Wilco (Foto: Divulgação)

É MELHOR SER ALEGRE QUE SER TRISTE?
Album do Wilco prova que há muito mais beleza na tristeza e na simplicidade do que se imagina
Por Mariana Mandelli

WILCO
Sky Blue Sky

[Nonesuch Records, 2007]

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Na letra de “Samba da Benção”, Vinícus de Moraes e Baden Powell, glorificam os dias felizes como sendo a grande chave para uma vida harmônica e quase perfeita. Não parece ser o que pensa Jeff Tweedy, o homem à frente do Wilco, atualmente uma das bandas mais queridas do rock.Sky Blue Sky, o tão esperado novo álbum, chega às lojas apenas no dia 15 de maio, mas já está, há algumas semanas, espalhando melancolia de melhor qualidade por aí e provocando discussões fervorosas dos fãs mais xiitas do Wilco. O sexto disco de estúdio e o primeiro inédito depois de um hiato de três anos aponta novos horizontes para banda. A sonoridade mudou? Sim. Decaiu? De maneira alguma. A resposta para isso pode ser resumida em duas palavras: maturidade e, sobretudo, originalidade. Pode-se arriscar (guardadas as devidas proporções) dizendo que Sky Blue Sky demonstra uma evolução sonorica no Wilco assim como o “4” na obra dos (saudosos?) Los Hermanos. Ambos migraram para uma musicalidade baseada numa tristeza sem fim – e é justamente nesse antro de lágrimas que reside a originalidade e a beleza dos dois álbuns.

Assim como os outros trabalhos do Wilco o novo Cd se baseia na miscelânea de gêneros que compõem a musicalidade da banda. Influências do indie rock, blues, country, pop, punk e de tudo mais que você imaginar. Mas dessa vez são generosas as doses de Neil Young, soft-rock setentista, folk, blues e soul, com um trabalho incrivelmente sofisticado de guitarras e teclados. Tudo criando texturas lindamente peculiares.

A nova formação do Wilco é tida como a melhor da história da banda. A criatividade dos membros, o guitarrista Nels Cline e o multi-instrumentista Pat Sansone, que fazem suas estréias em estúdio com Sky Blue Sky, é essencial nessa mudança de som presente no novo disco.

É claro que esse novo álbum muito mais fácil do que seus dois antecessores – o clássico Yankee Hotel Foxtrot (2002) e a lambança sônica e louca de A Ghost Is Born (2004). É uma volta às raízes – do country inclusive – com muito menos barulho e invenções musicais. Ele foge dos obscuros, mas incríveis e latejantes, experimentalismos psicodélicos costumeiros do Wilco. Por essa razão, provavelmente vai ser acusado de ser um disco cansativo, preguiçoso e que transborda tédio para todos os lados. Simplista, parado e monótono. Com certeza os fãs acostumados ao jeito experimental de se reiventar da banda vão se decepcionar. Mas menos é sempre mais. Evoluir dessa maneira, para uma banda que está sempre na mira dos fãs e da crítica, é um ato extremo de coragem do Wilco. Não ter medo de desapontar os fanáticos e de ser massacrado pela expectativa alheia demonstra personalidade e uma banda segura de si mesma.

São poucos, mas poucos mesmos, aqueles que têm o dom de cantar a melancolia cinzenta de um cotidiano mecânico sem banalizar a aflição humana. São raros os que exprimem, com tanta beleza e talento a angústia crônica de ser e estar num mundo impessoal e individualista. Sky Blue Sky coloca Jeff Tweedy no hall dos melhores poetas da história da música – quem é mais sentimental que ele? Além disso, o disco firma o Wilco como uma das melhores – e mais criativas – bandas em atividade, mesmo sendo sua obra mais triste. Afinal, o próprio Vinicius de Moraes também dizia, naquele mesmo “Samba da Benção”, que para se “fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. Agora Tweedy concorda com ele.

Receita da majestade dos tristes

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Sky Blue Sky é daqueles álbuns que fazem você se apaixonar por uma banda. É um disco para ser sentido, muito mais do que simplesmente ouvir. Seu foco está centrado nas composições e na poesia de Tweedy. A química existente entre as canções, que dá coesão à obra, é luminosa, fruto de um trabalho musicalmente limpo e puro.A primeira canção é a lírica “Either Way”, uma balada linda e de sonoridade simples. “You Are My Face”, a segunda faixa, tem letra saudosista e um solo de guitarra delicioso. “Impossible Germany” talvez seja a melhor canção do disco.

É imponente e instrumentalmente majestosa (atenção ao peso das guitarras), e vai evoluindo de maneira complexa a cada verso lamentado por Tweedy. É marcante para ser tocada nos shows. Sky Blue Sky, que dá nome ao álbum, “Please Be Patient With Me” e “Leave Me Like You Found Me” são doces e delicadas, e demonstram toda a capacidade folk do Wilco. São canções construídas de maneira intimista e introspectiva, e refletem a verdadeira alma do disco. “Side With The Seeds” lembra os melhores momentos de Yankee Hotel Foxtrot, enquanto “Shake It Off” tem um refrão pesado e bem mais rock. Já “Hate it Here” tem, nitida e deliciosamente, os dois pés no soul.“Walken” é criativa nos pianos/teclados (Paul McCartney?) e tem o ar fresco do country da banda num trabalho genial de guitarras. “What Light” e “On And On And On” são duas das mais fortes de Sky Blue Sky, e encerram o álbum de maneira triunfante, demonstrando todo o potencial das melodias elaboradas do – até agora – melhor disco do ano. Sublime.

NOTA: 9,5

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