O OUTRO LADO DA GUERRA
Produções recentes como Um Homem Bom trazem outra visão sobre a Segunda Guerra Mundial
Por Daniel Herculano, de Fortaleza

UM HOMEM BOM
Vicente Amorim
[Good, ING/ ALE, 2008]
OPERAÇÃO VALQUÍRIA
Bryan Singer
[Valkyrie, EUA/ ALE, 2008]
O LEITOR
Stephen Daldry
[The Reader, EUA/ ALE, 2008]

Um filme bom

O cinema ama a Segunda Guerra Mundial, incluindo aí os nazistas malvados e seus assassinos sanguinolentos, e claro, os judeus, que discriminados, sofreram com suas milhões de vítimas. Mas parece que público se cansou, tanto das boas (de Casablanca, passando por A Lista de Schindler e chegando até O Pianista) quanto das velhas fórmulas (como os lacrimosos A Vida é Bela, e o lento exercício de estilo O Segredo de Berlin). No passado recente surgiram até visões que variavam, mas tinham a mesma guerra como cenário, mas com resultados extraordinários, destacando-se o tenso O Barco – Inferno no Mar (1985), o pacifista Além da Linha Vermelha (1998), o envolvente Círculo de Fogo (2001), o dramático A Queda – Os Últimos Dias de Hitler (2005) e o denso A Espiã (2006).

A visão era outra, mas o que estava por vir ainda era interessante: Um Homem Bom tenta provar ao mundo que também existiam pessoas boas dentro do nazismo, visão (de certa forma) compartilhada em produções recentes como o bom Operação Valquíria e o razoável O Leitor, tobos de 2008. No drama que marca a estréia do brasileiro Vicente Amorim em produções internacionais, o outro lado do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial é mostrada com elegância e sensibilidade. Aqui o ser humano pode sim, ser superior que uma escolha equivocada ou até mesmo maior que o acaso. E uma vez dentro do sistema, ao procurar mudar de alguma forma (ou como pode) a história com atitudes que podem até ser vistas como desculpas, mas na verdade parece ser a busca pelo perdão interior e a tentativa de reanimar a humanidade perdida em meio as atrocidades da guerra.

Uma adaptação da peça de mesmo nome, que traz atuação esplendorosa de Viggo Mortensen, um competente elenco de apoio e faz um poderoso uso da música dentro da própria história, onde John Halder (Mortensen) é um pacífico professor universitário na Alemanha dos anos 30 e tem como melhor amigo o judeu Maurice (Jason Isaacs, muito bom). Com muito esforça sustenta a esposa, filhos e uma mãe doente. Durante a ascenção do III Reich com a liderança de Hitler, Halder é convidado a participar do regime totalitário aplicando seus livros e sua habilidades da escrita, mas sem imaginar que pode estar fazendo parte de um dos maiores males contra toda a humanidade. Em paralelo envolve-se também com a talentosa Anne (Jodie Whittaker, ao mesmo tempo sexy e emotiva), uma aluna em busca de amor e reconhecimento.

Operação Valquíria (Foto: Divulgação)

Perder também é ganhar

Antes de se matar, Hitler sobreviveu historicamente a nada menos que quinze atentados. O que acompanhamos aqui não é o apenas o mais notório, mas também o mais ardiloso e cruel dos atentados, pois surge exatamente da traição dentro do alto escalão nazista. Pergunta: é possível manter o suspense até o último momento ao contar uma história que já sabemos o final? Estrelado por Tom Cruise, Operação Valquíria (Valkyrie, 2008) de Bryan Synger, consegue ser positivamente a resposta.

Após ser ferido na África durante um combate, o Coronel Stauffenberg (Tom Cruise) retorna à Alemanha decidido a matar Adolph Hitler (David Bamber). Para isso se une ao Major-General Trecskow (Kenneth Branagh), ao General Olbricht (Bill Nighy), a Ludwigk Beck (Terence Stamp) e envolve até o arredio General Fromm (Tom Wilkinson) numa conspiração que sonha em salvar a Alemanha.

As razões para que o longa seja bem sucedido dentro do seu propósito começam pela roteiro do novato Nathan Alexander e Christopher McQuarrie, vencedor do Oscar assinando Os Suspeitos, outra parceria do mesmo diretor. Eles criam um digno suspense originado numa conspiração dentro dos quartéis nazistas durante a II Guerra Mundial.

