Coluna Valentina // Seu bíceps pelo meu cérebro! (Foto: Stock.Xchng / Divulgação

Eu não pratico exercícios físicos. Aliás, abomino quem os pratica. Tem coisa mais tediosa que levantar peso por horas? Claro que não! O que é mais ridículo em salas de musculação é a própria arrumação visual delas. Cada pesinho é de uma cor. O de três quilos é vermelho, o de quatro quilos é verde e o de cinco quilos é amarelo. Mas não são simples cores básicas. Por que ao invés de optar por tons sóbrios, o verde é semi-limão. O amarelo é gema cintilante. O vermelho consegue ser mais forte ofuscante que a cor criada por Valentino, de quem herdei além do nome escolhido por mamá, em sua plena homenagem, o bom gosto para arrumar companhias. Ao que me parece, os “malhadores” (vocês não sabem a dor que sinto ao digitar essas letras) são extremamente burros. Para saber o valor dos pesos olha-se a indicação do número na lateral. Mas acharam pouco e decidiram pinta-los e revesti-los de borracha uns quilinhos de ferros que mais parecem terem saído das profudezas inferno. Mas bem que eles seriam de excelente uso numa briga matrimonial.

Da última vez que protagonizei esse tipo de cena estava em Berna e não sobrou um único jarro intacto no quarto do hotel. Pena que o sujeito ainda saiu sem ferimentos. Ah, um pesinho desses na minha mão. Aterraria bem fundo na caixa craniana dele e teria herdado boas cifras. Mas a vida passa e hoje eu tou aqui. Levantando pesos. Correndo em uma esteira nojenta. Pedalando em uma bicicleta que não sai do canto (não que meu sonho seja passear de bike em locais bucólicos, deixo isso pros otários que lêem Proust). Sou obrigada a aturar meninos na casa dos vinte que usam fita métrica para medir o bíceps, ou então quarentões interessados em se preparar para a idade do lobo. Afinal, os interessantíssimos rapazes de trinta estão metidos em escritórios tentando ganhar a vida e montar uma casa para casar-se com a futura namorada que, no mínimo, é completamente alienada e está pronta para dar a bundinha ao primeiro que tiver mais dois centímetros de pau. O mundo é injusto! Deveras injusto. Tou eu aqui, linda e maravilhosa. Magra! Lutando contra o futuro da flacidez, enquanto os lindos moçoilos de trinta (sinto maior tesão por eles) estão se afundando na vida. Poderia faze-los feliz. Isso me frustra e me faz aumentar a velocidade da porcaria da esteira. E sempre que faço isso um fortão bizarro me encara meio de banda forçando o braço a ficar duro. Confesso que queria muito me atracar com um bofe desses. Só para rir dos parcos dotes físicos deles.

Coluna Valentina // Seu bíceps pelo meu cérebro! (Foto: Stock.Xchng / DivulgaçãoO pior de toda a aura mítica que gravita em torno das salas de musculação é o som. Não dá! Não dá pra ouvir Voyage Voyage e ficar em paz consigo mesmo. Não dá para ouvir trance na aula de aeróbica e ficar em paz consigo mesmo. Se tocassem música clássica acho que todo mundo sairia muito mais feliz e culto das aulas. E não adianta levar Ipod, Mp3 player ou o raio que o parta. É quase impossível não sair enojado com os hits do halterofilismo. E por isso fico tentando arrumar desculpas para largar a academia. Mês passado uma amiga minha disse que perdeu quilos com pompoarismo e ainda agradou o marido. Pensei: estou salva! God save my life. Que nada. Pompoarismo é a mais pura falácia. A técnica serve para aquelas portadoras de thetchênia malhada, ou seja: vaginas que praticam musculação. Só que ao invés de pesinhos são bolas. Desisti no ato. Não tem coisa mais constrangeroda que ficar olhando pra outra pessoa fazendo careta ao enfiar bolas na @&*#&. Passei por um momento desespero quando uma conhecida dessa minha amiga não tinha se depilado e clamava por uma tesoura para cortar o fio revolto corpo adentro. P-Â-N-I-C-O! Saí correndo do apartamento, passei em casa, peguei meu colant e corri pra academia do conjunto nacional.

Só não tomo diet shake. É muito podre!

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[+] Valentina Finnochiaro é ex-maneca, socialite e hoje vive nan ponte aérea São Paulo – Recife – Milão. Escreve crônicas neste espaço toda semana.

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