O PRECIOSO LIXO DOS CARTUNS
Com quase duas décadas de atraso, chega ao Brasil Underworld, famosa tira alternativa americana e seus personagens nonsense
Por Germano Rabello, especial para O Grito!

UNDERWORLD
Kaz
[Zarabatana, R$ 30]

Numa das tiras mais legais da coletânea do Underworld, dois senhores estão no velório de um personagem de quadrinhos e dizem que ele teve a pior de todas as mortes: nenhuma criança o amava mais. De uma forma enviesada, em meio a muita ironia e humor negro, o autor demonstra uma profunda devoção à tradição dos quadrinhos. E com esse lançamento da editora Zarabatana, os aficcionados finalmente tem a oportunidade de ler em português a obra de Kaz, que já entrou pra história dos quadrinhos como um dos melhores exemplos de como recriar essa tradição com um toque totalmente contemporâneo, para um público adulto. A tira foi criada em 1991, portanto chega aqui com um atraso inexplicável.

Underworld funciona assim: Kaz encheu um universo com personagens que parecem ser o lixo dos estúdios de quadrinhos e de animação. Que podem lembrar até Popeye, Mickey Mouse, Patolino, mas em suas versões mais decadentes e indecentes. Junte a isso uma imaginação bizarra, situações absurdas, falta de lógica, e você começa a ter uma idéia do que vem pela frente. Mas o mais legal de tudo é que “Underworld” não pode ser resumida numa fórmula.

É algo que você pode ler sem medo de enjoar. Sempre aparecem personagens novos, e mesmo os velhos personagens são usados de maneiras imprevisíveis graças inclusive a esse desapego à coerência. A tira pode ser um pequeno poema, pode não usar palavras, pode ser metalingüística (Kaz faz participações em algumas). O toque em comum é a falta de limites para as situações. A criatividade reina absoluta.

Nestas tiras, toda a iconografia e todos os clichês dos quadrinhos são regurgitados, formando um todo que chama a atenção exatamente por ser iconoclasta e ao mesmo tempo usar de maneira extremamente inteligente os recursos dessa linguagem. O desenho é visceral, com cenários toscos, sujos, sem atrapalhar a leitura, e os personagens não ficam muito atrás das bizarrices de Basil Wolverton ou da seção “desenhos dos leitores” da revista MAD.

Mas Kaz é um mestre. Cada pequeno detalhe, cada risco numa parede, cada formato dos balões, cada pelo na barba de um personagem está ali por uma razão, porque é essencial para o clima da tira. E ainda por cima o texto é muito afiado. Mesmo que ele use pouco a lógica, ele cria um universo que respira, que parece estranhamente verossímil. Como um daqueles sonhos extremamente bizarros que se você contar parece não fazer sentido.

A edição da Zarabatana está bastante correta, simpática, e tem material suficiente para deixar os fãs bem satisfeitos até a próxima coletânea, que esperamos, seja lançada em breve. Um detalhe curioso é que quando se faz referência à clássica personagem Nancy, de Ernie Bushmiller, adotam o nome de “Periquita”. Não sei de onde tiraram, provavelmente tem base em alguma publicação brasileira que traduziu assim, mas fica esquisito pra caramba. No mais, é uma ótima tradução. Compre sem medo. Ah, e os mais sedentos podem sempre encontrar material novo no site do autor. That´s all, folks!

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