido…e Larry!, buxinho clássico), além, claro, de sua virilidade digna de olhares monstruosos até dos colegas de raça por cima da calça. Mas como todo super herói, tem um sonho oposto a sua área de atuação: quer ser cabeleireiro, com direito a piadinhas de masculinidade dos pais e amigos.

Zohan (Foto: Divulgação)

Com piadas racistas elevadas ao extremo, Zohan incomoda os mais atentos. As gracinhas giram em torno de dois viés: ora sexualidade, ora terrorismo, revezando a cada dois minutos ou menos. Em determinada cena, inimigos do suposto morto acessam a caixa postal do grupo radical Hezbollah para “solicitar armamento para um ataque terrorista”, algo do tipo: “para bombas e explosivos, tecle 2”. O sarcasmo faz-se presente na figura de um empresário americano, que promove a discórdia entre os árabes e os judeus de um bairro nova-iorquino para que se destruam, abrindo espaço assim para a construção de um moderno shopping center. Talvez inocentemente, o trio de roteiristas Adan Sandler, Robert Smigel (escritor de vários episódios do programa de TV Saturday Night Live) e Judd Apatow (entre outros, de O Virgem de 40 Anos) navega em mares perigosos. As cenas da armação de uma emboscada terrorista beiram ao absurdo, com armas escondidas dentro de panelas de óleo ou porta talheres e sugerindo um complô entre todos os imigrantes árabes nos Estados Unidos, caso necessário em nome de uma causa maior, pisando em um terreno ainda frágil após o 11 de Setembro.

Sandler escolheu uma péssima maneira de cutucar a ferida ainda aberta: com humor, passa uma mensagem nas entrelinhas do quanto é ridículo o temor dos americanos contra o povo árabe e julgá-los por erros cometidos com conterrâneos. Boa mensagem, veículo de emissão errado, pois já há protestos na frente das salas de exibição americanas de grupos anti-racismo.

Zohan (Foto: Divulgação)

Mesmo com tantos problemas, Zohan tem seus méritos. A trilha sonora é de arrasar nas melhores pistas de danças com clássicos como “Poperô”, “Hallo Hallo” e “I Already Don’t Remember”. Há também uma grande repertório tocado em árabe, como a música tema do personagem principal, com batidas insistentes e ritmando as ações na tela. Há ainda um elenco engraçadíssimo da terceira idade que merece uma piscadela: são as fãs do “new make stilisty”, talvez mais doidas pelo recheio volumoso entre as pernas e a rapidinha de brinde após o penteado. Algumas chegam até a se fantasiar de enfermeira e sado-masoquista, personificados por Shelley Berman e Dina Doron.

Destaque para a participação da cantora Mariah Carey, no papel dela mesma, que na vida real é bastante aclamada entre os árabes. Mesmo abusando dos clichês e castigando um formato de comédia já muito desgastado, o diretor Dennis Dugan comprou uma proposta ousada, que, talvez reformulada, desse mais certo. Comédia para a família? Talvez, se não tiver nenhum americano ou árabe no meio.

NOTA: 4,0

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