ÓPERA LOSER
Tony Manero, do diretor chileno Pablo Larraín discute efeitos da alienação em confronto com a realidade da ditadura de Pinochet
Por Rafaella Soares

TONY MANERO
Pablo Larraín
[Tony Manero, CHI, 2008]

Poucas coisa dão sentido de unidade a uma geração como o cinema. Pano de fundo para a vida das pessoas – muitas vezes agente influenciador em maior proporção do que a política – , é ele quem melhor representa na arte aquilo conhecido por zeitgeist.
Tony Manero, segundo longa do chileno Pablo Larraín, apresentado em outubro passado na 32° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, tem sua estreia nas salas do Brasil, neste mês, para mostrar que o que o cinema atenua em catarse, transborda em exclusão.

O protagonista do filme, Raúl Peralta, é um perdedor de carteirinha, além de fã do emblemático Tony Peralta imortalizado no cinema na pele de John Travolta. Alheio ao que se passa no país (o Chile de então penava sobre o regime do ditador Augusto Pinochet), Raúl forja uma realidade paralela mais condizente aos jovens americanos da década de 1970.

Sexualmente impotente, pobre, altamente frio e meticuloso, Raúl desenvolve uma sociopatia dentro da sua ligação quase religiosa com o personagem ítalo-americano. É num bar da periferia que ele e um grupo ensaiam um deprimente número de imitação ao filme Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever, EUA, 1977).

Neste mesmo lugar, funciona uma espécie de pensão, onde moram também a dançarina com sua filha Pauli, além de Goyo, outro dançarino do lugar, administrado pela personagem de Elsa Poblete. Para conseguir chegar o mais perto da realidade do filme nas sua apresentações, Raúl não mede esforços no que diz respeito a crimes e manipulação emocional. A verdadeira apropriação que ele faz do personagem de Travolta causa admiração nos colegas, que nutrem ora certa reverência pelo culto à estrela, ora ironizam seus esforços.

Não deixa de ser patética a adoração de um homem na faixa de 50 anos, tão aquém do magnetismo de Manero / Travolta, ao mesmo tempo em que assusta vê-lo cometer atrocidades para conseguir um ladrilho que remeta ao chão iluminado das boates de Nova Iorque evocadas no filme ou o reconhecimento de um programa de TV que promove um concurso de sósias do personagem.

A tensão política permeia o filme, sem que no entanto se estenda muito sobre os anos de chumbo naquele país. Tony Manero é uma co-produção entre Brasil e Chile, tendo chegado a exibição na Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2008. Vale a pena conferir um ponto de vista sobre outro país latino na época de ditadura e notar quem sabe os efeitos da alienação em choque com a realidade bastante incômoda.

NOTA: 8,0

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