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APREENDENDO NOSSAS LIBERDADES
Quando soltar baforadas virou alvo da patrulha do saudável
Por Valentina Finocchiaro, especial para O Grito!

Minha gente, tudo bem que a proibição do fumo em shoppings centers e locais fechados seja procedente, mas impedir que o fulano saque um cigarrinho quando está tomando aquela cerveja, falando mal do chefe logo depois do expediente, é um pouco demais. O que seria (por exemplo!) da beleza, virilidade e sensualidade de Clooney, Brad Pitty, Marlon Brando, Hugh Grant e Yann Tiersen se não fosse a carteira de cigarros Malboro (aquele bem tradicional em branco e vermelho Valentino) que os acompanha? Seja no bolso da camisa, da calça ou em algum paletó fechoso, lá está a caixinha com 20 unidades prontas para promover gozo, amainar os ânimos e deixar essas beldades mais sexy com um bastonete de papel e nicotina pendurado na boca. E se fossem recifenses (só se for em sonho) estariam sofrendo horrores no exato momento.

E eles ainda têm o prazer de não precisar se deparar com fotos de membros apodrecidos, ratos e baratas (tem coisa mais imunda?) recém assassinados por ‘milioitenta’, fetos mal formados e o que mais valha. E lógico que aí surge a pergunta: alguém parou de fumar por conta disso? Óbvio que não! Os mais insensíveis nem ligam se tem gente morta ou não na carteira e fumam alheios a qualquer mazela escancarada, outros escolhem as fotos menos obscuras. Minha irmã mesmo só compra aquela da menina sufocada. E como ela mesma diz: “a cara de desespero dela não mexe com meus ânimos. Tem coisa pior que barata morta!?” Certo dia a bunita rodô postos de gasolina para achar um Malboro Light com a cafuçu mirim se sufocando.

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Minha irmã mesmo só compra aquela da menina sufocada. E como ela mesma diz: “a cara de desespero dela não mexe com meus ânimos. Tem coisa pior que barata morta!?

Agora sugiro um exercício. Imagina uma mulher sozinha num bar bebendo! Imaginou? Agora imagina a mesma mulher num bar bebendo e fumando um cigarrinho! Agora o que você pensa da primeira mulher? Resposta: “bichinha, levou um bolo!”, ou “as amigas nem vieram!”, “daqui a pouco vai sofrer assédio dos cafuça”. Já a segunda mulher fumando o cidadão olha e vê “que massa! Ela ta confabulando, detonando um bofe com seus pensamentos, tá esperando a pessoa em que ela vai dar um baile”. E essa daí não corre o risco da cantada. Afinal, cigarro queima, querido! E como!

E nos bares recifenses o cidadão tem que se levantar da mesa, ir até a calçada e fumar, sozinho, em pé e fazendo carinha triste. Quantas fofocas serão perdidas nesse ínterim, quantas traições serão fomentadas no intervalo do cigarro? Pois enquanto o cidadão fuma pode muito bem conhecer uma outra garota fumante, ou a esposa do fumante pode muito bem conhecer um bofe não-fumante enquanto o maridão se delicia com o bastonete na boca.

Os fumantes recifenses agora são pessoas segregadas do convívio social em mesa de bares e restaurantes de áreas abertas. Os caçadores de fumantes querem pausterizar até mesmo o hálito alheio e fazer os viciados (porque cigarro é vício sim, eu sou fumante reconheço!) freqüentem o gueto que se tornou a rua – lotada de fumantes de todos os tipos e idades. Tal como párias de uma sociedade que ao invés de se preocupar com o efeito estufa, a poluição dos automóveis, combustíveis biodegradáveis, o protocolo de kyoto, a viabilização da pesquisa das células tronco, com a guerra iminente na América Latina, os altos índices de analfabetismo ou mesmo da inclusão digital preocupam-se, apenas, com o alheio.

Já não basta locais separados para fumantes e não fumantes. É preciso expulsá-los das mesas!

Tudo bem que cigarro faz mal. Mas seria muito mais justo e convincente se acabassem com a indústria do tabaco e mesmo criminalizassem o uso do cigarro. Aí sim eu, fumante convicta, sentiria que a os caçadores, a mídia, o governo, os políticos estariam se preocupando com minha saúde. Afinal não interessa a ninguém se vou morrer ou não de câncer. Eu pago meu plano de saúde e portanto não vou causar nenhum ônus ao estado com minha futura doença. E eu riria direto do túmulo se contrariando a regra, morresse de alguma doença completamente diversa e não ligada diretamente ao meu aparelho respiratório.

A desculpa esfarrapada do banimento é apenas uma saída para dondocas embonecadas de botox e wellaton. Todas desejosas que seus cabelos não sofram uma única chamuscada de fumaça, mesmo que a 500 metros de distância. E para hipocondríacos insandecidos que se consideram fumantes passivos que podem sofrer uma embolia pumonar em menos de cinco a 100 metros de um fumante.

O cigarro é meu! O pulmão é meu e eu estrago como quiser!

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[+] Valentina Finnochiaro é ex-maneca, socialite e hoje vive nan ponte aérea São Paulo – Recife – Milão. Escreve crônicas neste espaço toda semana.

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