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“PEGA UM PEGA GERAL, TAMBÉM VAI PEGAR VOCÊ”
Clássico batidão carioca marca entrada dos créditos de “Tropa de Elite”, filme de José Padilha que relata o limiar na guerra civil brasileira
por Fernando de Albuquerque

Mesmo antes de estrear no cinema, Tropa de Elite é um filme que já esquentava debates em mesas de bar, filas de supermercados, em conversas pueris no trânsito. Isso porque boa parte da população já assistiu ao filme em casa e já promoveu sessões privates ao lado de familiares e amigos. A pesquisa DataFolha, por exemplo, registrou que, só em São Paulo, mais de 1,5 milhão de pessoas já assistiram ao longa antes de ele entrar cartaz.

Tanta volúpia por um filme nacional tem um motivo muito bem definido: nas telonas, vemos, consternados, a narrativa de um estado falido e da segurança do cidadão em xeque a cada instante. Protocolarmente, Tropa de Elite é um filme narrado em primeira pessoa pelo capitão Nascimento (interpretado por Wagner Moura), um oficial do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) da PM do Rio, que, prestes a ter seu primeiro filho, quer se afastar do trabalho, mas não sem deixar um sucessor em seu lugar.

Essa é a primeira impressão que Tropa de Elite sugere a seu espectador, como um filme muito bem executado, que segue rigidamente os cânones de seu próprio gênero conduzindo a platéia a torcer pelo protagonista por meio do sempre eficiente mecanismo da identificação. Muitos o classificaram como sanguinário, desumano, autoritário, já que leva a platéia a um sentimento de “legitimação da tortura”. Mas Tropa de Elite recorre claramente a uma “cosmética da violência” que teve início com Cidade de Deus (de Fernando Meireles), com a espetacularização da violência para satisfazer pequenos impulsos sanguinários de quem o assiste. Afinal de contas, é difícil não vibrar quando criminosos, ou policiais corruptos se dão mal: é tudo que a sociedade civil justa mais deseja.

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José Padilha, mesmo diretor de Ônibus 174, é quem dirige Tropa de Elite. Ele retoma a idéia de espetáculo para desmonta-la diante dos olhos de quem o assiste, transferindo o espectador do papel de vítima à função de algoz. E se pensarmos na própria gênese do documentário (Ônibus 174) e agora do filme ficcional pode-se apontar fragilidades e mesmo tiques do próprio diretor como o uso da câmera na mão e de uma edição completamente tricotada, extasiante e cansativa, que procura reproduzir um realismo iconizado no cinema contemporâneo, como em Crash e Supremacia Bourne.

Em Tropa de Elite a subversão se mantém na própria história contada. Dividido classicamente em três atos, a trama investe na rede de cumplicidade entre mundo do crime e sociedade; no primeiro, descreve a constituição da mentalidade de extermínio do Bope e expõe seus métodos de ação. Esse método faz com que a platéia sinta na pele um desejo de vingança, já que o fio condutor da narrativa é um homem honesto, pai de família, do padrão classe média, que ao mesmo tempo é um executor frio e calculista. Na trama, o burgo sustenta o crime, mas o Bope é que concretiza o desejo de vingança e extermínio nutridos pelos burgueses. Uma extrema necessidade de extinguir a banda dita nociva da sociedade.

tropa-de-elite-3.jpgTropa de Elite detona e explicita um ecossistema onde os playboys consomem drogas, os traficantes garantem o abastecimento e o Bope, entra em ação quando transborda a violência gerada nessa parceria – quando os consumidores são vítimas da brutalidade desse mecanismo de auto-sustentação. No meio dessa fauna, ninguém está nem aí para a pergunta que o capitão Nascimento faz em uma das primeiras cenas: “Eu sempre me pergunto: quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para um playboy rolar um baseado?”.

TROPA DE ELITE
José Padilha
[Brasil, 2007]

NOTA: 9,0

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