PIADO LITERÁRIO
Escritores exploram o Twitter e mostram que o microblog ainda pode ser melhor explorado

Por Paulo Floro

As mudanças provocadas pelo Twitter no modo como as pessoas se comunicam é motivo de debate há anos, desde que o serviço de microblogs se tornou um dos mais populares da rede. Não demoraria para a Literatura, uma das mais antigas formas de arte interagir com essa nova tecnologia. Mas, se em apenas 140 caracteres mal cabe um haikai, um poema concreto, como essa experiência poderia dar certo. Sintoma desses tempos pós-modernos, tudo se ajeitou e hoje, existem várias pessoas, em diversos níveis de sucesso usando o Twitter para postar seus textos.

A Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas, a Fliporto, já anunciou para este ano, seu concurso de literatura no Twitter. Sinal de como o site é influente é que nos anos anteriores, o mesmo certame era feito com textos enviados por mensagens de texto, chamado de “Literatura no celular”. Os participantes precisam postar um texto de caráter literário nos minguados 140 caracteres da página. Mas a tendência não é nova. O projeto 140 letras recebeu mais de 1800 microcontos cadastrados em um concurso realizado no início do ano passado. A inscrição era bem simples. Para participar, bastava postar usando a hashtag #140.

– Os vencedores do #140letras do ano passado

@bellameneses: Ela queria alguém sem consciência, sem clemência, com importância, com arrogância, com prepotência e com potência. Muita potência.

@Cerquize: Tudo que seu chefe pedia, o contorcionista fazia com o pé nas costas.

@clarissafelipe: Ela lembrou de não ter pensado em nada antes de tomar aquela decisão. Essa lembrança explicou muito da sua situação atual.

Dos cerca de 80 milhões de usuários cadastrados na página, alguns se dedicam a criar uma experiência que vá além da simples pergunta. “O que está acontecendo”. Chega a ser interessante o debate, “mas o que está sendo postado, já não é, por si só, literatura”? Algumas timelines são tão inspiradas que poderiam se transformar em livros tradicionais. Outros apelam para o humor, como os perfis @microcontoscos e @OCriador, assinado por ninguém menos que Deus. Os dois tem seguidores que passam dos 30 mil.

Dos escritores formais, que possuem livros lançados tem performance bem variada no Twitter. Um dos que primeiro apareceram, o autor Daniel Galera, usa o nome @ranchocarne e ao contrário do que muitos poderiam supor, usam a ferramenta como diversos outros, para postar comentários sobre diversos assuntos, falar o que está acontecendo, postar links, responder a outros usuários. O mesmo acontece com outros escritores brasileiros, da safra recente, como Carol Bensimon (@carolbensimon), Santiago Nazarian (@nazarians), Paulo Scott (@elrodris) e outros.

Esses nomes já usaram e abusaram de outras novidades na internet, no passado, como os blogs, mas ainda não encontraram no Twitter um campo fértil para exporem alguma proposta original. Mas talvez, não haja essa necessidade e cada um se comporte à sua maneira. O Twitter continua, isso sim, como o melhor distribuidor de novidades, notícias e opiniões. Quando um desses autores lança um conto, seja na internet ou em outro lugar, seus admiradores (no caso, seguidores), retransmitem a informação e a produção se propaga.

“O Twitter dá pra brincar com aforismos, microcontos, poemetos. Nunca vi nenhuma experimentação além disso”, diz o escritor pernambucano Wellington de Melo, membro do coletivo Urros Masculinos e organizador da festa FreePorto. “Entre os que equilibram a comunicação com o público (para mim o maior trunfo do Twitter) destaco o Marcelino Freire (@MarcelinoFreire), que também publica seus ‘Contos Nanicos'”.

A proposta deste escritor pernambucano autor de Rasif e Angu de Sangue é publicar 1000 contos. O autor tem recebido elogios pela sua capacidade de utilizar tecnologias à medida que surgem. Ele assina ainda o blog EraOdito. Outro que tem algo bem definido para o Twitter é Fabrício Carpinejar. Seus aforismos diários são retuítados dezenas de vezes, por usuários de diferentes lugares, todos os dias. Ele chegou a lançar em 2009 o ousado livro www.twitter.com/carpinejar, assim mesmo, como a URL de seu perfil no microblog. Inusitado na forma, o livro conseguiu fazer poesia nos míseros 140 caracteres e radicalizou a ideia de que sim, é possível fazer literatura no Twitter.

– Alguns Contos Nanicos

CONTO NANICO NÚMERO 107 intitulado “Na Cabeça”: Uns com o ópio. Outros com o piolho.

CONTO NANICO NÚMERO 105: – Quem você pensa que é? / A loira não soube responder.

CONTO NANICO NÚMERO 108 intitulado “Amor à Primeira Vista”: – O zíper da sua calça está aberto.

– Algumas frases do livro de Carpinejar

“Eu perdoo as mentiras. O que não desculpo é a distorção.”
“O abraço é o excesso de palavras.”
“Nunca bebo uísque para tomar coragem; não é bom misturar.”
“Escutar não é deixar de falar. É deixar de se ouvir.”
“Se é para ser o último a saber, quero todos os detalhes.”
“A maior frustração para quem gosta de brigar é ouvir que tem razão no início da conversa. Terá que desativar seu arsenal de argumentos.”
“Homem que discute o relacionamento quando sua mulher pede satisfação não entendeu o recado.”
“Maturidade é diferenciar a tentação da encrenca. A tentação é o desejo certo no momento errado. Encrenca é desejar o momento errado.”

