MINIMALISMO ANIMAL DE MORRISON
Por Paulo Floro
Grant Morrison e Frank Quitely
[ Edição Encadernada, Panini, R$18,90 ]

Ja foi dito que o gênero hq, rebatizado por will Eisner como Arte Sequencial, se configura uma mistura de ilustrações, literatura e linguagem cinematográfica. WE3, da polêmica dupla britânica Grant Morrison e Frank Quitely, é puro cinema. É fundamental falar das qualidades narrativas antes de falar da trama em si, por que nunca se viu nada parecido lançado ate entao. A obra quase não tem diálogos e não foi usado nenhum recordatório. Quitely abusa de técnicas ousadas, virtuosismo de detalhes, jogo de luz, câmera que o fez merecer o prêmio Eisner de melhor desenhista em 2005. Numa das (muitas) cenas espetaculares de WE3, os autores utilizam apenas monitores de um circuito interno de tv pra mostrar a fuga dos armamentos e da dr. Roseanne, um dos momentos cruciais da trama. Frank Miller já tinha feito isso, mas nao conseguiu passar uma ansiedade nervosa como agora. Um suspense como pouco é visto nas telas, digo nos quadrinhos. Em outra página, os animais perseguidos, encontram um sem teto disposto a entendê-los e ajuda-los, nesse momento Quitely mais uma vez impressiona ao mostrar, quase sem nenhum balão, a personalidade e anseio de cada personagem. Isso sem falar da cena de abertura, impressionante em dinamismo e ângulos inusitados, talvez aí uma pequena superioridade dos quadrinhos em relação ao cinema. WE3 não é nenhuma revolução, e provavelmente num futuro próximo nem se configure como um dos clássicos dos quadrinhos (ou arte sequencial, depende de como você encara o gênero), mas com certeza foi uma das melhores obras do ano passado. A crítica logo se propôs a transformar a série em cult, o que talvez tenha conseguido, fato que o final da história não dê margens a continuações. Mas também por se tratar de um título da Vertigo, isso não seja tão difícil.

Na história, o governo dos Estados Unidos utilizaram animais em experiências cibernéticas para criar uma força tarefa fiel e imbatível. É a última linha para um governo que se confunde com animais em sua atuação em guerras e combates. No entanto
o governo decide encerrar o experimento WE3, e é nessa fuga súbita que o argumento se desenrola.Os três animais, um coelho, um cão e um gato, apesar do invólucro cyber e do aparato tecnológico ainda conservam o instinto animal e tentam encontrar um lugar que chamam de “lar”. O vocabulário dos três é pobre e escasso, o que mais uma vez chama atenção ao roteiro de Grant Morrison. O escritor escocês conseguiu traduzir quase sem palavras motivações e objetivos dos três personagens da trama, isso aliado à arte de Quitely é que torna a série um espanto de criatividade.

Frank Quitely e Grant Morrison vinham de uma série de sucesso mas cercada de polêmica, os Novos X-Men (New X-Men), que apesar de alterar os alicerces da mitologia mutante, certamente dividiu os fãs. Quitely possui um estilo incomum na indústria norte-americana, estando mais próximo da arte feita nos quadrinhos alternativos europeus. Com o prêmio Eisner recebido por ele em 2005, mostra que o mercado americano (leia marvel-dc), se encontra (bem) receptivo a novos traços. E isso é fabuloso. Morrison já conquistou o seu lugar entre os maiores escritores, com um contrato de exclusividade com a poderosa DC e um uma fase de sucesso com a Liga da Justiça (inclusive, o mais recente, com arte de Ed McGuiness, lançado em janeiro). O escocês ainda conta no currículo grandes obras como Asilo Arkham, Clã Destino (pela Vertigo) e Homem-Animal e polêmicas (ou incoerências pra alguns) como a série 1,2,3,4 com o Quarteto Fantástico.

WE3 é uma das melhores séries do selo Vertigo, e cumpre o papel que se propõe o selo, criar quadrinho de vanguarda. A panini também merece créditos por lançar sem muito atraso no Brasil esta obra. O preço pode ser um pouco alto, mas vale cada centavo. No mais, para uma obra que fala não precisa falar muito, já escrevi o bastante. E não foi suficiente.
NOTA:: 10

Sem mais artigos