Julia Roberts e o diretor Dennis Lee no set de filmagem do longa (Foto: Divulgação)

LEDO ENGANO
Em seu primeiro longa, diretor Dennis Lee mostra que tem muito o que aprender na composição de narrativas com mais de uma hora de duração
Por Fernando de Albuquerque

UM SEGREDO ENTRE NÓS
Dennis Lee
[Fireflies in the Garden, 2008]

O título em português é ruim e muito apelativo. E aqui a palavra apelação ganha ainda contornos mais fortes quando se vê a foto da atriz Julia Roberts estampada na capa do DVD e em todo material publicitário que foi distribuído na época de lançamento. Isso só salta aos olhos porque se formos contar no relógio os minutinhos durante o tempo do filme, a baixinha só atua em, no máximo, uns 10 minutos. E já a partir daí o espectador já fica puto da vida: locou o filme pensando que ia ver Julia Roberts em toda sua performance e acaba vendo um monte de marmanjo (em forma, claro!) com problemas pessoais e no cerne de três crises conjugais. Ah, todos eles pertencem a mesma família.

Críticas de lado, vamos ao protocolar: o filme meio autobiográfico (como está super exposto em letras garrafais na sinopse) conta a história do escritor Michael Taylor (interpretado por Ryan Raynolds) que é sempre testado e fortemente contestado pelo seu pai, Charles (com Willem Dafoe), um professor universitário que não frustrado por não conseguir emplacar sua carreira literária decentemente. Do outro lado está Lisa, interpretada por Julia Roberts e a irmã de Michael, Ryne (Shannon Lucio). A narrativa é repleta de flashbacks. Há flashbacks full time em que Michael vai passando o seu passado de crises e brigas com o pai à limpo e explicando todos os porquês da trama. A narrativa se torna ainda mais complicada, pois ao crescer Michael se torna aquilo que o pai nunca foi e o seu mais recente trabalho é um desabafo sobre toda a angústia que passou na infância em relação ao pai e se torna uma verdadeira bomba que poderá prejudicar toda a família. Os imbróglios ganham fôlego inesperado quando Roberts morre, logo no começo do filme, e quando se pensa que toda a comoção vai girar em torno do acontecimento vê-se um completo desdém em torno da morte da matriarca da família.

Se as teorias de Freud ainda fossem bem válidas, Michael teria todos os ingredientes para ser gay (ou até mesmo uma travesti insana) quando crescesse. Atacado violentamente pelo pai quando criança, frustrado nos estudos durante a escola e mimado exorbitantemente pela mãe, qualquer espectador se mostra surpreendido quando vê ele transando loucamente com a ex-mulher durante o funerário da mãe. O constrangimento é maior ainda porque os furor da trepada se dissemina pela sala durante “aquele” minuto de silêncio realizado em homenagem à Roberts. E já que a sinopse diz que é um filme “semi-autobiográfico” a afirmativa que fica no ar é: Dennis Lee só pode ser do babado e colocou a si mesmo como hétero só para não tocar em temas polêmicos até para ele mesmo.

Outro ponto nevrálgico da narrativa está nas próprias relações estabelecidas entre os personagens. Ora muito frias e distantes fica difícil estabelecer que estamos tratando de uma família. Quando vê-se um contato mais forte entre os personagens eles são sempre permeados por dois pontos: brigas homéricas entre pai e filho magrelo e míope, ou então um conteúdo sexual meio auto-afirmativo do filho que era feioso e ficou gosotosão querendo dar uma de: veja o que me tornei.

Apesar dos pesares Um Segredo Entre Nós é filme sensível. Através dele dá para justificar e em termos boa parte daquela revolta incontida que muita gente guarda no peito. De resto é ficar atento a uma das principais marcações no filme, quando se refere ao horário em que a personagem interpretada por Roberts morre: 11h11. Nos fazendo lembrar da possível magia em torno dos horários casados.

NOTA: 6,0

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