UM NOVO TEMPO PARA A TURMA DO LIMOEIRO
Gibi que retrata Turma da Mônica jovem apresenta retrocessos criativos e ideológicos em relação aos personagens originais
Por Paulo Floro*

TURMA DA MÔNICA JOVEM
Vários autores
[Panini, 132 págs, R$ 5,90]

Os brasileiros que viveram a infância nos anos 80 e 90, principalmente, brincaram de casinha na “lua”, jogaram bola no campinho e seqüestraram o Sansão morrendo de medo de levar uma coelhada da Mônica. Fizeram tudo isso com a imaginação, que voava junto com cada aventura impressa nos gibis da Turma da Mônica. Quem cresceu entre idas e vindas das bancas de jornal, esperando avidamente pela próxima revistinha, sabe exatamente que a vontade de morar na Rua do Limoeiro e participar de tudo aquele mundo era enorme.

Essa geração cresceu e, agora, quem diria, Mônica, Magali, Cebolinha e Cascão também cresceram e chegaram à adolescência. Voltado para o público com uma média de idade de 14 a 16 anos, Maurício de Souza lançou neste mês a revista Turma da Mônica Jovem e, contrariando altas expectativas dos leitores, colocou a tão querida turminha em uma situação no mínimo constrangedora. São tantos os pontos a se destacar – negativamente – que é difícil saber por onde começar.

Logo nas primeiras páginas, há uma série de quadros explicando as mudanças nos personagens. Mônica não é mais baixinha e gorducha; Magali agora come moderadamente e tem uma alimentação saudável; Cebolinha foi à fonoaudióloga e só fala errado quando está nervoso e, por fim, o Cascão agora toma banho periodicamente – em uma cena fica implícito que sua demora no banheiro tenha a ver com masturbação. Além dos principais, vale destacar ainda a tragédia que foi feita com os secundários: o Louco é professor da turma na escola; o Anjinho agora se chama Céuboy (uma referência a Hellboy); Franjinha gosta do apelido “Fran” e o Capitão Feio ficou bonito e agora quer ser chamado de “Poeira Negra”, entre outras bizarrices.

É compreensível que Maurício de Souza não quisesse mais associar a imagem de sua turma ao politicamente incorreto – afinal, não há nada de didático em comer sem parar, agredir os amigos e falar errado, ainda mais em uma sociedade neurótica que vê suas crianças sofrerem com a obesidade infantil, a violência sem limites e a falta de educação e de base escolar. Só que isso não justifica colocar Mônica e seus amigos para lutarem contra Yuka, a “rainha das quatro dimensões”, em uma trama de ficção nonsense que mistura “espíritos guerreiros” com “artefatos mágicos” e elementos da cultura pop japonesa. Além disso, a HQ quando poderia justamente apostar em um lado menos inocente já que voltado para teens, ao contrário abraçou uma ideologia politicamente correta vigente. Ou seja, os quadrinhos da Mônica para crianças ainda continuam mais transgressores e originais.

A escolha errada
A opção por descrever as novas aventuras em estilo mangá é o ápice do processo de esvaziamento da turma, anulando a brasilidade essencial dos personagens, com a qual milhares de crianças vêm se identificando há 40 anos (a Mônica foi criada em 1963). Simplesmente não combina com a estética da Turma da Mônica.

Em um exercício incrível de remodelagem, os autores criaram um universo paralelo que não guarda nenhuma semelhança ou qualquer vestígio da boa e velha Turma da Mônica. Tudo soa forçado: as gírias (a Magali dizendo “Tô bege” não cola, por exemplo), os diálogos, o estilo dos desenhos e a trama toda em si. É lamentável também o fato de os personagens ficarem se justificando no decorrer da história. Não há a mínima necessidade da Mônica dizer que estava cansada de usar sempre o mesmo vestido e de o Cebolinha afirmar que agora não fala mais errado. Parecem que acordaram repentinamente com 14 anos. Fica a impressão que o gibi não se sustenta imagéticamente sem os personagens originais crianças.

Ler Turma da Mônica Jovem é um misto de vergonha alheia e decepção para qualquer leitor antigo das aventuras do Limoeiro. O avanço mais notável neste número é o crédito dado aos autores dos quadrinhos, ainda que discreto no expediente. Se era para usar o estilo dos mangás, seria bom começar a fazer dos autores também grandes estrelas. Mas isso não combina com Maurício de Souza, que criou um modo de produção industrial para suas criações.

Neste novo momento, ainda bem que não sobrou espaço na revista para o Horácio e para o Penadinho. A essa altura, o primeiro já foi extinto e o outro morreu faz tempo. Sorte deles. [* Colaborou Fernando de Albuquerque]

NOTA: 3,0

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