A AGRUGA DE UMA TRAJETÓRIA
Sonoridade de Tori Amos é uma mistura de ressentimento com engajamento social e íconicidade grega: tudo interligado pelo trauma do estupro e desejo sexual reprimido
Por Breno Soares, especial para O Grito!

O rosto angelical, olhos claros e doces e o sorriso tímido não deixam passar dor e sofrimento que fazem parte da carreira de Tori Amos. O abuso sexual que sofreu quando jovem e alguns abortos, fizeram com que a genialidade e força vital explodissem em suas composições, dando início assim a uma trajetória de sucesso e marcada pelo estilo único de Tori.

Myra Ellen Amos, filha de um pastor da igreja metodista nasceu na Carolina do Norte em 22 de Agosto de 1963. Começou a tocar piano no coral da igreja quando tinha quatro anos de idade para alguns anos depois começar a fazer suas próprias composições. Apesar de ter ganhado uma bolsa de estudos para o conservatório de música Baltimore’s Peabody, o que tocou mesmo o coração dela foi o rock e o pop, sendo influenciada, na juventude, por artistas como Joni Mitchell e Led Zeppellin. Mudou o nome para Tori Amos, se mudou para Nova Iorque e começou a tocar em bares da cidade.

Seu primeiro contrato veio só em 1987, com a Atlantic Records, onde lançou seu primeiro disco, Y Kant Tori Read. A crítica não recebeu bem o primeiro trabalho dela e a venda alcançou números pífios. Nessa época Tori era comparada a Kate Bush, devido a seu timbre de voz. Dois anos depois ela voltou com o EP Me and a Gun O disco é registro autobiográfico no qual a cantora relata um estupro sofrido quando tinha 22 anos.

Os temas tocantes à sexualidade foram largamente discutidos por Tori em entrevistas, músicas e até em declarações de outros artistas como Rufus Wainwright, que disse ter superado, com a ajuda de Tori, o trauma de um estupro quando tinha 14 anos, no Hyde Park. O cantor só escapou com vida por ter fingido ter tido um ataque epiléptico . Em resposta a uma entrevista de Sara Lawrence para a versão eletrônica do The Times, Rufus conta como superou esse trauma: “Eu não pensei sobre isso por muito tempo, até meus 20 anos. Eu estava em turnê com Tori Amos, que dá suporte a um grupo de vítimas de estupro e incesto toda noite após seus shows. Ela teve esses encontros que eu achava serem completamente sem objetivo até que percebi que nunca tinha tido um relacionamento bem sucedido; eu estava perdido em minha identidade sexual e não tinha nenhuma segurança… Amos me forçou a confrontar o assunto estupro.”

Tori Amos tornou-se fundadora da R.A.I.I.N., uma grande organização nos EUA, que visa dar suporte a pessoas vítimas de estupros. “Raiva é normal. Você tem apenas que aprender e lidar com isso. Acho que você tem que conhecer quem você é. Tem que conhecer o monstro que vive em sua alma, mergulhar fundo nela e explorá-la”, afirmou Amos em um encontro do grupo nos EUA. Explorando seus medos e indo de encontro a seus tormentos, Tori Amos conseguiu superar suas dores.

Depois dos bem sucedidos Little Earthquakes e Under the Pink, Tori Amos deu uma parada em sua carreira para mais uma vez enfrentar um problema pessoal, dessa vez por ter sofrido um aborto – o primeiro de três que ela sofreria em sua vida. Um ano depois, casa-se com Mark Hawley e volta a compor, na época do nascimento de sua filha, Natashya Lórien Hawley, em 5 de Setembro de 2000.

Strange Little Girl, lançado no ano seguinte, traz novas versões para músicas compostas e já conhecidas nas vozes de intérpretes masculinos, imprimindo assim mais uma vez sua marca vocal e estética. Ainda com esse disco, Tori Amos volta a tocar no tema sexualidade. Ela disse que parte da inspiração para o disco veio de uma matéria lida em 2001, assinada por Martin Amis para o Manchester Guardian, onde ele abria a matéria com uma citação de um astro pornô, que dizia: “Bucetas são bobagens”. “O artigo de Martin Amis tinha acaba do sair – durante o estágio de planejamento de Strange Little Girls, e dizia que sexo humilhante e violento vende mais do que qualquer outro tipo. Você tem que se recostar e dizer, ‘Ninguém mais pode fazer amor? Alguém está interessado nisso?’ Nós estamos fazendo tanto progresso em tantos níveis e você chega ao ponto ‘Oh, Jesus’. Estou ficando velha. Eu sou uma mãe agora. Há certas coisas que você começa a perguntar”, disse.

Em entrevistas Tori contou que passou a se relacionar com a músicas desses compositores para assim, poder encontrar o lado feminino de cada canção. Ela criou personagens e cada uma tem sua interpretação para as canções, como na música “97 Bonnie and Clyde”, do Eminem. Nela a cantora diz ter-se tornado a mulher morta do porta-malas do carro. “Um dos verdadeiros objetivos do álbum foi perceber como os homens dizem as coisas e o que as mulheres ouvem”,disse à epoca do lançamento. No disco ela ainda canta Slayer, Depeche Mode, Beatles, Neil Young, Velvet Underground entre outros.

Filosofia se mistura à sonoridade
Como no Strange Little Girl, para o seu último disco, American Doll Posse, Tori Amos criou em seus devaneios artísticos cinco personagens (arquétipos inspirados na mitologia grega) que se alternam durante as músicas, criando assim um clima de acordo com a personalidade de cada uma. As cinco formam uma mulher completa. As personagens são: Isabel (inspirada em Artemis), Pip (inspirada em Athenas), Santa (inspirada em Afrodite), Clyde (inspirada em Persephone) e Tori (a própria). Todas cantando a seu modo, sendo cada uma delas uma mulher diferente, com sua vida e personalidade, o que dá mais vida ao disco. Elas cantam suave ou desesperadamente, de forma calma ou agitada impregnando suas personalidades em cada canção, que tratam de amor, política, sexo e dúvidas.

Uma curiosidade sobre esse disco, o nono em estúdio, é que os norte-americanos terão duas versões disponíveis: uma standard e outra edição limitada de luxo. A versão de luxo virá com cinco cartões postais para colecionador, um livreto em cores de 36 páginas e ainda mais um DVD contendo uma faixa bônus e imagens em vídeo do tipo “por trás dos bastidores”. Quem ainda comprar a edição de luxo pelo Itunes, vai poder fazer o download grátis de dois vídeos.

Tori Amos é uma artista em constante construção e releitura de sua obra e seus conceitos. Após o recente lançamento de seu último disco, American Doll Posse, já afirmou que está compondo para um musical tipo Broadway, que ela está criando. Não falou muitos detalhes sobre o projeto, mas adiantou que não irá atuar nele.

Neste mês de Julho, Tori Amos estará viajando fazendo shows na Irlanda, Escócia, Suiça, Romênia, Grécia, Turquia e Israel e em Setembro ela entrará em turné pela Austrália.

Discografia:
Y Kant Tori Read (1985)
Little Earthquakes (1992)
Under the Pink (1994)
Boys for Pele (1996)
From the Choirgirl Hotel (1998)
To Venus and Back (1999)
Strange Little Girls (2001)
Scarlet’s Walk (2002)
Welcome to Sunny Florida (2003)
Tales of a Librarian (2003)
The Beekeeper (2005)
The Original Bootlegs and iTunes Essentials (2005) – apenas para download
Fade to Red and A Piano: The Collection (2006)
American Doll Posse (2007)

Sem mais artigos