Com a trama nas mãos, a direção do habilidoso Synger consegue nos envolver na história, pendendo não apenas para o lado da conspiração, como até mesmo fazendo torcer para que o plano dê certo. A produção de primeira linha, incluindo aí reconstituição de época, cenários, figurinos e um tom acinzentado na fotografia, também garante o espetáculo.

John Ottman repete um feito, sozinho editando e compondo a trilha sonora, como em parcerias anteriores com o diretor Synger (O Aprendiz, X-Men 2 e Superman – O Retorno). De resultado duplamente louvável, a junção da trilha (grandiosa e sempre presente) e a ágil edição geram um ritmo vertiginoso de tensão, e conforme nos aproximamos do fim mais intenso fica.

Cruise, provando sua versatilidade, tem um papel firme, além do auxílio de luxo ser maneta e ora usar o tapa-olho, ora um olho de vidro. E mesmo com todos os holofotes em Cruise, seu elenco de apoio talentoso é fundamental. Ainda que aparecendo pouco (mas dona de uma belíssima cena de despedida), Clarice van Houten destila sensibilidade como a esposa de Cruise. Seus comparsas são um sonho para qualquer elenco. Bill Nighy é um centrado que alterna medo e valentia, Tom Wilkinson dimensiona razão ao seu papel e Terence Stamp é a classe em pessoa. A lamentar apenas a minúscula participação do ótimo Kenneth Branagh.

Agora um detalhe interessante e incomum. Ao início as palavras são ditas em alemão, e aos poucos se vertem para o inglês. Percebemos sutilmente apenas a substituição do que seria a língua local pela universalização do inglês. Diferente de outros longas que simplesmente misturavam as línguas (como o horripilante nacional Olga) ou não tinham nenhum tipo de justificativa, aqui pelo menos tudo que é escrito e mostrado sai em alemão, vertido apenas quando falado para o inglês.

Historicamente a Operação Valquíria entrou para história como um fracasso daqueles que atentaram contra a vida Hitler, mas nas telas perder também é ganhar, se transformando numa experiência vitoriosa e composto de um conjunto arrebatador.

O Leitor (Foto: Divulgação)

Sentimentos introspectivos

A maior surpresa entre os finalistas ao Oscar de melhor filme, O Leitor (The Reader, 2008) começa como um romance incomum, mas interessante. Passa para um drama de tribunal, que explora os conceitos de justiça e lei, e depois mergulha num dramalhão que não sabe se quer justificar seus sentimentos, a dor interior ou mesmo o quanto pode ser chato um áudio-livro.

Após passar mal no meio da rua, o jovem Michael (David Kross, ok) recebe a ajuda e o carinho de Hanna (Kate Winslet). Ela, solitária, e ele, na flor da curiosidade sexual, envolvem-se numa paixão de verão, onde Hanna sempre pedia para que Michael lê-se um livro como forma de gratidão. Mas seus caminhos insistem em se cruzar…

O diretor Stephen Daldry (indicado ao Oscar de direção pela terceira vez) demonstra talento para fazer ecoar os sentimentos quando trata do romance, mas falha em conduzir exatamente qualquer emoção quando aborda a questão de escutar um livro e de não lê-lo pessoalmente. Parece mais do que óbvia a razão, desde o primeiro momento, e para completar, o roteiro (adaptado, também indicado ao Oscar) ainda tenta justificar as ações de cada personagem e o poder do perdão em fracas e dispensáveis cenas finais.

Vencedora do Oscar de melhor atriz, não por merecimento pleno e mais como um sentimento de ressarcimento, Kate Winslet (e sua sedução grosseirona) é o melhor de todo O Leitor. E enquanto não entra em sua mudança física, a uma obra engana bem o espectador. Com uma primeira parte voltada para uma paixão incomum, mas gentilmente verdadeira, onde até mesmo suas atitudes sisudas são explicadas e justificadas num julgamento sobre atos nazistas. Mas depois disso só restam alguns momentos de sentimentos introspectivos e até vazios, cortesia de Ralph Fiennes (como o velho Michael) e uma envelhecida Winslet, carregada de uma maquiagem apenas regular. Você desculparia uma das maiores carcereiras da morte simplesmente porque ela não passava de uma burra analfabeta?

UM HOMEM BOM OPERAÇÃO VALQUÍRIA O LEITOR
NOTA: 7,5 8,0 5,5
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