Teatro Mágico (Foto: Divulgação)

CABELO COMPRIDO E SANDÁLIA DE DEDO
Com novo disco, trupe do Teatro Mágico reafirma a neohiponguice pós-pop e o espírito de auto-ajuda do século 21
Por Fernando de Albuquerque e Paulo Floro

TEATRO MÁGICO
2º Ato
[Independente, 2008]

Sabe aquelas rimas sem pé nem cabeça que entram no refrão só para trazer à música um lirismo sem conjuntura alguma? Pronto! O Teatro Mágico é assim. Eles rimam “o poeta pena quando cai o pano, e o pano cai”, a “música rara em liquidação”, “a matemática da arte em papel de pão”, ” evoca-se na sombra uma inquietude, uma alteridade disfarçada”…E por aí segue uma miríade de pérolas dignas de piadas sórdidas em algum boteco da avenida Guararapes, ou do baixo meretrício da República.

Intitulado 2º Ato, o novo disco da trupe capitaneada pelo paulista Fernando Anitelli, traz como principais influências nada mais do que um saco de gatos que mixa Zeca Baleiro, NX Zero, um pouco de reggae, forró de universitários da Fachuca, pingos de eletrônica e cantos de índios bodocongós trajando M.Office. Ou seja: uma espécie de arca de noé pós-industrial que vê na reunião máxima de influências, um movimento agregador que garanta casas lotadas em períodos de alta temporada.

A mensagem que permeia toda narrativa do disco continua a mesma lenga-lenga de “um mundo melhor” turbinado por uma suposta intelectualidade pseudo-gramsciana do folclore enquanto o grande libertador da massa trabalhadora. Trocando em miúdos: “deixemos as responsabilidades de lado e vamos para as ruas reviver o woodstock”.

Talvez os espectadores/ouvintes do Teatro Mágico, muito mais que os integrantes dos grupos, ainda vivam sob égide de uma filosofia Elis Regina (“ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”) e não tenham percebido que o tempo passou. E que no mundo pós-contemporâneo a indústria cultural já não oferece apenas uma única expressão cultural como produto final, muito pelo contrário. Tudo vem misturado para ser mais facilmente deglutido.

E Anitelli merece mais que aplausos já que, dono da marca Teatro Mágico, criou uma sucursal hippie da Fantástica Fabrica de Chocolate percebendo que não se pode enriquecer apenas vendendo CDs e DVDs. Ele trabalha, de uma tacada só, com todos os clichês musicais criados pela Mpb tradicional e a que se diz renovada também. E assim, faz com que todo mundo pense: “OH!!! Que reinvenção!”

Isso é reforçado se pensarmos na própria “experiência” que a trupe oferta ao vivo. Seguindo a lógica do panis et circensis, o Teatro Mágico oferece música da pior qualidade fazendo gaiatices de caras pintadas. Tudo em máxima consonância com as formas mais torpes de comercialização da cultura e entretenimento da atualidade.

Com o disco sendo distribuindo de forma independente na internet, via Trama Virtual ou mesmo no site próprio, o grupo apresenta uma das melhores soluções do mercado fonográfico. Já que divulgando seu disco de graça na Web o grupo garante com que seu principal público-alvo, nerds adolescentes em sua maioria, comparecam às casas de shows ditas alternativas.

Aqui, então, a palavra independência apregoada pela banda, soa mais como um método, talvez mais cínico, mas muito mais esperto e lucrativo já que toda renda gerada pela venda de discos e pela bilheteria das apresentações acaba recaindo nas mãos dos que fazem o grupo sem precisar passar por gravadoras. Dessa forma o Teatro Mágico apresenta-se como um “chupa que é de uva” um pouco mais cult, mas não menos vazio e ganancioso.

NOTA: 0,5


“Pena”

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