ENSAIO SOBRE A TORTURA
Ótimo elenco traz verossimilhança perturbadora na filmagem de fato real
Por André Azenha

UM CRIME AMERICANO
Tommy O’Haver
[An American Crime, EUA, 2007]

Nos Estados Unidos há uma certa predileção de alguns produtores em filmar acontecimentos chocantes, e por isso mesmo é de se estranhar que o caso da menina Sylvia Likens tenha demorado tanto para ganhar sua versão cinematográfica. Em 1965, um casal que trabalhava no circuito das feiras dos parques de diversão precisou deixar suas duas filhas, visando que ambas tivessem uma criação “normal”, aos cuidados de Gertrude Baniszewski, uma passadeira de roupas com sete filhos.

Um mês após receber em sua casa Sylvia e sua irmã Jenny, em troca de um cheque semanal de US$ 20, Gertrude passou a causar maus tratos às meninas. O primeiro espancamento aconteceu quando o cheque atrasou dois dias. O segundo por uma acusação de roubo. O seguinte por Sylvia ter supostamente espalhado boatos sobre a filha mais velha de Baniszewski. E a violência não parou mais.

Em Um Crime Americano, o diretor Tommy O’Haver, realizador de produções adolescentes como Uma Garota Encantada e Volta Por Cima, escolheu esta história tenebrosa como seu primeiro longa “sério”. O motivo: ele viveu na mesma Indianápolis onde os fatos aconteceram e jamais esqueceu o ocorrido. Tratou com esmero o projeto desde o início, escolhendo um ótimo elenco, e depois filmando tudo na ordem cronológica original dos fatos, de forma que os atores tivessem a sensação de passarem pela experiência que Sylvia Likens passou.

De forma inteligente, empregou à trama uma interessante estrutura: alternou seqüências de tribunal – cujos diálogos foram extraídos dos autos do processo – com cenas que dramatizam os fatos reais. Tal “efeito” evita quem nunca ouviu falar da tragédia de antecipar o destino dos envolvidos.

Além disso, o diretor tratou cada personagem com dignidade. Omitiu várias características enojáveis da Gertrude real, impedindo que ela se tornasse uma vilã caricata (inclusive mostrando de forma apenas sugestiva o vício dela em heroína), porém mantendo sua essência, de mulher desequilibrada, problemática e que se tornou violenta. E também evitou mostrar maiores humilhações que Sylvia sofreu (a menina foi torturada nua, e no filme está sempre vestida, ainda que acorrentada e freqüentemente sofrendo queimaduras de cigarro).

Também contribuíram para o bom resultado da obra os atores escalados. Tanto a “Juno” Ellen Page, no papel de Sylvia, como Catherine Keener (de O Virgem de 40 Anos e Capote), encarnando Gertrude, provam serem atrizes versáteis e intensas. A última (que chegou a recusar o papel, mas voltou atrás por não conseguir tirar a história da cabeça), recebeu uma indicação ao Emmy de Atriz pelo fato do filme ter sido distribuído nos EUA apenas na TV. James Franco (de Homem-Aranha) faz o amante da matriarca, que tem um filho dele.

Infelizmente a produção também passou batida nos cinemas brasileiros (mesmo recebendo elogios de boa parte da crítica), simplesmente porque não é uma história fácil de digerir, o tema pode causar repulsa no espectador, que provavelmente terá dificuldade em presenciar atos tão terríveis.

Porém as qualidades cinematográficas do longa-metragem são muitas e seu tema merece uma olhar crítico, uma discussão cuidadosa, pois esse foi apenas um de muitos casos de violência contra crianças, não só nos EUA, mas no planeta. É um filme que causa dor e indignação a quem o assiste e não é uma trama acessível. Mas é uma realização competente enquanto cinema.

NOTA: 7,5


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