O ESTUDO PELA TV
Livro do filósofo Mark Rowlands traz reflexão divertida sobre oito importantes series da TV americana
Por Talles Colatino

A televisão ocupa um lugar de destaque na nossa vida. Na nossa sala também. No quarto, na cozinha. A televisão está na nossas açções, no personagens que criamos em cima de personagens que ela cria. Na realidade que vemos e queremos viver. No mundo contemporâneo, mais que nunca, a TV somos nós. De tanto conviver aprendemos com ela. E não só como representações superficiais. A televisão nos influencia muito mais, basta assisti-la direito. E é a essa visão que o filósofo e escritor americano Mark Rowlands tenta nos direcionar com o seu Tudo O Que Sei Aprendi Com A TV, livro que chega ao Brasil pela Ediouro, com tradução de Elvira Serapicos, com uma divertida e inteligente missão: analisar, sob o olhar reflexivo da filosofia, oito queridos seriados.

Rownlands sabe como os fatos e a problemática da pós-modernidade afetam o homem moderno, que vive num pêndulo entre novos e antigos conceitos da vida social. Definições dos óbvio bem, mal, certo e errado e temas como obrigações, moral, caráter, amor, amizade e justiça vivem uma verdadeira confusão em termos de parâmetros no mundo atual. O que o autor faz durante todo o livro é ver como a ficção dos seriados Buffy, a caça vampiros, Sex and the city, 24 Horas, Friends, Família Soprano, Frasier, Os Simpsons e Seinfield dialoga com a nossa realidade. Uma visão bem otimista de como um dos mais pasteurizados itens do entretenimento de massa pode nos ajudar a compreender melhor a mecânica social e individual.

Tudo O Que Sei Aprendi Com A TV é um tratado pop – pela linguagem e, claro, pelo objeto de estudo – para tentar entender o universo do contemporâneo. Embasado por clássicos – Platão e Schopenhauer bombam, por exemplo -, Mark Rowlands se apresenta não como um apocalíptico, e sim como analista ciente dos desfalques da pós-modernidade, mas bastante otimista em relação a como podemos nos equilibrar nesse jogo que soa eternamente dúbio dentro da atual realidade social. Contexto, enredo e personagens são as chaves utilizadas por Rowlands para que possamos tentar entender o mundo que já (pelo bem ou pelo mal) se entregou à modernidade. Só o mundo, porque as pessoas ainda estão se decidindo.

Confira abaixo um breve resumo do que Mark Rowlands aprendeu (e nos ensina) com a TV:

Buffy

Sem saída para decidir se quer ou não matar vampiros, a personagem de Sarah Michelle Geller representa uma exploração sofisticada do conceito moderno de obrigação e de que modo essa idéia tem autoridade sobre nós. Buffy não tem poder de escolha sobre suas próprias ações, indo de encontro ao conceito básico de liberdade dos estudos pós-modernos.

Família Soprano

O famoso – e mafioso – patriarca da família Soprano, Tony, impulsiona uma discussão acerca da moral e dos conceitos de certo e errado nas atitudes que tomamos. Quais os valores corretos e qual o melhor tipo de pessoa para ser na sociedade moderna são as perguntas chaves desse capítulo.
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Sex and The City

Os anseios e desastres amorosos e sexuais, além dos laços fraternos, de Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte trazem a questão da importância do outro na nossa vida. O outro vale o quanto representa, em questão de recursos e valores (afetivos, emocionais e sexuais), para a sua vida.
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Friends

Ao analisar Friends, discute o frágil conceito de amor no mundo pós-moderno e como esse sentimento coloca em cheque nossas expectativas com um princípio básico: o amor é cego. E é essa cegueira que faz pessoas como Joey e Rachel, por exemplo, confundirem seus sentimentos na nona temporada da série.

24 Horas

A vida non-stop do agente da Unidade Contra-Terrorista Jack Bauer leva à reflexão de o que é e qual a importância de ser justo. Por buscar sempre fazer justiça, a vida de Bauer necessita de dois termos tão essenciais quanto escorregadios no contexto da pós-modernidade: imparcialidade e igualdade.
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Seinfeld

Sob o subtítulo de “a melhor série de TV sobre o nada”, Sienfeld é a melhor representação da cultura individualista que caracteriza o mundo que vivemos. As ironias e os descasos para com outros de Jerry, George, Cosmo e Elaine colocam em questão se eles são representação do ser humano individualista ou diretamente egoísta.

Os Simpsons

Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie são pessoas bem distintas. Aqui não vale a velha questão se eles são, de fato, a representação da família americana, mas se o modo como eles dirigem suas vidas é o melhor. E como as particularidades de cada um, não só da família, mas como de outros moradores de Springfield, torna essa cidade cada vez mais real.

Frasier

O homem moderno busca a auto-satisfação. Mas antes de chegar nesse ponto é preciso se reconhcer bem. E quem conhece bem a si mesmo? O psiquiatra Frasier Crane, assim como os outros personagens dessa sitcom, vivem a falar sobre seu excêntricos comportamento e características, que serve como luva para a discussão acerca do individual.

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