O novo disco inicia turnê: Nós temos um formato bem aberto à experimentação em todos os sentidos

traz turnê Sulamericano ao Recife.  Apresentação neste sábado (18), no Clube Português, marca estreia do álbum O Futuro não Demora para o público pernambucano.

O ano de 2019 marca a primeira década de existência do grupo BaianaSystem. No último mês de fevereiro, eles lançaram o terceiro disco de estúdio, O Futuro Não Demora, de onde foi extraído o repertório do show Sulamericano, que eles apresentam neste sábado (18), no Clube Português. A noite também será de celebração para o pernambucano Otto, que relembra os 20 anos de lançamento do seu primeiro disco, Samba pra Burro.

Conversamos com o guitarrista Beto Barreto a respeito do novo trabalho e do novo show que acabaram de botar na estrada.

Com dez anos de carreira, no trabalho mais recente da banda, O Futuro Não Demora, vocês reuniram participações bem especiais, como Antônio Carlos & Jocafi (influências já declaradas/reverenciadas diversas vezes anteriormente por Russo), além do Samba de Lata de Tijuaçu, Edy Star, Manu Chao, Curumin. Como é que vocês avaliam a trajetória da banda nessa primeira década de existência, levando em consideração não só o sucesso, mas sobretudo a autonomia da banda sobre sua obra?
De dentro do processo que você tá fazendo, às vezes é um pouco difícil ter um distanciamento para perceber essas coisas. Por exemplo, a gente só se tocou de que estava fazendo dez anos, já perto do final do disco. Em alguma entrevista que a gente deu tinha alguma pergunta a respeito da primeira apresentação, e aí nós chegamos a essa data. É uma construção mesmo que vem sendo feita. Nós temos um formato bem aberto à experimentação em todos os sentidos, tanto nas apresentações quanto na relação com o mercado. Essa independência faz com que a gente busque caminhos – seja um single, um disco, um vídeo – e vai se entendendo dentro disso. Essa experimentação meio que permeia esses dez anos da gente.

A gente consegue ao longo desses dez anos se entender. Acho que O Futuro Não Demora de alguma forma trouxe esse olhar para nossa ancestralidade, para o entendimento de nossa história. A gente se aproximou de Itaparica, no recôncavo baiano, para olhar Salvador um pouco afastado e entender como essas referências chegam na gente. E agora, seguindo com o show desse novo disco (Sulamericano) perceber o entorno do país enquanto formação, povo. A gente tá em constante movimento, o que faz com que a gente sinta essa motivação de estar compondo, produzindo – seja um álbum, uma trilha, um concerto com o que estamos preparando aqui em Salvador com a Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), seja a trilha de um filme. A gente gosta muito de caminhar por isso e nessa relação com o público é que está essa construção.

Beto Barreto, do Baiana: É difícil você se expressar hoje e não ter um posicionamento. A gente entende essa responsabilidade. (Divulgação).

Como é que foi pra azeitar essas participações do disco?
Essas participações foram chegando naturalmente. A gente levou um período bem maior do que naturalmente a gente leva na construção desse disco, porque a gente ficava muito na estrada. Fomos identificando o que cada música pedia, qual participação que naturalmente se aproximava daquilo. O trabalho com o maestro Ubiratan (Marques), da Orquestra Afrosinfônica foi crescendo, virando faixas, derivando em outras composições. Talvez no período que a gente teve no estúdio RedBull (SP), em que a gente também fez o Duas Cidades (2016) acaba que é um local em que a gente se sente muito em casa, a gente teve as pessoas que estavam ali em SP, o Curumin, Edgar, Antônio Carlos & Jocafi, tiveram no estúdio com a gente pra gravar, mas isso foi feito no decorrer do ano e da criação do disco.

À respeito da ordem do repertório, o disco começa com Água, termina com Fogo, e tem lá pelo meio canções com nomes como “Sulamericano”, “Navio” e “Melô do Centro da Terra”, criando uma narrativa interessante que pode ser reflexo de vocês sobre a situação do mundo, ou um recorte dele. Procede essa escolha da disposição das faixas?
Beto Barreto A gente até tentou em alguns momentos mexer um pouco nisso, mas naturalmente essa narrativa foi sendo construída. Entendemos que esse disco tem esse caráter de obra por esse sentido também, tanto de nossa observação para nossa história quanto da forma que isso foi criado, com muitas participações e isso foi se desenhando. Essa aproximação da ilha (de Itaparica) trouxe muito essa coisa dos elementos da água, do fogo, da terra – essas peças, água e fogo, que depois saíram como versões estendidas era parte de uma sinfonia que a gente havia construído com Bira.

Isso ia se aproximando das coisas de Antônio Carlos & Jocafi, e depois das outras faixas, que a gente foi entendendo que isso tinha a ver, tanto com os elementos de natureza quanto com as temáticas do que a gente tava falando ali. Então o disco tem realmente esse sentido meio que de uma narrativa com início meio e fim, o lado Água com o lado Fogo (não que o lado Água seja só tranquilidade e o do Fogo seja só explosivo) mas como elementos mais fortes e o “Melô do Centro da Terra”, que foi uma faixa feita para a trilha de um filme há dez anos (Trampolim do Forte – João Rodrigo Mattos, 2010), e acabou fazendo o maior sentido para complementar a narrativa dessa história.

