OU ISSO OU AQUILO
XXY é tapa com luva de pelica no tabu sexual
Por Rafael Dias

Numa sociedade hiper-erotizada, de gozo imediato, sex shops e excesso de informação, é estranho que o sexo ainda seja um tabu. Há ainda o ranço da repressão sexual e o puritanismo em tratar do tema com todas as suas letras, sobretudo quando o que está em jogo é um indesejável cromossomo a mais. Em XXY (idem, Argentina, 2007), que estréia esta semana somente em São Paulo e no Rio, a diretora Lucía Puenzo sabe bem disso, tanto que pisa em ovos ao abordar um assunto polêmico – o hermafroditismo – de maneira sutil e decorosa. Mas a obra, em suas entrelinhas tênues, não esconde seu lado contundente e a dureza do que é ser um “estranho”. O que resta não é um filme que choca ou assusta os mais conservadores. Fica, sim, um recado subliminar, como uma tapa com luva de pelica, que desmistifica o conceito daquilo que chamam de anomalia.

Com uma narrativa poética e delicada, XXY é o primeiro longa-metragem de Lucía Puenzo, cujo currículo inclui curtas e comerciais publicitários. Seu sobrenome não é desconhecido pelas bandas de cá do cinema latino-americano. Ela é filha do diretor Luis Puenzo, que, entre outros filmes, fez A História Oficial, vencedor do Oscar de melhor filme de língua não-inglesa de 1986. Criada no ambiente caseiro de set de filmagens e com esse pedigree, foi fácil para ela herdar o talento do pai e colecionar elogios e prêmios na estante já nesta grande estréia. A aclamação não se deu em festivais direcionados ao público GLBT, mas em eventos de prestígio internacional. Além de render à Puenzo o troféu de melhor diretora estreante no Festival de Edimburgo (Escócia), o longa levou o prêmio da Semana da Crítica e mais duas menções honrosas no Festival de Cannes ano passado.

Fácil, corrige-se, até certa medida, porque com um tema pesado desse em mãos, nada é mamão-com-açúcar. Lucía Puenzo empresta, contudo, leveza à história. Nas primeiras cenas, o filme insinua uma atmosfera densa de mistério, sob a fotografia escura de um filme de suspense. Entre frestas de luz, conhecemos Alex (Inés Efron), adolescente de 15 anos que se comporta como um bicho-do-mato e mora numa casa de praia no Uruguai com os pais, Kraken (Ricardo Darín, de Nove Rainhas) e Suli (Valeria Bertuccelli), que vieram de Buenos Aires. Nascida com os dois sexos, Alex foi isolada da civilização pelos pais que temiam represálias. Agora que Alex está na puberdade, eles recorrem à ajuda de um amigo especializado em cirurgia estética, o médico Ramiro, que viaja junto com a esposa Érika (Carolina Pelleritti) e o filho Álvaro (Martín Piroyansky) para avaliar e corrigir o caso de “deformidade”.

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Dúvida
: Alex tem que escolher de uma hora pra outra entre os dois sexos

A diretora sublinha, neste drama psicológico, os momentos de conflito de identidade do protagonista, forçado a optar, de uma hora para outra, por um dos sexos, sem dado o direito de ao menos saber o que sente. Repleto de metáforas, o filme merece ser visto com atenção redobrada. Nada está lá por acaso. Como na cena da tartaruga-marinha mutilada pela rede de arrastão (idéia de castração); ou na do jardim, em que Alex impede que Álvaro brinque com um besouro estranho (a “anormalidade” aos olhos alheios). O ambiente, como um todo, é sugestivo. Com essas pequenas mensagens, Lucía evita ser agressiva, mas não deixa de ser incisiva e direta ao ponto. Lembra a beleza de Freaks, de Tod Bowning, um clássico rejeitado do cinema, feito em 1932, que também questiona o que vem a ser “anormal”.

XXY (Cartaz) É possível afirmar que, numa crítica reacionária, XXY seja tachado de correto demais para um tema controverso. Não há ousadia na condução da câmera, nem cenas demasiadamente fortes (apesar de ganhar, no Brasil, a classificação etária de 16 anos). O que, aliás, é uma característica sintomática do cinema argentino: narrativa econômica e clássica, o avesso da escola brasileira. A construção e a forma do enredo, no entanto, tomam um rumo inesperadamente muito bom. Não se atém somente a contribuir com o debate da intersexualidade que está em voga, o que é louvável, mas também se espraia pelas relações familiares, pelo amor e afeto. Aí é que tem um papel decisivo a chegada de Álvaro à vida de Alex. À medida que se aproximam, Alex passa por um ritual de amadurecimento belíssimo. Álvaro também, porém em menor intensidade. E o final é um dos mais inteligentes e sensíveis do cinema recente. Tocante não só para os “anormais”, mas também àqueles que se julgam “normais”.

NOTA: 9,0

XXY
Lucía Puenzo
[XXY, Argentina, 2007]

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