A ABSTRAÇÃO FUGAZ DA COR
Exposição no Recife de Tomie Ohtake faz questionar a materialidade das coisas
Por Rafael Dias

Há um senso abstrato na obra de Tomie Ohtake quase xiita. As formas, as linhas e os objetos parecem estar em outro plano, numa atmosfera reduzida a um grande vão. Flutuam na sala vazia e se contorcem como figuras vivas, como se esticassem ao máximo. Mas apenas simulam um “movimento” aparente. Estáticas, elas se deslocam para algum ponto de uma outra direção. Escoam, como um afluente de um rio. Brincam com a nossa percepção falha, com o que costumamos chamar de ilusão de ótica. E nos faz questionar a materialidade das coisas, põe em dúvida nossas certezas. É essa sensação fugaz, de algo que escapa às nossas mãos, que permeia a exposição Colheita da cor, em cartaz na Galeria Mariana Moura, no Recife.

A vinda da obra da artista plástica nipo-brasileira era aguardada com grande ansiedade pelos pernambucanos. Fazia 15 anos que os trabalhos da criadora, residente em uma casa-ateliê na zona sul de São Paulo, não eram expostos no Recife. A mostra é composta por seis gravuras retangulares coloridas, reproduzidas em metal, e uma escultura da safra recente de Tomie Othake – as primeiras de 2005 e a última de 2006.

São formas que demarcam a característica da artista, o abstracionismo, o estudo da forma-cor e as influências da cultura oriental, em peças dispostas no chão da galeria ou fixadas nas quinas do teto e das paredes, fazendo um ângulo de 90 graus. A instalação é um pequeno mostruário de suas obras – hoje muito bem cotadas no mercado (chegam a custa R$ 7,5 mil, cada) -, mas bastante emblemático.

A idéia de quebrar as obras “ao meio”, embora simples, é muito interessante. Uma peça, que seria chapada e plana, ganha contornos tridimensionais ao se espraiar pelas arestas e adquirir novos espaços. Com uma intenção que parece desafiar nossos sentidos, Tomie Ohtake extrai de uma gravura metálica múltiplas impressões sobre o conceito de arte e de leitura sobre as formas e o espaço poético. Uma ruptura sutil da lógica cartesiana.

As cores de Ohtake também se multiplicam em uma cartela variada e vívida. Não há uma cor única em qualquer uma das peças. O que se vê são sempre fusões e interstícios. Geralmente são dois feixes coloridos do mesmo tom que se misturam (azul-marinho e azul-escuro, por exemplo) em cada suporte, que tanto podem ser vistos em formato de círculo ou lineares. Entre as sugestões, o artifício passa a idéia de miscigenação de raças, do encontro entre culturas, a brasileira e a japonesa, um aspecto intrínseco à vida e obra da artista, nascida em Kyoto (Japão), em 1913, e que migrou par ao Brasil em 1936. Apesar das diferentes combinações e da mistura das peças, dentro e fora delas, cada criação parece ter sua própria particularidade e um “eu” individual e único.

A exploração das cores em sua totalidade apareceu tardiamente na obra de Ohtake, sobretudo a partir dos anos 80. Antes ela lidava com formas abstratas puras e, no começo, com arte figurativa. A inserção da cor branca sobreveio numa fase anterior, na década de 70. Um exemplo dessa proposta é a escultura de metal retorcido pintado de branco, que faz parte da mostra. Disposta no chão, a peça insinua a evidência abstrata da artista em seu ponto extremo. Pela aparência quase impalpável, o objeto não seria percebido não fosse a parede na cor vinho, que dá o contraste ao fundo. Uma figura leve e cheia de curvas, que nos faz perguntar se aquela peça realmente existe. Um questionamento crucial sobre a fronteira entre o concreto e o abstrato.

Com 94 anos de idade, Tomie Ohtake mantém uma atividade prolífica em sua oficina. E não dá mostras, nem a longo prazo, de esgotamento físico e cansaço criativo.

COLHEITA DA COR
Tomie Ohtake
Galeria Mariana Moura (Av. Conselheiro Aguiar, 1552, conjunto 3 e 4 , Boa Viagem – Recife – PE)
Visitação de segunda a sexta, das 10h às 19h, e sábados, das 10h às 14h
Até 16 de agosto
Mais informações: (81) 3465-5602

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