Uma coisa que chama atenção, no modo como a banda orienta suas escolhas, é vocês seguirem firmes em alguns propósitos, como ao exemplo da saída do Navio Pirata no Furdunço, que marca a semana pré-Carnaval de Salvador, o que democratiza bastante para um público que eventualmente não vai com frequência às apresentações fechadas. É importante para vocês manter esse vínculo digamos, mais raiz com os fãs?
Totalmente. É uma coisa que nos alimenta, o contato com o público dessa forma mais direta. A gente vem de uma construção tocando muito ali no Pelourinho, que é o Centro histórico da cidade, as nossas primeiras saídas estão ligadas ao Carnaval. Ao longo do tempo você também vai se ajustando, acaba circulando em muitas coisas, toca em festivais, toca em eventos, tentando se situar ali no mercado mas sempre esse tipo de coisa, festa popular, Carnaval, tocar num espaço onde as pessoas estão mais misturadas ali, onde se tem mais um acesso, e não num formato que pode às vezes se aproximar de algo mais elitizado, isso reflete muito no comportamento do público. E a gente percebe que, mesmo que inicialmente algumas pessoas tenham tendência a ir mais para um tipo de festa, que a princípio isso às vezes assusta, essa digamos mistura maior, o contato, percebe que isso acontece de uma forma muito natural e saudável pra todo mundo. Como acontece no Carnaval que a gente sai com o Navio Pirata e não tem confusão, não tem briga, tem gente de todas as idades. Isso faz com que nossa música fique viva.

Acontece de vocês terem essa consciência forte de quem vêm desenvolvendo um trabalho que reconfigurou a cena musical de um lugar, cena essa que já vinha combalida há um bom tempo tanto pela mercantilização que passou a ser associada à música baiana quanto pela pasteurização de um som hoje totalmente distinto do que foi criado na década de 1970? É maior o peso dessa responsabilidade ou mais estimulante?
Acontece pra gente de uma forma natural. Às vezes a gente se pega em situações de “Poxa, eu não quero tocar aqui no meio do Carnaval porque isso vai significar tal coisa, eu não quero participar daquilo porque pode soar assim”, ou o contrário, “eu quero participar disso porque além do show em si, o fato de estar aqui, desse jeito, diz dessa forma.” São coisas que alimentam a gente artisticamente: essa busca ou esse entendimento mais amplo de uma cena ou de como as coisas chegam na cidade ou de como isso influencia na gente.

Mas eu confesso que às vezes, no processo em que você está envolvido, é um pouco difícil ter essa percepção. Porque nós somos muito imersos no que a gente tá fazendo, a gente acaba de lançar um disco mas já tá pensando numa apresentação que vai fazer com uma orquestra, tentando entender e decifrar, tudo ao mesmo tempo. Então às vezes a gente não consegue ter um distanciamento para ter uma percepção de como isso acontece, ou de como isso se reflete na Bahia, ou de como as pessoas fora daqui conseguem perceber. Agora, em alguns momentos, você está no meio de um show, e se surpreende, como aconteceu no Carnaval, e foi incrível, quando a gente tocou ali numa praça fora desses circuito e a gente ficou impressionado com o público e aí a gente consegue entender a força da mensagem que a música pode ter.

A situação atual do país faz com que todas as expressões artísticas tenham uma responsabilidade ainda maior, seja qual for a linguagem expressa, por acabarem reportando o espírito destes tempos e também o posicionamento individual de cada um para a posteridade. Como vocês enxergam a importância desse trabalho num cenário de iminente censura, polarização de opiniões e cerceamento de discurso?
É muito difícil hoje você se expressar de alguma maneira, e acho que nem só artisticamente, sabe, a gente tá vendo o que acabou de acontecer com a educação, tendo os professores ali como protagonistas de uma coisa e que sofrem ataques, e de como profissionalmente se posiciona ali. Porque às vezes o artista acaba tendo uma aura de que empenha um trabalho diferenciado, mas isso tem se misturado muito. É difícil você se expressar ou se colocar profissionalmente hoje e não ter um posicionamento. Isso está muito aflorado. E a gente entende a responsabilidade disso, porque as coisas estão muito mais expostas, hoje em dia você tem uma comunicação muito mais direta, então cada coisa que você fala ou cada coisa que acontece ali no show, ou cada coisa que você conversa ou que você publica, isso tudo tem impacto e vai ajudando a construir essa sua arte em um sentido mais amplo.

Eu acho que a arte tem essa força também: você pode ter o trabalho incrível de uma pessoa que você não necessariamente admira tanto pessoalmente ou que tem posições que você não concorda – tenho visto muito acontecer com a polarização que a gente tá vivendo. Mas eu acho sim que isso tem caminhado junto, na forma que isso se traduz para as pessoas, e no caso do Baiana, tanto nos shows como nas músicas, o próprio O Futuro Não Demora fala muito disso. Talvez seja um pouco menos político do que o Duas Cidades, mas depois que a gente foi entendendo a importância, por exemplo, da faixa “Sulamericano”, do show que vai se chamar Sulamericano, a força que isso tem em comunicação com os países vizinhos e que tiveram o mesmo tipo de formação e de colonização do povo, isso se torna político de novo. Foi essa percepção que a gente foi tendo nesse mergulho que a gente fez para O Futuro Não Demora.

Se entendendo enquanto formação, a importância que Itaparica teve na formação do Brasil, o Recôncavo Baiano, como isso chega. A gente consegue se entender um pouco melhor e aí você começa a olhar pros estados vizinhos, pros países vizinhos e começa a ver que temos coisas muito parecidas, que temos influências que muitas vezes não percebemos e que muitas vezes somos até ignorantes em relação ao que acontece ao nosso redor e como isso se dá de maneira parecida. O show Sulamericano, é muito mais, vamos dizer assim, uma abertura de conhecimento e o falar sobre isso do uma mostra de resultado. Acho que isso vai acontecer muito na estrada, mas a gente consegue se perceber como Sulamericano e que essas influências são muito próximas da gente.

O disco tem muita coisa de música latina, de reggae, de cumbias, ritmos que muitas vezes não tem a mesma influência como a cultura norte-americana que chega mundialmente de uma maneira muito mais forte.

 

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