SEXO COM MUITA CULPA
Mitchell Lichtenstein nos conta a história de uma colegial com dentes na vagina e que mutila amigos criando uma miríade de eunucos pós-modernos
Por Fernando de Albuquerque

TEETH
Mitchell Lichtenstein
[Teeth, EUA, 2008]

É uma grata surpresa ver que o filho de Roy Lichtenstein, Mitchell, fez um dos filmes mais irônicos e sarcásticos do último ano. Intitulado Teeth, o filme vazou na internet (foi lançado nos EUA em 2007 e chega só esse ano ao Brasil), e vem fazendo a festa de quem gosta de histórias bizarras. Na trama vemos Dawn O´Keefe(interpretada por Jess Weixler) como uma estudante do colegial e membro de um grupo que defende a castidade acima de tudo. Ela é vítima da pressão dos pais, dos amigos mais próximos e da sociedade que a circunda devido a suas escolhas mais conservadoras. Para complicar ainda mais sua situação ela descobre, sem querer, que tem dentição na vagina. Isso mesmo: dentes bem afiados e repentinamente maléficos. A idéia surgiu de um mito que, de fato, marca algumas culturas com a intenção de se evitar sexo sem compromisso e encontros do tipo.

A sua defesa ferrenha pela castidade dura até o momento em que ela começa a ficar vidrada em um rapaz de sua sala, Tobey. A amizade deles vai longe demais e durante um passeio em uma caverna as coisas esquentam. Dawn resiste, mas Tobey simplesmente não aceita um “não” qualquer como resposta e se as coisas não acontecem por livre e espontânea vontade, acontecem por livre e espontânea força. Como resposta a isso a vagina dentada de Dawn se revolta contra sua própria vontade e abocanha o pau do rapaz. É de se encolher de aflição ao ver membros decepados sem nenhum dó nem piedade. E as cenas de ataque se repetem indefinidamente.

Aos poucos a Vagina Dentada de Dawn começa a arrancar o pênis de qualquer incauto que a ofenda ou magoe. E isso acontece sem exageros ou clichês. Há sangue, mas não em demasia, apenas o suficiente para causar arrepios. As próprias interpretações dão margem para os sustos que não lançam mão de recursos mais sofisticados ou pirotecnias. São cortes repentinos que fazem o espectador saltar da pura excitação (em deliciosas preliminares) ao medo extremado de ver o pau alheio no chão e o sangue jorrando.

A personagem de Dawn está muito bem criada. Ela é inicialmente mostrada como uma jovem que dá palestras sobre as vantagens e o orgulho da abstinência sexual. Sempre com tons religiosos não explícitos, esta obsessão invertida com o sexo nunca é criticada durante o filme, mas é mostrada, em determinados momentos, quase como fanatismo como quando, em coro, um coral de crianças que repete, exaustivamente, a palavra pureza e serpente.

Apesar de seu tom satírico, Teeth é apresentado como um filme de suspense como qualquer outro, visualmente e fotograficamente falando. Não há muitas de fazer pular da poltrona. Não há sustos, até porque antes de vermos o filme já sabemos da “situação” de Dawn. O que choca, mesmo, são os membros decepados que, sim, são mostrados, e com direito a muito sangue e cachorros mastigando restos.

Sacada

Nos filmes slasher dos anos 70 e 80 as personagens que faziam sexo acabavam, inevitavelmente, por morrer nas mãos do monstro/assassino/psicopata que encabeçava toda a película. Uma forma velada de criticar o sexo na adolescência, ou de dar um carácter menos virtuoso a personagens que de qualquer forma teriam de morrer. Mas fossem quais fossem os motivos que levaram à criação desse padrão, a verdade é que ele se tornou tão repetitivo que foi incorporados aos cânonoes dos filmes de terros onde sexo é sinal de morte.

Em Teeth essa ideia é revisitada de uma forma mais pervertida e sarcástica. O monstro/assassino/psicopata é removido da história e é o próprio ato do sexo que é violento e homicida. Por outro lado o filme pode ser visto como um hino ao feminismo, uma vez que Dawn, inicialmente assustada pela sua Vagina Dentata, acaba por se aperceber do poder que o seu dom lhe traz e começa a usá-lo de uma forma justiceira e vingativa. O medo masculino de que uma mulher feminista de atitudes fortes e irreverentes poderá desmasculinizá-lo, neste filme toma uma dimensão assustadoramente literal.

A música tem um efeito diagético muito bem articulado já que todo momento em que Dawn vai desferir seus golpes vaginais tambores africanos começam a entrar em ação trasmitindo um caráter primitivo e ritualista da sua castração. O bizarrismo continua com a mistura dessa batida tribal com raízes eletrônicas.

NOTA: 5,0

Teeth – Trailer

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