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O paraibano Augusto dos Anjos foi um dos mais importantes (e populares) poetas brasileiros. Dominado pelo pessimismo e influenciado pelo espírito positivista, ele escreveu poemas viscerais, que fizeram sucesso em seu tempo. A morte era seu principal tema. Agora, a editora José Olympio traz uma nova e caprichada edição com toda a sua produção.

Toda Poesia de Augusto dos Anjos tem 320 páginas e reúne todos os poemas escritos pelo poeta, além de uma longa análise crítica feita por Ferreira Gullar nos anos 1970. Além disso o volume chega às livrarias com novo projeto gráfico e capa. A edição sai por R$ 54,90.

Nascido em 1884, em uma família aristocrata falida, ele fez da deterioração da matéria e da iminência da morte os temas centrais de sua obra, na qual aprimorou uma vasta terminologia científica – o que levaria seu primeiro livro a integrar a biblioteca da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

“Augusto dos Anjos é um poeta do Engenho do Pau d’Arco, da Paraíba, do Recife, do Nordeste brasileiro, do começo deste século [20]. Essa não é uma referência meramente biográfica, externa à sua obra”, diz Gullar. “Não: sua condição de homem, concreta, histórica, determinada, informa os poemas que escreveu, e não apenas como causa deles, em última instância: é matéria deles. Com Augusto dos Anjos penetramos aquele terreno em que a poesia é um compromisso total com a existência”.

Augusto dos Anjos (1884 – 1914) publicou seus primeiros poemas aos 17 anos, no jornal O Commercio. Em 1912, lançou, em edição particular, Eu, seu único livro publicado em vida. A primeira compilação de sua obra foi editada somente após seu falecimento, por Orris Soares. Morreu muito jovem com apenas 30 anos e com o passar das décadas adquiriu um culto em torno de sua obra e sua brevíssima passagem pela Terra.

Abaixo alguns poemas de Augusto dos Anjos:

Versos Íntimos (trecho)
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

A Noite
A nebulosidade ameaçadora
Tolda o éter, mancha a gleba, agride os rios
E urde amplas teias de carvões sombrios
No ar que álacre e radiante, há instantes, fora.

A água transubstancia-se. A onda estoura
Na negridão do oceano e entre os navios
Troa bárbara zoada de ais bravios,
Extraordinariamente atordoadora.

A custódia do anímico registro
A planetária escuridão se anexa…
Somente, iguais a espiões que acordam cedo,

Ficam brilhando com fulgor sinistro
Dentro da treva omnímoda e complexa
Os olhos fundos dos que estão com medo!

Foto de abertura via FManhãOnline.

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