ENTREVISTA CLÁUDIO SOARES

Muito a desbravar
Claudio Soares é pioneiro a encarar os desafios de criar literatura no Twitter. Ele adaptou um texto bastante longo para o microblog, mais de 464 páginas de Santos Dumont Número 8: O Livro das Superstições, biografia romanceada lançada em 2006. O projeto consistia em usar os 140 caracteres da ferramenta para contar toda a obra, através do perfil @sd8. O resultado foi um sucesso e fez o livro vender nas livrarias.

O escritor falou sobre a obra e os desafios que a Literatura encontra no Twitter – e o que ainda pode ser feito.

Claudio Soares é pioneiro a encarar os desafios de criar literatura no Twitter. Ele adaptou um texto bastante longo para o microblog, mais de 464 páginas de Santos Dumont Número 8: O Livro das Superstições, biografia romanceada lançada em 2006. O projeto consistia em usar os 140 caracteres da ferramenta para contar toda a obra, através do perfil @sd8. O resultado foi um sucesso e fez o livro vender nas livrarias.
O escritor falou sobre a obra e os desafios que a Literatura encontra no Twitter – e o que ainda pode ser feito.

Como é sua relação com o Twitter? O que mais gosta de postar e comentar nessa mídia?
Twitter é uma plataforma fortemente inspirada pelos conceitos de proximidade, transparência e acessibilidade. A combinação da forma breve e serviços de mensagens instantâneas, mídias sociais e atualização de status criam uma audência (mundial) ansiosa, cuja atenção é difícil de capturar. Eu tenho usado o Twitter de duas formas: sob o ponto de vista jornalístico e literário, seja postando e interagindo notícias sobre tecnologia e literatura (com foco em e-books e e-publishing), seja experimentando a publicação de narrativas breves ou hipertextuais.

Acha que o Twitter pode ser um espaço para experimentações literárias?
Sim, claro. Este é um conceito ainda embrionário mas no qual acredito muito. Entretanto, apesar de acreditar que o Twitter e outras mídias sociais devam ser encaradas como espaços potenciais para a publicação de narrativas, penso que estas deverão, inevitavelmente, absorver caracteríticas do meio (proximidade, transparência, interatividade, etc), ou seja, não deveriam ser apenas um recorta-e-cola de textos previamente publicados em papel.

Você segue escritores no Twitter? Como descreveria a performance deles no microblog?
Poucos. A performance deles em geral é pobre. Muitos ainda nao compreendem o Twitter como um possivel meio para publicarem literatura ou, ainda de forma mais interessante, criarem uma plataforma literária, onde seus personagens, tramas e outros elementos literários podem se integrar de uma forma não linear, por exemplo, envolvendo blogs, wikis, vídeo, som, com o intuito de contar uma história. Mas, isso tende a mudar a partir do momento que novas aplicações apareçam integrando o Twitter (que, em suma, é um banco de dados de pequenas mensagens) e outras mídias sociais em um ambiente de software mais apropriado e focado ao desenvolvimento de trabalhos literários.

A internet hoje é um ambiente rico para os escritores? Gostaria que você comentasse sua relação com a web, pessoal e profissional.
Sem duvida. A internet aproxima os escritores de seus leitores e estimula o diálogo. Minha relação com ela é intensa e remonta o final da década de 80, quando ainda a conhecíamos por suas sub-redes, como a bitnet, a usenet, etc. Hoje, meu foco tem sido o estudo do impacto da tecnologia on-line sobre os processos de escrita e leitura. Montei um blog há 4 anos, o Pontolit e sou articulista de um portal de tecnologia, o iMasters/UOL, onde escrevo sobre e-literatura, e-publishing e mídias sociais. Profissionalmente, também estou muito envolvido com o tema, pois, há poucas semanas, assumi o cargo de e-publisher na Singular Digital, empresa do Grupo Ediouro. Lá, nosso trabalho lá é justamente estimular e ajudar na criação de projetos inovadores que integrem internet e livros.

Como avalia a repercussão de seu projeto do Santos Dumont Número 8 para as redes sociais?
Fui surpreendente para mim, pois o romance, publicado originalmente em papel em 2006, voltou a vender ao mesmo tempo em que gerou interesse na imprensa (nacional e internacional) e universidades. Com alguma frequência tenho sido contactado por estudantes de letras, jornalismo e tecnologia. O projeto SD8 foi uma experiencia que resolvi empreender a partir de artigos que escrevia no portal iMasters/UOL. Não esperava a repercussão (positiva) que teve. Isso me incentivou a implementar um projeto transmidiatico mais aprofundado. Estou trabalhando nele atualmente e pretendo lançá-lo em 2011. O núcleo ainda é a literatura, mas, penso que ela agora deve conversar com outras artes e mídias, e os leitores devem ter acesso ao conteúdo a partir de diversos dispositivos de leitura, seja o livro de papel, sejam os e-readers dedicados (como Kindle, Nook, etc) e não dedicados (como iPads e celulares).

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