Pesquisadora da USP lança o livro O Crime como Gênero na Ficção Audiovisual da América Latina no qual analisa séries como Narcos, El Marginal e Distrito Selvagem.

Se hoje séries como Narcos e Sr. Ávila são sucesso é por que fazem parte de uma tradição da América Latina de histórias sobre crimes. O livro O Crime como Gênero na Ficção Audiovisual da América Latina (Apris) lança um olhar sobre o crescimento da produção original de gênero policial e de suspense no cinema e na ficção seriada latino-americana, analisando o imaginário de obras recentes, resgatando sua relação com seu contexto histórico e sua identidade perante as produções hollywoodianas. Escrito pela pesquisadora e colaboradora da Revista O Grito!, Luiza Lusvarghi, a obra será lançada em happy hour na Vinoteca do Barchef, na terça (1), às 19h. O exemplar custa R$ 30.

Esta análise privilegia os três países que são os maiores produtores, Brasil, Argentina e México, mas se estende também à produção de Cuba, Colômbia (bastante expressiva neste segmento), Chile e Estados Unidos. A obra é resultante de um projeto de pesquisa de pós-doutoramento na ECA USP e de pesquisas anteriores sobre gênero ficcional.

As narrativas criminais cinematográficas latino-americanas sempre giraram em torno do crime organizado, e não das corporações policiais, pouco respeitadas. Filmes como Cidade de Deus, Nove Rainhas e Amores Perros só reafirmaram essa questão cultural, reforçada ainda por filmes como Tropa de Elite, La Hora Cero, La Zona, e Presos. “Os filmes de temática criminal nem sempre foram policiais, ou seja, neles a corporação não surge como protagonista”, explica Luiza. “A visão que se tem da polícia não é das melhores, as corporações são minadas por corrupção, foram braço militar de governos.”

As linhas tênues entre o bem e mal, a idealização do marginal como herói e revolucionário, a mulher fatal e sedutora como protagonista perigosa e, ao mesmo, tempo desejável, a violência e a exclusão social integram essas cenas da vida contemporânea. Séries como O Mecanismo, O Marginal, Sr. Ávila e La Niña são também painéis representativos do que significa viver hoje em uma grande cidade latino-americana.

Batemos um papo com Luiza para saber mais sobre essa tradição do crime na ficção latina. O livro pode ser adquirido pela Amazon.

A produção de gênero policial e de suspense sempre foi bastante forte na América Latina? De onde remonta essa tradição?
As tradições são diferentes. A Argentina tem uma tradição literária e cultural forte neste sentido, Borges era entusiasta das narrativas de suspense. Em 1937, o cinema argentino produziu um filme noir, Fuera de la ley, que foi um sucesso. No Brasil e no México a tradição é mais a de produzir ficção sobre o crime organizado. No Brasil, temos os filmes do início do século 1920. Em 1908, surge Os Estranguladores ou Fé em Deus, baseado em um crime real ocorrido no Rio. O lançamento de A Quadrilha do Esqueleto, no dia 25 de outubro de 1917, da produtora Veritas, do jornalista Irineu Marinho, contou com campanha publicitária do jornal vespertino carioca A Noite.

O cinema brasileiro sempre gostou de explorar crimes que haviam frequentado o noticiário, prevaleceu sempre a vertente realista, como podemos ver nos filmes mais recentes da nossa história: Cidade de Deus, Tropa de Elite, Polícia Federal: A lei é para todos. Neste sentido, o cinema mexicano foi mais pródigo e mais avançado do que o nosso. Na era muda, tem El Automóvil Gris (1919), de Enrique Rosas, sobre o crime organizado, um gângster film, e muito mais tarde Distinto Amañecer (Insólito Amanhecer, 1943), de Julio Bracho, que fez ainda Marihuana (El monstruo verde, 1936) e outros títulos de temática criminal. Os narcofilmes não começaram com as novelas da Telemundo. Tem Buñuel em outro drama criminal, Ensayo de un Crime (1955). Esse imaginário influenciou as séries. Nossa produção recente é um pouco mais diversificada, pois surge no final dos anos 70, 80, uma literatura voltada para o tema.

A série Fugitivas, que está na Netflix. (Divulgação).

De que difere esse gênero na América Latina em relação a outras filmografias, dos EUA e Europa, por exemplo?
A maior diferença é que os filmes de temática criminal nem sempre foram policiais, ou seja, neles a corporação não surge como protagonista. A visão que se tem da polícia não é das melhores, as corporações são minadas por corrupção, foram braço militar de governos. Essa realidade faz com que muitas vezes o marginal, o delinquente surja como uma espécie de justiceiro, de Robin Hood.

O seu livro foca principalmente em três países, mas destaca a Colômbia, por ser bastante expressiva. O que podemos falar de interessante da produção de lá?
O grande divisor de águas com relação à Colômbia foi quando Ronald Reagan decretou o país como sendo uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. Isso aconteceu em 2000 e parte dessa história está em Narcos, com o exército dos EUA se instalando por lá. Ninguém estava preocupado com a cocaína, como se sabe, mas com as Farc. No entanto, de uma forma ou de outra, o tema Colômbia entrou no noticiário, e coincidiu com um período de investimento e expansão em audiovisual naquele país.

