MUITO ALÉM DO PLIM-PLIM
Padrão Globo de teledramaturgia sofre ameaça de novelas que bebem na fonte da estética Maria do Bairro
Por Raphaella Spencer

Basta dar uma olhada mais cuidadosa ao redor para perceber que muita gente senta, assiste ao Jornal Nacional e depois “a das 8h”. Todos têm, em comum, uma rotina organizada pelos horários das novelas. Sim, esse é um fenômeno que representa a relação do povo brasileiro com as telenovelas desde muito tempo, mas contra essa corrente outras emissoras vem tentando diminuir essa centralização com suas próprias produções obtendo, num passado não muito distante, exitos que nos dão esperança de que, em breve, algum grande sucesso volte a quebrar um pouco a hegemonia global.

Quem na década de 80 já dava suas primeiras zapeadas lembra de grandes sucessos como Pantanal, exibida na extinta Rede Manchete, e para sempre lembrada como aquela que bateu a audiência da Globo. A rede dos Marinho não conseguiu bater os encantos de Juma, a mulher-onça, interpretada por Cristina de Oliveira. Mas Pantanal era muito mais que um elenco de talentosos atores, era um espetáculo visual que mostrava aos brasileiros um país que ia além das praias, montanhas e lagos das novelas cariocas.

A produção foi o ponta pé inicial para a emissora se transformar numa fazedora de telenovela de sucessos. Depois veio a memorável História de Ana Raio e Zé Trovão (1991) que mostrava o mundo dos rodeios com muitas externas e filmagens em ambientes de rodeios de verdade. E quem não lembra de Taís Araújo na flor da idade interpretando Xica da Silva (1996)? Prestes a fazer 18 anos, maior idade comemorada pelo diretor Walter Avancini, ela fez as cenas de peitinho mais esperadas da história das telenovelas. A novela fez tanto sucesso na época que teve seus direitos comprados e foi reprisada pelo SBT em 2005.

E por falar na eterna vice, temos que lembrar de Dona Lola, como não, a matriarca de Éramos Seis (1994) que, cá entre nós, foi a única produção recente memorável realizada pelo SBT. Digamos assim: Éramos Seis era tão bom que parecia uma novela das seis da globo, com dramas e personagens tão interessantes que seriam dignos de ser exibida como das 8h, se é que se pode considerar isso um elogio.

Sim, todas essas telenovelas são provas cabais que de existe uma hegêmonia possível de ser quebrada com criatividade, investimento e bom gosto, todas essas novelas renderam muito a suas emissoras, foram vendidas a outros países e fazem parte da memória dos telespectadores até hoje e claro seus autores e diretores, atualmente, são na maioria contratados da Rede Globo. Tais como Jaime Monjardim (O Clone (2001), Casa das Sete Mulheres (2003) e Walcyr Carrasco (A Padroeira (2001), Chocolate com Pimenta (2003).

Hoje há uma nova safra de produções realizadas por outras emissoras, mais sistemáticas e menos ousadas que as citadas acima. Elas já começam a incomodar a audiência dos programas globais e claro, absorvem em seu elenco alguns ex-globais guardados pela titã na gaveta do freezer. Seus temas passeia, por pesquisas de laboratório que resultam em uma proliferação de mutantes com poderes especiais, como é o caso de Caminhos do Coração, atualmente no ar a partir das 22h na Record. A mesma emissora que também exibe Amor e Intrigas, cujos capítulos podem ser lidos na íntriga no site da produção (o que tem de interessante nisso? Não me perguntem). Mas quem quer mais agito, pode ver Dance Dance Dance (isso mesmo, eu não errei digitando três vezes, é mesmo um pedido enfático para que todos dancem e também o título da novela exibida nesse momento pela Band. Todas essas realizações tem um estilo mais parecido com o da televisão mexicana, são novelas do produtor. No caso de Dance (repete duas vezes), é produzida por Juana Uribe (mesma produtora de Betty, a Feia).

Hoje, estão no ar ao mesmo tempo, oito novelas inéditas e mais algumas reprises. Temos mais telenovelas no ar que emissoras de canal aberto (Globo, Sbt, Record, Band, Rede TV , MTV e TV Cultura). Sim somos um país noveleiro, mesmo sem querer quem tem TV em casa acaba em algum momento, até por descuido, vendo novela. Então não dá para falar de cultura sem analisar esse fenômeno tão nacional, por isso, vamos sempre relembrar o que já foi feito de bom e analisar com cuidado os desparates que continuam indo para o ar sem o menor cuidado de tentar nos representar. Parecem mais imagens e palavras ao vento feitas só para preencher espaço e vender produtos nos seus intervalos.

Pantanal

Éramos Seis

Xica da Silva

Dance Dance Dance

Caminhos do Coração

Maria do Bairro

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