VIOLÊNCIA SEQUENCIAL
Depois de 20 anos fora de catálogo no Brasil, Devir lança edição luxuosa da HQ que foi um soco no estômago na explosão dos “quadrinhos eróticos”

Por Paulo Floro
Da Revista O Grito!

Para os admiradores do trabalho do quadrinhista Howard Chaykin, a HQ Black Kiss é tida como seu derradeiro trabalho no gênero, uma despedida antes de partir para a TV. Claro que sua ida não foi definitiva e o autor ainda escreveu outras obras interessantes ou nem tanto, mas nenhuma comparável ao seu clássico noir, que chega agora às livrarias pela Devir. Repleto de sexo e violência, o livro foi proibido em alguns países e ficou anos fora de catálogo no Brasil.

Por ter sido concebida como a última obra de Chaykin nos quadrinhos, a HQ é radical como nenhuma outra arte sequencial erótica já conseguiu ser. Driblando qualquer censura, a trama vai sem freios numa ideia já cansada das mulheres voluptuosas, cintas-liga e salto alto que imperavam nas histórias de sacanagem dos anos 1980. A forma como o autor deixa claro seu desprezo pela indústria dos comics de investigação e pelas heroínas eróticas fica claro por uma de suas protagonistas, uma travesti.

Na trama, o músico de jazz e ex-viciado Cass Pollack se envolve com duas personagens perigosas e cheia de segredos, a ex-estrela de cinema Beverly Grove e sua amante, a travesti Dagmar Laine. Cass precisa se livrar de um triplo assassinato e as duas o usam para recuperar um valioso filme que pode comprometer um plano macabro. A história mistura religião católica, cultos satânicos, drogas e prostituição.

Black Kiss é radical em sua narrativa e não tem pudor na forma como trata o sexo. Chaykin torna constrangedor um chamariz que sempre foi fator de sucesso nas HQs eróticas, que é a excitação do leitor. Segundo o roteirista Matt Fraction (Casanova, Punho de Ferro), a HQ mostra o desprezo de seu autor pelo movimento dos “quadrinhos adultos” e até pelos próprios leitores. “Ele nem mesmo lhes permite curtir a putaria explícita aqui, seu livrinho picante de sacanagem”, escreve Fraction no prefácio.

A obra tornou-se clássico nos quadrinhos mais pelo que provocou na indústria e tornou-se controversa entre editores e demais realizadores da área. Muitos ainda não conseguiram compreender essa proposta crua de violência. Para outros, Chaykin é um gênio por levar o gênero a romper barreiras que outras artes já fizeram. Sem falar na arte em preto e branco que remete aos quadrinhos pulp.

Howard Chaykin começou a carreira trabalhando como assistentes de grandes nomes como Neal Adams e Gil Kane, nos anos 1970. Black Kiss seria seu último trabalho, por isso soa tão derradeiro. Claro que Chaykin retornaria aos quadrinhos, fazendo HQs de super-heróis como Nick Fury e Wolverine (1989) e Guy Gardner: O Pacificador (2006).

No Brasil, Black Kiss saiu como minissérie pela editora Toviassú, que publicava a revista Casseta & Planeta, em 1991. Nos EUA, foi lançada primeiramente em 1988 numa série em 12 volumes e em seguida compilada pela Dynamite em 2010. Nesses 20 anos a obra chegou a ser proibida na Inglaterra e chegou a ser queimada na Austrália. A edição que chega pela Devir faz jus à importância e chega em duas versões, capa dura e brochura. Obra-prima do erotismo? Pelo gosto de seu autor, a história é uma amostra de como o gênero ainda pode romper barreiras.

BLACK KISS
Howard Chaykin (texto e arte)
Tradução de Marquito Maia
[Devir, 152 págs, R$ 49,90 (capa dura) e R$ 36 (brochura)]

NOTA: 8,5

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