MORRE UMA LENDA
Co-fundador da MAD e desenhista há 86 anos, Will Elder deixou um legado de imagens que fizeram escola no mundo dos quadrinhos
Por Germano Rabello, especial para O Grito!

Esta semana morreu Will Elder, mestre na arte dos quadrinhos de humor. Acredito que a maioria dos leitores de quadrinhos não sabem seu nome, talvez até o confundam com Will Eisner (outro mestre). Mas o impacto de seu trabalho na revista MAD e na série Little Annie Fanny é visível, na influência sobre várias gerações de criadores e na cultura pop em geral.

A sua história se confunde com a de seu parceiro, o genial Harvey Kurtzman. Os dois se conheceram estudando na New York High School of Music and Art e viriam a formar uma parceria clássica. No começo de Kurtzman na EC Comics, seu carro-chefe eram as revistas Two-Fisted Tales e Frontline Combat, em que escrevia os melhores roteiros da editora, histórias realistas sobre guerra. As HQs eram desenhadas pelo notável time de artistas da EC. Nessa época Elder era basicamente arte-finalista de John Severin.

A grande mudança aconteceu em 1952. A revista Tales Calculated to Drive You MAD surgiu em outubro daquele ano, adicionando humor na já bastante diversificada linha editorial da EC. Se a arte de Elder era como um patinho feio nos outros gêneros mais sérios (terror, suspense, ficção científica, guerra), no humor ela se sobressaía. A revista caiu como uma bomba na cultura americana, satirizando com selvageria todo gênero de entretenimento e os personagens da cultura de massa. Se você só conhece a MAD de hoje em dia, procure as raízes da revista e vai ficar surpreso de ver que ela originalmente era uma grande revista de quadrinhos.

No primeiro número, Elder (que assinava Bill Elder na época) fez a arte de Ganefs!, sobre dois criminosos tentando pegar dinheiro de uma chantagem. Ao já genial texto de Kurtzman, cheio de aliterações e trocadilhos, Elder acrescentou arte brilhantemente executada e ajudou a criar o conceito chicken fat, em que a ação principal em primeiro plano era complementada por pequenas ações de fundo e pequenas piadas visuais que não estavam no roteiro.

A MAD e sua irreverência caústica tiveram efeitos profundos nas gerações vindouras, notavelmente para a turma underground da Zap Comix nos anos 60, e nos anos 80, até mesmo no trabalho de Alan Moore. Surpreso? A idéia inicial de Miracleman, por exemplo, deve-se a uma sátira da MAD em que um genérico do Shazam esquecia sua palavra mágica. Os roteiros super detalhados e com layouts precisos, que tornaram Moore famoso, tem em Harvey Kurtzman seus antecedentes. As ações de plano principal e plano de fundo em Watchmen devem muito aos trabalhos de Kurtzman & Elder na MAD.

A MAD mudou para um formato magazine em preto e branco no número 24, com estrondoso sucesso. Mas logo uma disputa financeira fez Kurtzman sair da revista em 1956, levando Elder com ele. Aí é que entra Hugh Hefner na jogada. O criador da Playboy admirava muito o humor da revista MAD, e imediatamente ofereceu a Kurtzman o comando de uma nova revista. Com essa liberdade e grandes artistas, foi lançada a Trump. Mas a revista foi um fracasso comercial, cancelada na segunda edição.

A união de sucesso artístico e comercial só viria a ser alcançada pela dupla Kurtzman & Elder em outubro de 1962, quando a série Little Annie Fanny foi lançada na Playboy. A grande sacada foi pegar um personagem anterior da dupla, o ingênuo Goodman Beaver, e transforma-lo numa jovem ingênua e gostosíssima! O conceito era basicamente o mesmo, mas só mesmo com essa mudança a Playboy se decidiu a publicar. O roteiro ao mesmo tempo que mexia com os instintos básicos do leitor, mostrando quase sempre Aninha semi-nua, conseguia ser um espelho satírico do que acontecia nos EUA. Tudo com referências a política, cinema, televisão, publicidade, moda, etc.

A arte da série, a pedido de Hefner, era totalmente pintada e sem linha de contorno, o que foi uma decisão muito acertada para lhe dar uma identidade visual moderníssima para a época. Era aliás, uma HQ com custos de produção elevados, e usualmente Elder tinha o auxílio de outros artistas, como Jack Davis, Al Jaffee e Frank Frazetta.

Ler Aninha é uma experiência diferente de tudo, pela arte estilosamente pintada, pelas inúmeras personalidades caricaturadas, o excesso de referências. As inúmeras gags que Elder insere nos detalhes e o texto caudaloso de Kurtzman fazem você demorar demais em cada quadrinho, o que causa um pouco a perda de ritmo, mas faz parte do sabor único da HQ. Uma preciosidade visual com conteúdo riquíssimo.

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