LONGE DA FICÇÃO
Continuação da obra que se tornou ícone pop mostra mais uma vez que a violência explícita mostrada na tela está longe de ser uma mera coincidência com a realidade. Filme agora foca a corrupção policial

Por André Azenha
Colaboração para a Revista O Grito!, em São Paulo

Quando Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro começa, a seguinte frase surge na tela: “Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Essa é uma obra de ficção”. Não, caro leitor. Sua história põe o dedo na ferida, mostra que os problemas sociais vão muito além do bandidinho da esquina e que os principais culpados pela existência de políticos corruptos, policiais inescrupulosos e traficantes é, principalmente, nossa.

O primeiro “Tropa” virou fenômeno pop via pirataria, antes mesmo de ser finalizado e lançado nos cinemas. A história, ambientada em 1997, mistura de crítica social, cinismo, humor e que mostra como bandido deve ser tratado, caiu no gosto popular. Gerou polêmica. Foi premiada no Festival de Berlim. E a atuação memorável de Wagner Moura tornou o Capitão Nascimento um dos maiores personagens do cinema nacional. Mas as armas daquele filme atiravam até certo ponto. Com a morte do traficante.

Na continuação não. A espetacular equipe formada pelo cineasta José Padilha, o roteirista Bráulio Mantovani, o montador Daniel Rezende e o excelente elenco encabeçado por Moura realizou uma obra mais densa, até triste. Sem o apelo pop do original, porém mais complexa, completa, coesa. Agora, o buraco é bem mais em cima. Conforme diz o subtítulo, o inimigo não apenas empunha armas, mas usa terno, gravata e quer ser (re) eleito. É outro.

Passaram-se 10 anos desde os acontecimentos da trama anterior. Nascimento, agora Comandante Geral do BOPE, após uma operação no presídio Bangu I, que termina com a morte de um perigoso traficante (Seu Jorge), ganha o apoio popular. E vira subsecretário de Segurança Pública. Com a nova função, faz do BOPE uma máquina de guerra, e quebra o esquema do tráfico no Rio de Janeiro. Mal sabe ele que ao acabar com o tráfico, está abrindo as portas para os tiras corruptos formarem as milícias, que sitiam as favelas e funcionam como cabo eleitoral do governo. A corja, que ainda envolve a mídia, é chamada frequentemente de “sistema” pelo protagonista – o filme ignora o envolvimento do setor privado, uma pena. Nascimento “descobre” que o vilão é muito maior do que aparentava. E bem mais difícil de ser vencido.

Agora é pessoal
Do outro lado, ele precisa enfrentar as dificuldades no relacionamento com o filho adolescente (Pedro Van-Held). Para “ajudar”, sua ex-mulher (Maria Ribeiro) está casada com um militante dos direitos humanos (Irandhir Santos), que almeja ser deputado, e despreza a atitude truculenta do BOPE. Não tardará até todos estarem envolvidos numa situação que tende à tragédia.

Elogiar “Tropa de Elite 2” enquanto obra cinematográfica é chover no molhado. Direção, roteiro, montagem, locações, elenco… Tudo é excelente. É mais filme que o original. As frases engraçadas até aparecem, mas em menor volume. Uma delas, impagável, diz: “Quer me foder, me beija!”. Padilha e companhia criaram um drama policial de denúncia digno dos melhores trabalhos de Michael Mann. Do elenco, saltam aos olhos a curta, mas explosiva, participação de Seu Jorge, Irandhir Santos, Milhem Cortaz e André Ramiro, que retornam respectivamente como Fábio e Mathias, Sandro Rocha, perfeito, como o líder da milícia, André Mattos, divertido e repugnante ao interpretar um apresentador de TV, mistura de Wagner Montes, Afanasio Jazadji e José Luiz Datena, e a bela Tainá Muller, na pele de uma jornalista.

Já Wagner Moura novamente mergulha em seu personagem. Segundo comentou o ator em entrevista ao Jô Soares, Nascimento é um personagem típico das tragédias gregas. Caminha a passos largos para um desfecho melancólico. E sabe disso. Tal qual Al Pacino em Fogo Contra Fogo (de Michal Mann), crê planamente em sua missão e irá até o fim para cumpri-la, mesmo que precise afastar seus entes mais queridos.

O Nascimento truculento do primeiro “Tropa” surge, principalmente, no ato final. Mas na maior parte da trama presenciamos alguém de cabelo grisalho, andar curvado, como se literalmente leve um grande peso nas costas. E ao inserir o drama pessoal do personagem no roteiro, Padilha e Mantovani tornam a figura de Nascimento mais humana. Com certeza um dos grandes personagens da nossa cinematografia.

Muito além de uma pérola do cinema brasileiro, “Tropa de Elite 2” é, antes de tudo, um fenômeno social, popular e político. Uma denúncia. Obra que não tem medo de jogar lixo no ventilador. Que não teme afirmar que o governador do Rio está envolvido na barbárie, que a PM daquele estado precisa acabar, e que a mídia faz uso do crime não somente para ganhar audiência, mas também conseguir poder político. Por várias razões, teve sua estreia adiada. Fosse lançado antes das eleições do Primeiro Turno, e o debate em torno do “sistema” poderia ser maior.

Mas aí Padilha insere uma cena capaz de nos nocautear. Nela, confirmamos que, ao contrário da frase que abre o filme, Tropa de Elite 2 não só aproxima-se, mas reafirma a realidade onde vivemos – principalmente depois das eleições. Não é mera coincidência.

TROPA DE ELITE 2
José Padilha
[Brasil, 2010]

NOTA: 8,0

André Azenha é jornalista e editor do CineZen Cultural

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