Valentino Garavani rodeado de Top Models

O FIM DE UMA ERA
Valentino dá adeus ao mundo da alta-costura, da moda e da criação fechando um ciclo de 50 anos transformando a história do vestuário
Por Fernando de Albuquerque

São 75 anos de idade, 45 dedicados à carreira de pleno sucesso e vestidos desenhados para nomes como Jackie Kennedy Onassis e Julia Roberts. Valentino tornou-se ícone, nome respeitado, transformou a história do vesturário e na última terça-feira, 23 de janeiro, encerrou sua carreira apresentando a ultima coleção de alta costura.

Ele foi aplaudido de pé pelos 800 convidados numa tenda instalada nos jardins do Museu Rodin, em Paris. O estilista formatou uma coleção destacada por tailleurs em tons pastéis e longos vestidos como os que fizeram sucesso entre as principais estrelas de Hollywood. Ao final, o grande estilista saudou os presentes na passarela jogando beijos e abraços. Entre os convidados, destacava-se pelo entusiasmo a atriz Uma Thurman.

Na passarela estavam tops como Eva Herzigova e Natalia Vodianova, enquanto na platéia se destacavam Lucy Liu, Miuccia Prada, Alber Elbaz e Emanuel Ungaro. Na passarela, roupas clássicas e impecáveis, dignas do estilista, que entre pretos e brancos não se esqueceu de seu tom favorito: o vermelho. A cor, conhecida como “vermelho Valentino”, apareceu em modelos de decote V de chiffon em 30 reproduções.

Em nota oficial publicada pelo Hedald Tribune ele afirmou: “Eu quero dizer, como fazem os ingleses: ‘Gostaria de sair da festa quando ela ainda está cheia'”. Após negar planos de venda da casa Valentino, o estilista e seu sócio Giancarlo Giammetti anunciaram sua decisão de sair do negócio. O grupo britânico Permira assumiu a maison e indicou Alessandra Facchinetti, que fez carreira na Gucci, para ser a nova grande estilista da marca.

Apesar de não mais estar no estúdio, Valentino diz ter diversos projetos para os próximos meses. Após uma aparição no filme “O Diabo Veste Prada”, o estilista estará no documentário “Valentino: O Último Imperador”, documentário dirigido pelo correspondente especial Matt Tyrnauer, da Vanity Fair.

Tão famoso pelos vestidos quanto pelo estilo de vida extravagante e pelas festas, o estilista nasceu em Voghera, no norte da Itália, em meados de 1932, ainda quando Mussolini desastrosamente chefiava o governo italiano e a monarquia abrilhantava o país e o povo italiano.

Arquitetuta, escultura e pintura levaram o então adolescente, batizado de Valentino Clemente Ludovico, a se interessar por artes. A moda foi seu recurso para representar o seu apreço pela arte que começou ainda quando criança, incentivado pela mãe, como conta o próprio estilista em entrevista à agência Reuters.

Aos 17 anos, trocou a região industrial onde nasceu por Paris, já com um curso de moda concluído em Milão. Talento e sorte levaram o jovem ao atelier do francês Guy Laroche, um dos grandes criadores de sua época. Inspiração de muitos. Isso foi em 1957. E assim ele aprendeu o negócio da alta-costura.

Seu sonho era algo hoje mal-visto por muitos no setor –simplesmente deixar as mulheres mais bonitas. Sua ascensão coincidiu com o auge do cinema italiano, e seus vestidos e saias com cintura de vespa ficaram associados a musas como Sophia Loren.

Alguns anos de trabalho duro e Valentino resolveu voltar para a Itália, onde em 1961 apresentou sua primeira coleção. A década da revolução cultural também foi bondosa com ele, que apostou em uma moda glamourosa, para mulheres poderosas como atrizes de Holywood e artistas. Em 1962, já havia consolidado seu nome como mestre da alta-costura italiana a partir de sua base, em Roma.

Foto: Jean-Luce Huré / The New York Times

Salto em inovação
O estilista foi também um dos que popularizaram o chamado prêt-à-porter (que representa o movimento do trabalho de moda em série, mais barato, mas nem por isso menos glamuroso) já que até então a indústria da moda continuava apostando na alta-costura. Ele criava os vestidos nos corpos de suas clientes, aproveitando cada particularidade. Foi daí que surgiu o logotipo V em sua marca, popularizada nos anos seguintes.

A França e sua semana de moda, sempre a mais poderosa do mundo, se curvaram ao talento do italiano. Foi ele o primeiro de seu país a fazer sucesso em Paris. Nos anos 1980, que remetem muito à década de 1950 no que diz respeito a estilo, Valentino dá outro salto com a possibilidade de fazer o que mais gosta: criações ousadas, o uso de cores como o vermelho puro sangue e recursos como laços gigantes, nós e drapeados.

Nem os anos 90 e a chamada moda minimalista tiraram o criador de cena. Ele soube se adaptar muito bem aos novos tempos, apesar de nunca abandonar seu jeito excêntrico. Valentino tinha (e tem) fãs como a princesa Margareth e a princesa Diana, entre muitas outras.

Em 2002 a marca Valentino foi comprada pelo Marzotto Group (conglomerado italiano que existe desde 1830 e no ano seguinte, o estilista lançou a R.E.D., marca mais jovem que usou vários artistas como garotos-propaganda.

Em 2005 uma nova reestruturação e o grupo que cuida da marca Valentino comprou também a Hugo Boss e M Missoni, entre outras. O Valentino Fashion Group, então, passou a ter nove mil funcionários em 23 países. Daí os novos tempos. Não se sabe ao certo o motivo mas, a partir dessas mudanças, Valentino desistiu de criar moda. São mais de quatro décadas criando alta-costura e prêt-à-porter.

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