Vitor Araújo (Foto: Luciana Ourique/ Divulgação)

MARACATU ERUDITO
Revelação da música brasileira, Vitor Araújo chama atenção pela postura independente e interpretações completamente livre de grandes hits
Por Fernando de Albuquerque

VITOR ARAÚJO
TOC – Ao vivo no Teatro Santa Isabel
[Deckdisc, 2008]

Tem gente que defende a tradição. Outros a pura iconoclastia. Mas o meio-termo desse imbróglio finalmente encontrou alguém que vista a camisa com unhas e dentes. E o advogado que incorpora essa causa é o pianista Vitor Araújo que tem apenas 19 anos, muito talento e um senso de humor pedantista. Ele foi pivô de uma polêmica envolvendo sua interpretação, nada ortodoxa diga-se de passagem, de “Frevo”, de Marlos Nobre. Tudo, claro(!), foi parar no youtube e daí pro rapaz ganhar fama foi um salto. O primeiro sinal veio quando ele se apresentou no programa do e conquistou apresentador e platéia. Depois foi o Abril Pro Rock, em uma malograda apresentação prejudicada pela acústica da casa e o formato do próprio festival. Disposto a conquistar espaço no disputado mercado de música ele lança Toc, um CD/DVD gravado ao vivo no Teatro de Santa Isabel, na capital pernambucana, sua cidade natal.

Sentado, de pé, com mãos, pés e os membros que puder, Vitor deseja tocar seu piano em uníssimo. Das teclas à corda, sua premissa é explorar toda a estrutura do instrumento que estuda desde os 10 anos de idade. E para isso ele toca versões de Villa-Lobos à Luiz Gonzaga. Dá roupagem que passa barroco, deságua no romantismo do século XIX e acaba desconstruindo músicas como “Paranoid Android” que ele considera seu single. Aqui-alí vemos, também, alguns toques jazzisticos que deixa escapar em alguns arranjos.

São nove músicas entre com interpretações de Villa-Lobos, em “Dança o Índio Branco”; Chico Buarque, em “Samba e Amor”; passando por Cláudio Santoro com “Paulistana Nº 1”; Luiz Gonzaga com “Asa Branca”; Edino Krieger, em “Sonatina Para Piano”; Tom Zé “Toc”; e uma série de citações e composições próprias como “Valsa Pra Lua” e “Última Sessão”. O trabalho foi dirigido por Fabrizio Martinelli e já lhe rendeu atenção nacional além de recordes de acesso na internet, tanto no MySpace do garoto quanto em exibições no Youtube. Com tantos olhares voltados para ele, o garoto agora parte para apresentações em Brasília e São Paulo ainda este mês.

O talento do pianista veio à tona ano passado, ao participar da Mostra Internacional de Música de Olinda, em que também se apresentaram instrumentistas como Yamandú Costa e Hamilton de Hollanda, Egberto Gismonti e Naná Vasconcellos, João Donato e Paulo Moura e que contou com a presença do maestro Isaac Karabtchevsky. Apesar da estética e atitude de palco parecidas com as do inglês Jamie Cullum.

Antes de Toc, Vitor Araújo havia feito Variando, em 2006. Deste DVD demo foram retirados os vídeos que acabaram no site Youtube, provocando o protesto de Marlos Nobre, insatisfeito com a interpretação que ele deu para seu Frevo, repleta de improvisos e citações. Produto da cena pernambucana que revelou dezenas de artistas, desde o surgimento do manguebeat, Vitor Araújo reza na cartilha de Chico Science que transformou a cidade do Recifeem uma verdadeira escola de música, com uma forte cultura de bandas.

NOTA: 8,0

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