AMOR E DESILUÇÃO EM NEON
Kar-Wai retoma sua fixação pelo sonho americano e revela a cantora Norah Jones em papel de cores vivas, porém sombrias
Por Rafael Dias

Há pelo menos duas obsessões que saltam das filigranas do cinema de Wong Kar-Wai: o amor e a América. O amor para o diretor de Hong Kong é um tour de force melancólico, sempre incompleto no desejo para com o outro e desmedidamente contido. Ainda mais platônica é sua fixação pelo sonho americano, o paraíso perdido dos sonhos e da desilusão dos imigrantes asiáticos nos anos 90. Mas o flerte com a cultura ocidental nada mais é que um dos amores furtivos de Kar-Wai. A Hollywood dos anos 40, as pin-ups, o jazz, o folk-rock; tudo é pinçado como um objeto “emprestado”, distante, mas carinhosamente afetivo.

E ao que tudo parece, o flerte evoluiu para um namoro. Agora o cineasta oriental de alma americana literalmente cruza o Pacífico para viver um idílio em seu mais novo filme, Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights, 2007), que entrou em cartaz em São Paulo, Rio e Brasília esta semana. Em seu primeiro filme falado em língua inglesa, Wong Kar-Wai não apenas continua a se debruçar sobre o american dream como faz uma ode ao outro lado da América. O resultado é uma obra com a sua marca estética peculiar, porém de espírito essencialmente norte-americano – mais forte, por exemplo, do que em Felizes Juntos, que foi ambientado no mesmo continente (Argentina e Brasil).

Com referências à época pós-Depressão dos EUA de 1929, Um Beijo Roubado, que abriu o 60° Festival de Cannes ano passado sob aplausos e forte controvérsia, é um filme despretensiosamente apaixonante. Os encontros silenciosos, mas excessivamente eloqüentes, entre os personagens de Jude Law e Norah Jones, que criam um romance de redescobertas e sutilezas, são demais cativantes. O amor, quase ilibado, é amparado pela atmosfera dos cafés e ruas de Manhattan e das luzes coloridas de neon, que contrastam com o torpor cético e a tristeza crônica dos personagens. É como se o ambiente fosse uma exteriorização do amor que eles temem revelar – um aspecto muito recorrente na filmografia de Kar-Wai. O que os personagens não conseguem dizer ou emudecem, ele usa como catarse estética.

Um dos destaques do filme é a estréia da cantora nova-iorquina Norah Jones como atriz. Ela faz Elizabeth, uma personagem que sofre uma frustração amorosa com o namorado e é reconfortada por Jeremy (Jude Law), dono de um bar nos arredores de Manhattan. Em um dos encontros, ele a faz provar uma torta saborosa de mirtilo (com sabor doce e amargo, parecido com a amora), mas “que ninguém quer” – uma metáfora para a vida solitária deles próprios. Após comer um pedaço da sobremesa, Lizzie adormece, e Jeremy a beija em uma das cenas mais belas do cinema recente.

Cores sombrias de Almodóvar

Com aura de road movie, o filme acompanha, em um enredo não-linear, a vida nômade de Lizzie em busca de emprego e dinheiro para comprar um carro. Durante a viagem, ela conhece personagens de feitios mais trágicos que ela poderia supor. Conhece Arnie, o policial alcoólatra (David Strathairn, de Boa Noite, Boa Sorte) que vive um casamento falido com Sue Lynne (Rachel Weisz, em atuação impressionante); Leslie (Natalie Portman), uma jogadora doentia que aposta tudo o que tem em um cassino. Lentamente, Elizabeth percebe que o vazio não é um sintoma só dela, é generalizado.

Patinando na interpretação, Jones mantém a mesma expressão facial de heroína sofrida em todas as cenas, mas pelo menos não peca por excessos. O ponto alto do filme está na composição e na excelente fotografia de Darius Khondji (que fez Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro), que impõe força em imagens granuladas, coloridas e cheias de penumbra. O que só comprova o dom de Kar-Wai em compor visualmente um filme com primor. Os tons em vermelho e azul “estourados” lembram as cores de Almodóvar, porém numa variação sombria.

Outro espetáculo à parte é a trilha sonora, assinada por Ry Cooder, que conta com músicas de Cat Power (Chan Marshall faz, inclusive, uma ponta na produção), dos lendários Otis Redding e Neil Young, além da própria Norah Jones, é claro, que compôs a inédita “The Story” durante as gravações. A seleção de folk rock e jazz cai se encaixa muito bem ao mood suave do filme, que encanta pela sua singeleza e total despretensão. Não seria exagero afirmar que Um Beijo Roubado alude a Amores Expressos, uma pequena obra-prima de bolso de Kar-Wai dos anos 90. Neste, uma garçonete sublima um amor interrompido ouvindo incessantemente “California Dreamin'”, de The Mamas and The Papas, como quem vive em um mundo abstrato tornado real. Lizzie, de certa forma, também eleva seu amor enquanto dorme sob o feitiço de uma torta de blueberry. Nos dois casos, são olhares certeiros sobre amores incompletos.

NOTA: 9,5

UM BEIJO ROUBADO
Wong Kar-Wai
[My Blueberry nigths, Hong Kong/ EUA/ China/França, 2007]

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