Tenho mais caixas com “cuidado, sonhos” do que espaço para guardar tanto sonho

Por Téta Barbosa
Colunista da Revista O Grito!

Pra começo de conversa, de quem foi essa ideia de guardar a sapatilha de ballet que eu usava quando tinha seis anos?
E o que esse carregador está fazendo aqui?
Ou melhor, que carregador é esse?
Por que eu guardei o papel do seguro de um carro que foi roubado há 4 anos?

O objetivo: guardar 37 anos de história, móveis e eletrodomésticos em caixas de supermercado que dizem “cuidado, ovos”.

Primeira providência: riscar a palavra ovos e escrever sonhos, no lugar.
Agora sim, na caixa “cuidado, sonhos”, eu posso tentar enfiar anos e anos de objetos que tem, na sua maioria, algum tipo de serventia e/ou história.

Minha ideia inicial era jogar no lixo 60% das coisas que tenho em casa.
Isso baseado (não, não tô fumando um baseado, mas ia ajudar bastante se tivesse) na estatística mental de que, se faz mais de um ano que eu não uso/vejo/preciso e nem lembro que aquele objeto existe, é porque eu não preciso dele.

A verdade é que a gente p-r-e-c-i-s-a de muito pouca coisa nessa vida.
Mas a gente a-c-h-a que precisa de muita.
Aí vai juntando, juntando até achar que tem tudo que precisa.
Mas a gente já tinha tudo que precisava antes mesmo de começar a juntar.
Eu sei, essa matemática não faz sentido algum.

O que fode o plano de jogar 60% das coisas fora é o tal do “valor sentimental”.
Por conta dele, meu filho não quis se livrar nem doar um pijama do Náutico* que ele ganhou quando tinha dois anos de idade.

* É, eu tenho que confessar: meu filho é uma barbie.

Não foi fácil no começo, mas uma mãe tem que amar e apoiar o filho mesmo quando ele escolhe caminhos obscuros nesta vida. A decisão dele pela camisa alvirrubra não deixa orgulhosa nenhuma mãe, mas a gente tem que entender e, muitas vezes, suportar as opções dos filhos. Sem preconceito e com a cabeça erguida, sigo amando Victor como se ele fosse rubro negro.

Enfim, o fato é que a porra do pijama está rasgada, desbotada e o menino não quer jogar ele fora nem que a vaca tussa.

Tive que apelar para a realidade:
– Meu filho, nós estamos saindo de uma casa com 170m2 para um apartamento de 70m2. Você precisa diminuir a bagagem desta vida. Sem falar que você tem 15 anos e esse pijama não entra nem na mão esquerda.
– Mãe, não é esse micro pijama que vai fazer a diferença no espaço do meu armário. O pijama fica.

Nada é justificativa para o danado do “valor sentimental”. Nem espaço, nem a falta de espaço, nem o custo benefício, nem a crise na Europa.
Quando aquele objeto/roupa faz o coração bater, ele fica e ponto.

E assim, tenho mais caixas com “cuidado, sonhos” do que espaço para guardar tanto sonho.

Pra tentar me animar nessa fase de encaixotar a vida, pesquisei uns textinhos motivacionais sobre a importância da mudança na vida das pessoas.

Tipo: “A mudança é a lei da vida. E aqueles que confiam somente no passado ou no presente estão destinados a perder o futuro.”( John F. Kennedy ).

Frase de alto teor auto-ajudístico (adoro inventar palavras). Simplista, mentirosa e podre de brega, mas que, em momentos de desespero, até que ajuda.

Outro textinho sobre a importância da mudança no mundo contemporâneo dizia “a mudança serve como experiência para a equipe que agora tem mais conhecimento sobre o processo e sobre as suas próprias limitações. No pior dos casos, a mudança serve para que os membros da equipe não fiquem acomodados.”

A “equipe”, neste caso, somos eu e Victor. E nós estávamos super felizes ficando acomodados, obrigado.

Então, pra você não me achar conservadora, do tipo contra mudanças, vou te passar a real:

Estou aqui, empacotando tudo sozinha enquanto Victor está com catapora no quarto e minha família de férias em Tamandaré. A casa está parecendo o Kuwit, durante a operação Desert Storm. Além disso, vou sair de uma casa enorme, com jardim e quintal, para um apartamento pequeno e numa rua barulhenta.

Em que momento a parte boa da mudança vai chegar?

Vocês, otimistas de plantão, pessoas fofas e alegres, podem me responder? Hein? Hein?

Se tiver um curso “Aprenda a se mudar sem sofrer. Pergunte-me como” pode me considerar inscrita.

Em outras palavras: mudança é uma merda! A menos que você tenha sido sorteado na mega sena e esteja se mudando para uma cobertura triplex na Avenida Boa Viagem.
Aí sim, deve ser bem legal. Caso contrário, não. E , no momento, me enquadro na categoria “caso contrário”.

Então, estou pensando em trocar o “Cuidado, sonhos” das caixas por “Cuidado, mulher bipolar em processo de mudança. Afaste-se. Elemento de alta periculosidade”.

Não?

*obs – Entre caixas, catapora e um leve surto neurótico, estou sem tempo nem vontade de postar sobre moda. Desculpem os fashionistas de plantão, mas é porque não tá dando mesmo.

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