Teatro Oficina (Foto: Divulgação)

AVENTURAS E DESVENTURAS DE UM TEATRO DE VANGUARDA
Personagens, causos, anarquia e um olhar sobre o significado para o Brasil do mais conhecido grupo teatral do país
Por Eduardo Carli

O Teatro Oficina – sobrenome/apelido: Uzyna Uzona – foi fundado em 1958 por alunos da tradicionalíssima Sanfran, a faculdade de Direito da USP, cujo imponente prédio se encontra no coração de São Paulo, perto da Praça da Sé. José Celso Martinez Corrêa e Renato Borghi, entre outros, foram pivôs na elaboração desse revolucionário teatro e coletivo artístico que, a partir dos anos 60, foi parte tão essencial da contracultura nacional.

O Oficina sempre se pautou pela iconoclastia e se comportou como a vanguarda das vanguardas no teatro nacional. Zé Celso nasceu, cresceu e continua ainda hoje gritando “merda!” para todos hábitos artísticos-existenciais da burguesia e da cultura dominante, dando o exemplo de um outro modelo de fazer arte – e de existir.

O teatro tradicional, bem-comportado, carola, chique e elitista, com um espaço físico bem demarcado, com uma separação radical entre público e atores, foi transtornado e revolucionado por conceitos novos de encenação, interação e temática. Ali no Teatro Oficina, através das décadas, foi-se construindo uma estética baseada numa experimentação com outros paradigmas teatrais – com influência das idéias renovadoras de grandes inovadores como Bertolt Brecht, Antonin Artaud e Oswald de Andrade. Um teatro dionisíaco, excessivo, que permite participação ativa do público, que usa e abusa da nudez dos atores e que mescla estilos teatrais com uma liberdade quase anárquica. Para o Oficina, fronteiras e tabus só servem para serem rasgados.

Em plena efervescência do tropicalismo, o Oficina serviu como uma espécie de equivalente teatral da renovação estética realizada na música por Caetano, Gil, Tom Zé, Os Mutantes, Duprat. Com a encenação de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, em 1967, com atuação de Renato Borghi, o Oficina assumia como suas as idéias do Manifesto Antropofágico. Muito simbólico dessa relação Oficina-Tropicalismo é também o caso de Caetano Veloso tendo suas roupas arrancadas na peça Os Bacantes, episódio que deu escândalo e caiu na mídia grande. Foi assim que, enfrentando altas pedreiras, o Oficina fez história com peças como Hamlet (de Shakespeare), Galileu Galilei(de Brecht), Os Sertões, de Euclides da Cunha e tantas outras.

Hoje Zé Celso continua no papel de necessaríssimo agitador e iconoclasta. E com a coragem de quem já enfrentou os maiores pontapés e descalabros: de quem passou pela ditadura, pelo AI-5, pelo DOPS, pelo exílio em Portugal (em plena Revolução dos Cravos de 1973), pela filmagem da independência de Moçambique (“uma Woodstock no hemisfério Sul”, segundo Zé Celso), entre muitas outras aventuras e desventuras.

A ousada arquitetura do Teatro Oficina, que conta com vidros laterais que permitem iluminação natural e um teto móvel, é assinada por Lina Bo Bardi, premiada internacionalmente por este trabalho. Ela é responsável por duas outras pérolas arquitetônicas de São Paulo: o mundialmente conhecido MASP e a “fábrica” do SESC Pompéia.

Teatro Oficina (Foto: Divulgação)

Problema com Seu Silvio
Uma notória treta contra Silvio Santos, que vem se desenrolando desde 1980, acabou entrando nos anais – e nas peças – do Oficina. O magnata das comunicações demonstra um ávido desejo de se apossar do terreno onde se encontra o Oficina e todos os arredores. Zé Celso, com unhas e dentes, se recusou a abrir mão, batalhando pelo tombamento do Teatro Oficina – o que se deu em 1983. O dramaturgo tem a ambição de ali construir um imenso teatro ao ar livre, para mais de 5.000 pessoas – uma arena épica apelidada de Anhangabaú da Felicidade. Já o dono do SBT, com intentos muito mais comerciais que artísticos, já quis erguer ali um shopping center e atualmente adere à idéia de um conjunto residencial.

Mais do que uma mera disputa judicial, essa esgrima entre Zé Celso e Silvio Santos é altamente simbólica do que sempre representou o Oficina: resistência ao establishment e uma pulga na cueca dos poderosos. “Precisamos saber se o que queremos é o Brasil Cidadão ou o Brasil Mercadão!”, provocou Zé Celso em declaração ao jornal O Estado de São Paulo.

O Bexiga, bairro paulistano onde o Oficina se encontra, é visto por ele como um potencial centro de miscigenação e troca-livre entre diferentes raças, credos e classes. “Queremos ter um centro de mistura, assim como o Rio de Janeiro tem a Lapa e a Bahia tem o Pelourinho”, disse ele ao Estadão. Prova de que Zé Celso tem uma visão muito mais ampla do que as meras questões artísticas e culturais: sua preocupação vai muito mais longe, abrangindo também a arquitetura e as relações urbanas na maior cidade da América Latina.

VÍDEOS

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