VOCAÇÃO OU OBSESSÃO?
por Fernando de Albuquerque

VOCAÇÃO DO PODER Eduardo Escorel e José Joffily
[Brasil, 2005]

O que leva um cidadão comum, que dispõe de boa dose de popularidade, candidatar-se a um cargo público? Essa é uma das perguntas que Vocação do Poder, filme de Eduardo Escorel e José Joffily, faz, e responde com muita destreza. O documentário mostra o percurso de 6 candidatos ao cargo de vereador nas eleições de 2004 na cidade do Rio de Janeiro. O filme, que já foi exibido em festivais importantes do país como o “E Tudo Verdade” e na última “Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”, só agora chega às telinhas recifenses e no circuito alternativo. Em um cinema não muito estruturado. Está sendo exibido, no Cine Teatro Apolo, com sessões de terça a quarta e nos finais de semana nos horário das16h, 18h e 20h.

A princípio muita normalidade, mas quando as primeiras imagens surgem na tela o espectador, que com toda certeza esperava um filme bem sisudo vê esta tese cair por terra. O documentário possui várias particularidades. A primeira delas está na escolha dos protagonistas. A equipe incluiu apenas aqueles que estavam se candidatando, pela primeira vez, a vereador do Rio e que, de preferência, fossem jovens. Para realizar a escolha foi disposto um formulário on-line, para que os interessados em participar do projeto respondessem 16 questões sobre sua orientação política, partidária e as condições da campanha; com isso foi possível escolher os candidatos que representassem diversas alternativas da conjuntura política da cidade. Foram 70 inscritos. E as gravações tiveram início nas convenções partidárias desaguando na comemoração de alguns e na decepção da derrota de outros, ao final das eleições. Tudo isso passando por uma apuração bastante aflita e a reação no dia seguinte.

A narrativa é bem linear, nada de muita experimentação. Pelo contrário há o retrato fiel de cada participante. De um lado está a Pastora Márcia Teixeira, com 45 anos; do outro um funqueiro cheio de gírias: o MC Geléia, com 27 anos. Noutra ponta do está Carlo Caiado, 24 anos, e uma campanha com mais pirotecnia que discurso; em outro extremo está André Luiz Filho, com apenas 21 anos, herdeiro político dos pais (ambos deputados estaduais), a seu favor um assistencialismo daqueles bem baratos. Ainda faltam Felipe Santa Cruz com um discurso altamente politizado, talvez o mais consciente de todos, e o “esforçado” Antônio Pedro de Mello, com 30 anos. Todos são diferentes espelhos da política nacional. Dá até para estabelecer algumas comparações.

Voltando ao institucional: o filme reproduz, entre uma tomada e outra, as dificuldades de campanha de cada candidato. Bem como as diferenças gritantes entre eles. Enquanto um se dedica ao corpo-a-corpo subindo os morros, outros se focavam nas comunidades em que seu nome já era conhecido de alguma forma. Noutro extremo um dos candidatos rezava com muito fervor e passeava em locais mais populares. Isso enquanto um fazia discursos bem analíticos e enriquecedores para platéias vazias. “Isso é o reflexo do descrédito na política nacional. Um auditório da Puc com menos de 20 alunos para debater sobre política”, disse Felipe Santa Cruz em um dos momentos de frustração. A cena se conclui com uma seqüência dele, abraçado à sua esposa, passando pelas famosas pilastras redondas, bem no estilinho da arquitetura dos anos 50, dos terraços da Puc do Rio.

Alguns problemas técnicos e de edição chegam a irritar o espectador. Um deles é a presença, em alguns momentos, do diretor em cena e mesmo a falta de enquadramento da câmera que deixa o microfone aparecer. Alguém pode até dizer que “a presença do diretor” demonstra uma questão estética. Mas não nesse filme. Quando uma obra se destina a abraçar questões de imagem possui propostas diferentes. Não se pode confundir desleixo com experimentação. E lá pelo meio da exibição vem a pergunta: onde está a pastora Márcia? São poucas as tomadas em que são exibidas a campanha da pastora. Mas tais desvios, digamos assim, não diminuem a atração causada pelo filme. Vale a pena ser visto não só pela indignação que causa, mas também pela boa dose de risadas proporcionada por cenas bem escatológicas.
NOTA:: 7,0

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