SANTA SURDEZ, PETE!
Por João Paulo Vasconcelos


Uma bela oportunidade de ficar calado, o Who neste novo disco fez uma caca vergonhosa.

The Who
Endless Wire
[Republic/Universal, 2006]

Se formos desprezar a vacina que alguns críticos insistem em aplicar aos artistas e aos grupos veteranos – a vacina que ignora jargões como “a banda ‘X’ não precisa provar mais nada a ninguém” e garantem frases do tipo “um disco fraco dos vovôs valem mais que os novos álbuns das bandas da atualidade elevados à potência de ‘n’ – boa parte dos reis que existem no mundo ficam nus. E é difícil não esconder a frustração quando se houve aquela banda que preferiu ficar velha (no mau sentido) antes de morrer, contrariando o pacto firmado faz pouco mais de quarenta anos. Depois de alcançar todo o seu ápice criativo no duplo Quadrophenia [1973], ficou óbvio o quão seria difícil para o Who fazer um outro disco de marca máxima, que pudesse competir com os antecessores. Vieram em seguida os álbuns mais fracos do grupo nos anos 70, The Who by numbers [1976] e Who are you? [1978], a morte do baterista Keith Moon, a agravação da dependência química de Pete Townshend, dois trabalhos nos anos 80 que acabaram no limbo (Face dances e It’s hard), o falecimento do baixista e virtuose John Entwistle… O novo trabalho veio não a aprofundar o buraco, mas a mostrar que a banda – ou o que sobrou dela, para ser mais justo com seu nome curto, mas de impacto – ainda está lá.

O EP que precedeu o lançamento de Endless wire, Wire & glass (uma mini-ópera que Townshend elaborou), deixou um parecer enganoso – que o Who estaria vindo com um trabalho com cheio de punch. São o inverso dos arrastados singles inéditos da coletânea Them and now, de 2004 (as faixas “Old red wine” e “Real good looking boy”). As seis faixas elencadas do EP aparecem em Endless wire. Precisa-se de frieza para analisar tal disco: é o primeiro CD de inéditas do Who desde 1982. Townshend e Roger Daltrey (que, gracias, ainda consegue cantar bem, mesmo que dê uma ou outra escorregada) já passaram dos sessenta. Não poderia se esperar muita coisa, mas… Faz sentido o lançamento de um novo disco do Who, assim comos os pulos (demasiadamente idiotas) de Pete, em pleno 2006? Por que não dormir a saber do reconhecimento que os fãs e os bons amantes do rock têm de sua obra em décadas passadas?

Na tentativa (desesperada, quem sabe) de querer firmar um novo clássico, surge a primeira faixa. “Fragments” (e sua versão encurtada, a “Fragments of fragments”) já remete a “Baba O’Riley” pelos teclados na abertura, a estabelecer um link cuja distância são exatos 35 anos. Soa desnecessária, pois falta-lhe a capacidade de emocionar o ouvinte, como o tema de abertura do álbum Who’s next, de 1971. Nada de extraordinário desta até a nona faixa, tempo que se perde em rocks exaustos (“Mike Post Theme”, “It’s not enough”) e baladas feitas sem cuidado (“In the ether”, cantada com um sacarsmo dispensável e melodia com aspecto de rascunho – é, de fato, uma faixa não passada a limpo) ou com a função de tapa-buracos, como os momentos solitários de Townshend. “Good speaks of Marty Robbins”, com ele na dobradinha voz/violão, tem a sua beleza. Talvez a única canção que se sobressai nessa primeira metade de CD, junta do hard-folk “Black Widow’s eyes”.

E a ópera-rock se inicia na décima faixa. São essas músicas, de estruturas semelhante às de vinhetas (a maioria delas dura pouco mais de um minuto – exceção feita à “Mirror door”, com quatro minutos e catorze segundos) que salvam o disco de uma grande ruína. A já citada “Mirror door” é paixão declarada à arte que os dois se dedicaram. Acompanha a mensagem da letra uma série de citações a nomes que, mesmo com a distância que seus gêneros propiciam, estão juntos em outro plano: Curtis Mayfield, Elvis Presley, Wolfang Amadeus Mozart…
Um encontro sob os apalusos da platéia, cortesia de samplers. “Sound round”, “Pick up the peace” (a melhor das canções curtas), a faixa-título, “We got a hit” e o blues estradeiro “They made my dreams come true” fecham o bloco conceitual. Um encerramento da forma mais amena para um disco que nasceu sem brilho. Resta esperar que a passagem da banda pelo Brasil no próximo ano seja digna.

NOTA:: 4,0

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