ODISSÉIA AMERICANA
Numa excelente aula de jornalismo, Charles Ferguson esmiúça as causas e os culpados da crise que levou o mundo à recessão em 2008

Por Tiago Negreiros
Colaboração para a Revista O Grito!

Julho de 2005. A três anos da crise mundial, a bolha que levou os bancos americanos à bancarrota já dava seus primeiros indícios de existência. Ben Bernanke, então presidente do Federal Reserve (FED) – banco central americano – durante a crise, tranqüilizava a população americana ao ser questionado por uma repórter de tevê dos EUA sobre a ameaça de recessão no país: “eu acho que essa sua premissa não me convence, uma possibilidade, improvável, que nunca tivemos.” No dia 15 de setembro de 2008, o banco Lehman Brothers pedia concordata, dando largada para um dos momentos mais tensos desde a crise de 1929.

Trabalho Interno (Inside Job) é um filme que detalha de forma didática os meandros que levaram os EUA à recessão. Dividido em cinco partes, o documentário ataca vorazmente do começo ao fim a falta de regulamentação no sistema financeiro norte-americano, e a completa irresponsabilidade de Wall Street. O filme ousa na escolha das músicas, algumas bastante animadas para compor o quadro de completa bagunça das finanças americanas. Tão de esquerda quanto os filmes de Michael Moore, o trabalho de Charles Ferguson faz questão de mostrar quem de fato mais se prejudicou com a crise: a classe média americana, que vê seu número ser reduzido desde o início da década de 80. Sempre os pobres, que perdem suas casas, acumulam dívidas impagáveis e assiste pela primeira vez em décadas seus filhos terem uma vida inferior a sua.

Embora detalhista e por hora didático, o filme de Charles Ferguson peca no texto por várias vezes não tratar os assuntos de forma mais simples, degustável. O famoso “economês” faz presença em todo o documentário sem a preocupação de “traduzi-lo”, o que poderá causar certo incômodo para a audiência menos habituada ao tema. Outro ponto questionável é a exploração moralista da vida pessoal dos agentes financeiros. Uma dona de um bordel de Nova York é ouvida para dizer que vários homens de Wall Street, ao deixarem o trabalho, costumam freqüentar seu recinto, considerado de luxo. Só que esses pontos não tiram em nada o primoroso trabalho de apuração de Trabalho Interno.

Enganam-se quem pensa que a crise começou na Era Bush Júnior. Charles Ferguson inicia o documentário exibindo as consequências que a desregulamentação do mercado financeiro americano, iniciado no governo do republicano Ronald Reagan, trouxe para a economia do país. Entre as décadas de 80 e 90, vários banqueiros, lobistas e consultores foram presos acusados de fraudarem o mercado. O desarranjo culminou na bolha imobiliária, que Trabalho Interno até desenha para explicar.

Os personagens de Trabalho Interno (Foto: Reprodução)

Antes da desregulamentação, conta o filme, os empréstimos eram efetuados de maneira simples. Os bancos concediam o dinheiro e os hipotecários pagavam o valor total à própria instituição financeira ao longo de décadas. Depois da desregulamentação, os bancos passaram a terceirizar as dívidas, ou seja, elas eram vendidas para outras instituições financeiras, os chamados “bancos de investimentos”. Estes bancos, além de acumularem as hipotecas, somavam também outras dívidas, como as de cartão de crédito, empréstimos estudantis e compras de automóveis. Combinadas, esses débitos eram conhecidos como “Collateralized Debt Obrigation”, o CDO. Os CDO’s eram vendidos para investidores, os que de fato recebiam o dinheiro das pessoas físicas e jurídicas. Esses CDO’s recebiam uma espécie de ranking via agencias contratadas pelos investidores; os que possuíam “AAA” eram os mais confiáveis. “Esse sistema foi uma bomba relógio”, fala o narrador do filme, o ator Matt Damon – em um excepcional trabalho.

É a partir daí que Charles Ferguson vai à caça. A princípio o sistema foi lucrativo e gerou bilhões de dólares para os investidores, mas após alguns anos se mostrou falacioso. Sem cautela para conceder empréstimos, a inadimplência cresceu causando ruína nos bancos americanos. Trabalho Interno denuncia inclusive a influência do mercado nos trabalhos acadêmicos. Professores renomados estavam sendo pagos por Wall Street para publicarem artigos elogiosos à desregulamentação. Um dos pontos memoráveis do filme é quando o professor da Columbia Business School, Frederic Mishkin, responde sobre o seu artigo “A estabilidade financeira da Islândia”, escrito pouco antes da pequena ilha do Atlântico Norte ir sumariamente à falência. Segundo o filme, Mishkin recebeu U$ 124 mil pelo texto.

Diante de tantas mentiras, contradições, fraudes e vilania dos senhores que regem a economia mundial, Trabalho Interno não esconde seu alvo: Barack Obama. Eleito pelos americanos como o homem que poderia tirar o país da crise, o filme mostra que Obama tem feito o mais do mesmo que os seus predecessores. Eis a promessa: “Nós queremos um regulador sistêmico, aumentar o requerimento de capitais. Nós precisamos de uma agência de proteção do consumidor de serviços financeiros. Nós precisamos mudar a cultura de Wall Street”. Charles Ferguson acusa Obama de não ter cumprido nada que havia proposto e exibe como prova as nomeações que o presidente norte-americano fez após assumir o poder. “É um governo de Wall Street”, critica um entrevistado.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, coleciona erros absurdos nesses mais de 80 anos de premiação. Premiar Trabalho Interno na festa desse ano foi um alento às pessoas que ainda sentem prazer de assistir um bom documentário. Mais rico foi o discurso de Charles Ferguson que, com o Oscar em punho, lembrou que ninguém foi preso desde a explosão da crise. Apenas mantiveram impávidas suas fortunas, enquanto vários cidadãos americanos foram obrigados a trocarem suas casas por barracas. A decadência dos EUA seria pauta para um novo filme.

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