REFLEXÕES SOBRE O BURACO
Em novo livro, roqueiro mimetiza detalhes de sua própria história para contar a saga de um astro do rock que caminha para a velhice enquanto rumina seus tempos de glória

Por Tony Bellotto

“Um dos meus problemas com a literatura é a questão das bocetas.”
É isso mesmo? Estou ouvindo coisas?
“Boceta grafada com o não faz jus ao substantivo.”
Onde estou? Na praia de Ipanema com o rosto enterrado na areia. Acabo de acordar de uma soneca, despertado por frases intrigantes sobre a Questão das Bocetas.
“Buceta é com u!”, afirma o homem.
Permaneço de olhos fechados, como se eu não existisse.
“Buceta!”, ele repete exaltado.
Sotaque mineiro. Goiano, talvez. Posso imaginar a figura, professor universitário. Ou crítico literário. Alguma coisa em ário. Rabo de cavalo, brinquinho na orelha, sunga preta, barriguinha branca, óculos de aro vermelho, ideograma do I ching tatuado no bumbum. O tipo de cara que chama a própria bunda de bumbum, além de eventualmente tatuá-la. Passando o final de semana no Rio a divagar sobre bocetas e bucetas na praia de Ipanema, xavecando alguma garota — ou garoto — ao lado.

Não ouço o interlocutor emitir opinião. Se é que dá pra emitir opinião a respeito. “O o não carrega o calor, a umidade e os aromas do u”, ele insiste. “Não nas bocetas. Desconfio de escritores que escrevem boceta.”
Meu Deus. Preciso ouvir isso? Devia ter ficado no hostal em que estou hospedado. Mas cavar um buraco na areia é sem dúvida uma forma digna — embora pouco imaginativa — de atingir alguma profundidade. “Convenhamos, sem uma boa buceta não se faz literatura”, ele conclui, como alguém que espreme limão-siciliano numa ostra. “Sem uma prexeca não se escreve. Rá, rá.” Prexeca? Por pouco não saio da tumba e interpelo o terrorista verbal com a classe e a arrogância de um rei espanhol: Por que não te calas?

Sou um ex-guitarrista de rock, não vejo por que me aborrecer com literatura. Não na praia. E, definitivamente, não da maneira em que me encontro. Não sinto ânimo para sair da catacumba. Abrir os olhos exigiria esforço e me condenaria a fazer parte da paisagem. Antes estivesse atochado numa bucetinha oriental, aconchegado no calor, na umidade e nos aromas do u. E sem areia no calção.

Vozes se sobrepõem às falas do dissertador semântico-ginecológico. Não distingo mais o significado das palavras. Se é que têm algum. Agora ele profere alguma coisa em ães. Guimarães, acho. Ao fundo o mar parece dizer num timbre de órgão Hammond: Lien…

Sim, a Lien. Tinha me esquecido dela durante a soneca. Navegadores portugueses do século xv chamavam o oceano Atlântico de Mar Tenebroso. As ondas que me sussurram o nome sutilmente enigmático — Lien — não soam especialmente assustadoras. Presumo que o verdadeiro Mar Tenebroso está contido no quilo e quatrocentos que pesa em média um cérebro humano. Aqui estou, portanto, uma avestruz filosófica com a cabeça enterrada na areia. Se me perguntarem qual a primeira coisa que farei ao sair do buraco, direi: procurar a Lien.

Li-en: a ponta da língua descendo em dois saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no segundo, contra os dentes. Li-en, acrescentarei, empolado — parodiando Nabokov —, talvez contaminado pelas arguições do scholar do bumbum tatuado, numa tentativa de impressionar meu interlocutor com uma erudição fora de hora.
O problema é: ninguém vai me perguntar nada. Estou sozinho. Na melhor das hipóteses, que horas são? E eu nem tenho relógio. Sempre existe a possibilidade de uma balzacona bem passada me reconhecer: é você? O eterno constrangimento do para sempre guitarrista da one hit band. Tem expressões que soam tão melhor em inglês. Banda de um sucesso só. Não dá pra falar uma coisa assim.

* O trecho acima foi cedido pela editora Companhia das Letras e pode ser reproduzido apenas para efeito de divulgação

Mimetizando às avessas sua história de vida, Tony Bellotto põe em cena, em No buraco, um tipo solitário, que caminha sem ilusões para a velhice ruminando as estripulias de seus tempos de glória e juventude. Mas isso não impede que Teo busque o amor no corpo de uma jovem coreana, nem que estreite laços de amizade com figuras de quem ele jamais imaginaria se aproximar em seus tempos de semi-ídolo do rock nacional, como a dona Gladys, velha e excêntrica vizinha da quitinete onde ele mora. A história de Teo, narrada num tom confessional que praticamente embute o leitor na pele do personagem, acaba resvalando num curioso plot detetivesco de desfecho tão inesperado quanto brilhante, narrado com um humor ácido e contundente. O livro chegou às livrarias semana passada, tem 256 páginas e custa R$ 46. Sai pela Companhia das Letras.

Sem mais artigos