A poeta Hilda Machado publicou apenas dois poemas em vida. Mas seus documentos esparsos são agora reunidos em Nuvens, que sai pela editora 34. Pesquisadora e cineasta nascida no Rio de Janeiro em 1951, Hilda tinha um trabalho poético fortemente visual.

Em vida, Hilda Machado publicou apenas dois poemas, divulgados na primeira década dos anos 2000 pelas revistas Inimigo Rumor e Modo de Usar. Deixou, porém, além de manuscritos esparsos, este Nuvens, que ela mesma organizou e chegou a registrar na Biblioteca Nacional, claro sinal de que considerava publicá-lo um dia. É o que agora se realiza, graças à colaboração de Angela Machado, irmã da autora, e ao empenho do poeta Ricardo Domeneck, que assina o texto de apresentação do volume.

Hilda Machado nasceu no Rio de Janeiro em 1951. Fez mestrado em Artes pela USP (1987), doutorado em História Social pela UFRJ (2001), e foi professora na UFF a partir de 2002. Estudou direção de cinema na Escuela Internacional de Cine y Televisión em Cuba (1989) e atuou como pesquisadora em várias universidades e instituições no Brasil e no exterior, como a New York University (1993) e a University of London (1998-1999).

Em 1987 recebeu o prêmio de melhor direção nos festivais de cinema de Gramado, Recife e Rio de Janeiro pelo curta-metragem Joílson Marcou, com trilha sonora de Itamar Assumpção. Além de vários artigos e ensaios sobre cinema, publicou em 2002 o livro Laurinda Santos Lobo: artistas, mecenas e outros marginais em Santa Teresa (2002). O livro de poemas Nuvens, organizado pela autora e datado de julho de 1997, permaneceu inédito até agora.

Ela morreu em São Paulo, ao cometer suicídio, em 2007.

“A poeta Hilda Machado, porém, é praticamente desconhecida de todos. Não a conheci pessoalmente, algo que me entristece muito. Sua morte em 2007, sem livro publicado, marcou a perda de uma pessoa muito querida entre seus amigos, mas ela também marca a perda de uma poeta intensa e inteligente, que parecia levar o conselho de Pound (“only emotion endures”) muito a sério, especialmente contra o pano de fundo da poesia brasileira dos últimos 30 anos”, escreveu Domaneck na revista Modo de Usar.

Nuvens tem 96 páginas e custa R$ 36. Veja abaixo o poema “Miscating”, um dos poucos publicados em vida pela autora e que estará presente em Nuvens, da Editora 34.

Miscasting

“So you think salvation lies in pretending?”
Paul Bowles

estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino

há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída

agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga

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