Por Rafaella Soares
Repórter da Revista O Grito!, em Recife

O trabalho espetacular de marketing da Disney que antecedeu o lançamento de Alice no País das Maravilhas (Tim Burton’s Alice in Wonderland, EUA, 2010), envolve o projeto numa embalagem blockbuster nunca vista antes em obras do diretor, aguçando a curiosidade de fãs e remotamente interessados.

O filme estreia neste fim de semana após muito alvoroço bem justificado. Mesmo em títulos como A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999), A Noiva-Cadáver, A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005) e Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007) – pra ficar nos seus recentes sucessos de bilheteria – , o diretor não poderia encontrar melhor oportunidade de fazer seu cinema autoral e circunspecto ser acessível a um público mais heterogêneo.

Fãs da estética lúgubre já engrossaram o time de admiradores do trabalho de Burton, homenageado recentemente pelo Museu de Arte Moderna de Nova York com uma exposição só sua, há algum tempo. Seu marco inicial relevante no cinema, Edward Mãos de Tesoura (1990), inaugurou não só a parceria bem sucedida com o ator Johnny Depp (o Chapeleiro Maluco em Alice…), mas um estilo que o acompanharia em produções distintas, ligadas no entanto por um traço de estranheza.

Os filmes de Burton vem sublimando o sombrio pelo lúdico. Isto é: se fotografia e direção de arte forem mais superlativos do que a mensagem. Em Alice, mesmo as cenas escuras, predominantes depois que a personagem volta à Wonderland da sua infância, são atenuadas pela presença angelical de Mia Wasikowska, no papel da menina inglesa aos 20 anos.

A Rainha Vermelha (interpretada com mais propriedade imposível por Helena Bonham-Carter, mulher do diretor), misto de birrenta e ególatra irresistível, tem lá suas fraquezas. E seu humanismo. A Rainha Branca (Anne Hathaway, sílfide), não chega a desenvolver muito, mas encanta pelos modos de bailarina. O Coelho Branco, não fica claro se é um fanfarrão ou se está chapado. O Chapeleiro Maluco de Depp, com sua vasta cabeleira laranja e diastema à lá Madonna, é o mais melancólico do bando, mal disfarçando sua paixão platônica por Alice.

A trama paralela a Wonderland, sobre a vida da mocinha prestes a enfrentar decisões do mundo adulto como casamento e responsabilidade sobre os negócios da família, guarda menos de magia do que seria necessário para ligar a experiência que ela vivencia no imaginário (será?) e o dito mundo real.

O filme se atém ao melhor do universo de Lewis Carrol (autor do romance original) e Tim Burton: fantasia, onde se pode manifestar tudo o que dentro de limites de coerência não seria sequer sonhado.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Tim Burton
[Alice in Wonderland, EUA/ING, 2009]

NOTA: 8,0

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