OS MESSIAS DO INDIE ROCK?
Por João Paulo VasconcelosTHE KILLERS
Sam’s Town
[Island, 2006]

Maldito seja o teste do segundo disco. O procedimento, que meio que andou sumido na década passada (só me lembro de um caso concreto até o momento: o dos Stone Roses), regressou com pompa para este início de terceiro milênio. Faz todo sentido – não há algo tão “anos 80” que pôr o tal assunto em dia, e justamente quando boa parte do rock retrocedeu vinte anos. É a hora de se determinar se um grupo, ou vai ser reconhecido apenas como um Bananarama de sua época, ou é um aspirante, com um pouco de certeza, a The Cure. Bem, até o momento, já se viram triunfos, garantidos pelos Strokes (Room on fire – ainda que seja o “menos melhor” de seus três álbuns), Kasabian (Empire) e Franz Ferdinand (You Could Have it So Much Better), entre outros, e derrotas, em casos como o do Vines (Winning days – e a banda mostrou sinais de recuperação com Vision valley) e dos Libertines (The Libertines). Pior; há quem morra logo no primeiro álbum (leia-se: Babyshambles, Kaiser Chiefs, Bravery, Death Cab For Cutie…), só para a acentuação da qualidade duvidosa de alguns conjuntos.

Mal caiu na rede o segundo trabalho do Killers, e reclamações de várias naturezas pipocaram: “cadê a beleza (sic) de ‘Smile Like You Mean It’ e de ‘Change Your(sic) Mind ‘? (não estranhe: em tempos de internet, muito normal que o nível de escrita beire a aberração)”, “não tem nada animado como ‘Somebody Told Me’?”… Saudades brabas de Hot Fuss, a gênese discográfica deles, não é? É inegável que o álbum de 2004 têm sido uma das grandes surpresas de dois anos atrás. É que Sam’s Town, é um CD até “difícil” – experimente comparar ele com Hot Fuss para ver qual é o mais radiofônico dos álbuns. “Where you were young” (a primeira canção de trabalho, que bebeu na fonte de Bruce Springsteen e revelou duas boas b-sides, o funk-pós-punk “Where the White Boys Dance” e a garageira “All The Pretty Face” – que figuraria bem até num disco dos Mummies) e talvez “Bones” (muito provavelmente o próximo single), que fica entre o Queen e o U2, são divulgáveis – mas sem o poder autocolante que uma “Somebody Told Me” (se bem que a faixa-título possui certa força pra isso) ou a magnitude de uma “Mr. Brightside” proporcionava. Bem, falta de sucessos não significaria precisamente um trabalho de baixa qualidade: a banda passa no teste com este segundo (no espírito de uns 40 minutos do segundo tempo) trabalho que, embora se assemelhe ao seu antecessor, é claramente mais maduro.

Quem simplesmente se fascinou pelos timbres datados dos sintetizadores, chupins sobre o Roxy Music e o Duran Duran, ou o momento “rock de arena” de “All These Things That I’ve Done” – tudo no primeiro álbum – vale o atento dos ouvidos. No primeiro caso, temos “Bling (Confessions Of A King)” e “Read My Mind”, esta última, de fato, colocando medo de início, se revelando uma triste, fria e escura… canção emotiva (não, senhores, não é o emocore!). Boas para execução em estádios, quando Brandon Flowers sentir um Bono Vox dentro dele. Visto que o Queen teve citação no parágrafo anterior, a influência vai de encontro com “My list”, “Why Do I Keep Counting” (é bem possível que as viúvas do hard-rock farofento dos anos 80 – e porquê não, os fãs do Darkness – acharão sua cara-metade nesta música) e num momento mais soft, “Exitlude”, que irão garantir culhão para quem for se aprofundar em momentos mais operísticos ou dramáticos (bregas não, por favor) da obra. O ar sessentista prossegue com “Uncle Johnny”, munida com um rifle… Ops, riff bem sacado de David Keuning.

No final das contas, a canção “estilo Oasis”, “I’m Talking To You”, nem saiu do papel – se tens curiosidade mórbida, reze para que esta caia como um futuro b-side do CD. Esperaria a resposta de Liam Gallagher, um claro provocador do hype… E, caso dependesse só de sua capa – com uma miss de corpo bem torneado – Sam’s Town ganharia bem de Hot Fuss. Não é superior, mas, para quem tem o privilégio de aceitar o crescimento em música, vai tolerar ao menos metade do trabalho. Mais importante do que precisar chutar emo até a morte do mesmo.

Nota: 7,5

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