TRAGÉDIA DO 174 REVISITADA
Bruno Barreto usa fatos reais para fazer um filme de personagem. O drama é o mesmo, mas um tanto mais generoso
Por Raphaella Spencer

ÚLTIMA PARADA 174
Bruno Barreto
[Última Parada 174, BRA, 2008]

O filme é bom? Pergunta sempre controversa. Mas na minha opinião, tudo que provoca reação, do qual você não sai ileso, seja por se divertir muito ou por ficar extremamente incomodado, é bom. Essa última sensação foi a que me causou a exibição de Última Parada 174.

O novo filme de Bruno Barreto, baseado no fato real acontecido no dia 12 de junho de 2000, televisionado como um espetáculo novelesco, que muito diferente da maioria das novelas, não teve final feliz para nenhuma das partes envolvidas. Perderam os reféns vítimas da circunstância, lugar errado na hora errada, perderam os policiais, que expuseram em rede nacional todo seu despreparo e truculência e perdeu Sandro, que por já não ter quase nada a perder, matou e morreu.

Com roteiro de Bráulio Mantovani, (responsável por boa parte da nova safra do cinema brasileiro, que inclui Cidade de Deus, O Ano em que meus Pais saíram de Férias e Linha de Passe), O filme não é um remake dos fatos apurados pelo diretor José Padilha no excelente documentário Ônibus 174. Longe disso, Última Parada 174, utiliza uma premissa dos fatos reais para fazer um filme de personagem. De um lado o Sandro que se perde da mãe e se torna mais um desses meninos de rua invisíveis, do outro uma mãe que perde o filho Alê e leva a vida em função dessa busca. Na história real, Sandro, que sequestrou o ônibus tinha uma mãe adotiva que o escolheu como seu filho para curar as dores do filho que perdeu ainda bebê.

Dramas à parte, a história que vemos na tela é generosa, nos incomoda pois nos coloca muito perto do que todos nós temos de mais humano, nosso caráter, nossas imperfeições e medos. Afinal o Sandro do filme, é um jovem de rua, que presencia a Candelária, viciado em drogas, preso em reformatórios diversas vezes, mas que também cruza em sua trajetória com algumas mãos amigas dispostas a dar-lhe oportunidades. Trajetória acompanhada de tão perto quanto a proximidade estabelecida por Hector Babenco quando nos oferece a oportunidade de descobrir seu personagem Pixote (1981). A diferença em acompanhar a trajetória do personagem vivido pelo ator Michel Gomes é que envolve um misto de realidade e ficção que nos leva a uma angústia enorme, pois aquela representação das emoções que levaram o personagem do filme ao sequestro na ficção, não são necessariamente as que no fato real estavam perturbando o espírito do Sandro real, mas nos convencem e até preenchem as lacunas que não tiveram resposta na época.

Uma relação já experimentada na representação de outros filmes também baseados em fatos reais como o Elefante (2003) de Gus Van Sant, baseado nos assassinatos cometidos pela dupla de adolescentes na Columbine High School ou o mais recente Vôo 93 (2006) de Paul Greengrass que reconstrói o sequestro do vôo United 93, cujo destino era a Casa Blanca, mas que foi derrubado pelos próprios passageiros que se rebelaram contra os seqüestradores. Filmes que assim como o Última Parada 174, optaram por recontar histórias extremas em busca de um certo entendimento de quem são as humanidades por trás de atitudes como estas.

NOTA:7,0


Trailer

Sem mais artigos