O tema narco é forte, mas não é só isso. As superséries colombianas, que descendem das novelas, tem uma vocação documental e biográfica. Futebol, amor, crimes, música, guerrilha, são abordados com mais intensidade do que foram no Brasil, por exemplo. A favela de Rosário Tijeras não é cenográfica, tem mais cenas externas. As séries são mais bem-sucedidas comercialmente do que os filmes. Tem uma série colombiana original Netflix, por exemplo, Distrito Selvagem, que fala de um ex-integrante das Farc que acaba sendo cooptado pela polícia, e pelo poder político. O poder nunca aparece nos filmes e séries brasileiros, já percebeu? Quantos generais, presidentes, são retratados em séries, filmes? O máximo que eles chegam perto é de deputados, senadores, e isso mais recentemente. Não tem ninguém do exército, nunca.

No seu livro você relaciona o recrudescimento de governos repressivos e de sentimentos conservadores da classe média com o sucesso dessas produções. Por falar um pouco mais sobre isso?
Sim, essa questão da busca por ética, o combate à corrupção, tornou-se uma demanda que ressoa por toda a região latino-americana. É um anseio legítimo. Ao mesmo tempo, o que se comete em nome desta reivindicação, nem sempre. É o que se vê em O Doutrinador, projeto que envolve filme e série, um justiceiro sanguinário que se comporta como um Deus. Mas essa onda conservadora e violenta não é a tônica da produção de todos os países. Ela é mais forte no Brasil contemporâneo, e está presente em algumas séries e filmes.

Como muitos gêneros, os suspenses policiais também reforçam estereótipos e imaginários sociais, a exemplo da “mulher fatal”, etc. Mas também há séries que rompem com isso em busca de uma outra representação?
As séries francamente policiais sempre possuem protagonistas machos, brancos e héteros. Sempre foi assim, até no noir, embora o personagem da femme fatale, como se pode verificar pelo estudo pioneiro de Sylvia Harvey, aponte para o lado disruptivo dessa protagonista, que era na verdade a “mocinha”. As garotas ingênuas e vitimizadas da ficção tradicional não eram as companheiras eleitas pelo galã, um personagem masculino em crise com o seu papel.

A HBO sempre se mostrou interessada em produções desse tipo, mas agora vemos a Netflix apostando no segmento com diversas produções, inclusive de países escandinavos, etc. A competição acirrada fez bem ao gênero?
Sim, certamente. A Netlfix ampliou bastante a chamada produção de nicho, investindo em novos mercados, com mais agressividade do que a HBO.

Narcos, com Wagner Moura, é um sucesso transnacional. (Divulgação).

Das séries atualmente em exibição, qual a que você acha mais interessante, do ponto de vista da história e também da inovação?
Difícil eleger uma, são tantas. A grande novidade são os lançamentos cinematográficos, que estão mudando os modelos convencionais de lançamento. Este ano a Abraccine, pela primeira vez, vai incluir os filmes lançados em streaming nos melhores do ano, por conta de lançamentos importantes como Roma, de Alfonso Cuarón. Os filmes que tradicionalmente não encontram acolhimento no circuito convencional têm uma chance de brilhar.

Gosto muito das séries latino-americanas, que são meu objeto de estudo, e que na minha opinião estão atualizando formatos e canônes do gênero, como Distrito Salvaje (Colômbia), El Marginal (Argentina) e Fugitiva (2018), na verdade uma série espanhola totalmente transcultural e transnacional, voltada para o mercado latino, outra tendência que se intensifica. Existem até estudos sobre o detetive global incluindo Espinosa, o protagonista de Garcia-Roza, interpretado por Domingos Montagner, e Mandrake (HBO), de José Rubens Fonseca, vivido por Marcos Palmeira, que recebeu indicação ao Emmy, além da vitoriosa Sr. Ávila (Tony Dalton). Gosto muito de Psi, que considero uma série híbrida, de altíssima qualidade.

Se pudesse citar três produções de suspense/policial, latinoamericanas ou não, de todos os tempos, quais seriam?
Acho que respondi. De todos os tempos….uau, difícil. Eu gostei recentemente de Cães de Berlim, da Netflix. Adoro as séries nórdicas de suspense, boa parte delas estão em cartaz na Netflix, como Fallet, Borderliner, que são outra pegada. Adorei a espanhola Sé Quien Eres, que foi transmitida pela Globo Play como Blecaute, se não me engano. Os espanhóis estão investindo muito.

Gostei muito de Luther, com o Idris Elba, e de Orphan Black, que agora está na Netflix, mas não é produção deles. Eu gostava muito de Columbo. Acho que Law and Order SVU inovou, mas é uma fórmula que se esgotou. Daí a importância desse mercado transnacional e transcultural. As séries francesas são ótimas, também têm seu público, trabalham bem conflitos de personagens. Gostei muito da israelense O mistério de Shelly.

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