VOLVENDO CON ALMODÓVAR>
Volver é o novo Almodóvar, que com voltas e voltas, arruma sua galeria de signos.
por Rafaella Ordella

VOLVER Pedro Almodóvar
[Espanha, 2006]

“Todas as famílias felizes são parecidas entre si. As infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Esse petardo de Tolstói abre o livro Anna Karenina como uma sentença triste, porém absolutamente verdadeira que nos atinge de maneira irreversível. Ninguém escapa dessa premissa,seja uma família da aristocracia russa do século 19 ou uma família espanhola das últimas décadas.

Volver, a mais recente película de Pedro Almodóvar, é uma fábula moderna e lírica, bonita como poucas incursões nesse tema. Almodóvar pode estar mais sóbrio nas cores, mas sua exuberância está estampada ora nas atuações precisas (precisa talvez seja um termo racional demais…) ora pairando como na metáfora do vento que enlouquece, leva e traz as pessoas de volta ao vilarejo de origem. Sua mão está no roteiro, que serpenteia como muitas vidas fantásticas de pessoas reais (será que os outros continentes dividem conosco a intensidade dos sentimentos?). Está nas atuações à flor da pele, pungentes, cheirando à pimenta vermelha que Penélope Cruz usa pra alimentar um batalhão de gente.


Boca de se fuder: Almodóvar ainda é o melhor no retrato da inquietude feminina.

Sua marca registrada, criar a comoção da identificação, permeia uma narrativa brilhante, nada óbvia como sugerem aqueles que confundem estilo com repetição,pelo contrário. É um talento se reiventar em histórias similares e distintas ao mesmo tempo…Volver é único, ainda que remeta a obras anteriores. Poucos falaram de família desse jeito antes, tocando em temas recorrentes mas sugerindo uma abordagem tão afetuosa. As mulheres já receberam o carinho do diretor em forma de filme ao longo de sua obra, e o maior mérito desse trabalho é reafirmar a força do sexo feminino, nas relações entre si e nas sagas familiares.

Aqui, um ar de Garcia Márquez contemporâneo, a dar outra perspetiva do quão mágicas podem ser as trajetórias das pessoas. Nada há de terra-à-terra no universo de quem guarda segredos por décadas, quem vive à sombra do amor de quem ama, quem abre mão da própria vida para cuidar dos seus.

Carmen Maura reconciliou-se com seu habitat natural, na persona de uma matriarca nada previsível, ainda que doce e forte em momentos alternados. Superou em muito a avó firme e divertida de “Valentim”. Volver marca voltas ainda mais simbólicas, o resgate do passado daquele menino excêntrico que saiu da cidade de Mancha pro mundo e no entanto hoje retrata suas impressões de povoados folclóricos, místicos e pessoas extraordinárias que estão sob a pele de mães, filhas, avós, vizinhas. Sem que ninguém desconfie.

NOTA:: 8,5

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