Rapper soa novamente vulnerável e experimental em um dos melhores discos de rap deste ano

é um dos músicos mais talentosos de sua geração – e também um dos mais complexos. IGOR, seu quarto álbum, finaliza uma transformação estética e conceitual iniciada no anterior, Flower Boy. Sai o rapper que caminhava em terrenos convencionais do gênero e cujas letras controversas era um combustível barato para atrair atenção midiática e entra um artista experimental e vulnerável, que derruba amarras musicais no hip hop atual. IGOR é revolucionário e sua audição só tende a se tornar mais relevante nos anos futuros.

Antes de analisar o disco em pormenores, é interessante destacar que IGOR precisa ser visto em um contexto de metamorfose de Tyler e, por isso, ele é muito próximo musicalmente de Flower Boy, de 2017. Naquela ocasião, Tyler The Creator abandonou praticamente todas as suas referências apresentadas em Goblin (2011) e Wolf (2013), quando ainda orbitava na influência de seu grupo, o Odd Future. Cheio de bravatas e letras que desbancavam para homofobia e misoginia pura, esses álbuns traziam uma força bruta juvenil e um rapper com uma voz já muito própria, de cadência pesada.

Cherry Bomb, que soa bastante confuso, atirando para todos os lados, era uma transição. Um álbum de rap mais experimental, mas que soa ainda como um conjunto de boas ideias inacabadas. Mas aí que cortamos para um dos melhores trabalhos do rap nos últimos anos: Flower Boy, de 2017. Com participações de nomes como Frank Ocean, Kali Uchis, Rex Orange County, Jaden e Estelle, o trabalho é um divisor na carreira do músico. Tanto que inspirou até mesmo incredulidade em que o via apenas como um rapper fanfarrão, um troll super inspirado e temerário.

Flower Boy trazia uma mistura inspirada de soul, jazz, rap e ainda tratava de temas como depressão, solidão, sexualidade e amizade. Tyler rimava sobre amores perdidos, sobre a fama e ainda instigou um debate sobre sua possível saída do armário (“Garden Shed” parecia falar sobre as dores de suprimir a orientação sexual). Em um meio em que esse assunto ainda é um tabu, o disco todo soa insurgente.

Ouvir Flower Boy após alguns anos só prova o quanto ele envelhece bem e deve se tornar um dos mais importantes disco do rap quando olharmos em perspectiva no futuro. Enquanto trabalhos como My Beautiful Dark Twisted Fantasy, de Kanye West levaram o gênero a um outro terreno estético ainda pouco explorado e To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar elevaram a relevância político do gênero, Tyler  deu sua contribuição para a evolução do rap ao trazer temas pouco trabalhados e fez isso de uma maneira inovadora, buscando soar o mais pessoal possível.

Em IGOR, o músico aprofundou esse seu projeto pessoal de experimentar no rap ao mesmo tempo em que trata de temas pouco explorados. O disco traz como conceito a jornada de se apaixonar por alguém, desde os primeiros momentos, passando pela obsessão, rompimento e tentativa de se manter amigos após o término. Novamente produzido inteiramente pelo rapper, o trabalho traz nomes como Kanye West, Solange, Playboi Carti, CeeLo Green e Lil Uzi Vert.

“EARFQUAKE” mostra a explosão de paixão, aquele sentimento que deixa as pessoas vulneráveis, quase subjugadas. “Não me deixe, foi tudo minha calma”, canta Tyler com a voz modificada. “I THINK”, primeira faixa em que o rapper usa sua voz sem alterações, mostra a realização dessa dependência amorosa. “Acho que me apaixonei / desta vez, pra valer”, canta ele.

“RUNNING OUT OF TIME” mostra novamente o narrador principal do álbum caído de paixão e, como fica evidente, sua voz está novamente alterada por sintetizadores. A dinâmica da angústia e do prazer em se ver envolvido por alguém é o tema dessa faixa.

Essa tensão é levada para as duas faixas, que são bem mais pesadas, “NEW MAGIC WAND”, em que suplica por um amor não correspondido e “A BOY IS A GUN”, faixa que faz uma metáfora sobre armas para mostrar o quanto aquela relação o está fazendo mal. É uma faixa toda trabalhada em um flow de Tyler que contrasta com vocais delicados de Solange ao fundo.

A parte final do disco é onde Tyler se mostra mais inspirado. Marca o fim do relacionamento, a despedida, com o rapper novamente trazendo uma voz modificada, caso da linda “GONE, GONE / THANK YOU”, que fala de como aprendemos com os relacionamentos, os bons e os ruins, e que talvez por isso, todos valham a pena. “I DON’T LOVE YOU ANYMORE”, é típica faixa de superação. Já a última “ARE WE STILL FRIENDS”, mais complexa, mostra que aquele amor talvez ainda não esteja totalmente superado. Isso fica claro pela interpretação sofrida do rapper, cheia de nuances, perguntando se ainda pode continuar amigo após o fim do relacionamento.

IGOR é um puro disco de soul e traz o rap para o terreno do romantismo. Outra inovação trazida aqui é a incrível construção de personagem, trabalhada nos mínimos detalhes, seja na interpretação, nos interlúdios ou mesmo no modo como usa sintetizadores e vocoders. Diversos outros rappers (e músicos) já criaram alter-egos, mas Tyler avança uma casa por trazer nuances e complexidade como poucas vezes foi visto no rap. É um trabalho de escrita muito bem costurada, o que reforça a importância de ouvir esse álbum como um trabalho uníssono (talvez por esse motivo, o músico evitou lançar singles antes do lançamento, o que é mais comum).

O novo disco é a prova de um rapper no seu auge criativo e bastante experimental. Ainda que não supere o anterior, Flower Boy, este novo trabalho confirma que Tyler The Creator ainda tem inspiração suficiente para levar o rap para caminho interessantes e ainda pouco explorados.

TYLER THE CREATOR
IGOR
[Columbia, 2019]

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