TUDO QUESTÃO DE PRISMA
Talvez a personalidade de algumas pessoas seja como a lua, uma escuridão infinita. Ou como o prisma do , consigam refletir o arco-íris

Por Tatiana Severo

Sábado passado estava eu a discutir com minha sobrinha de 21, quase 22 anos e seu namorado de 25, sobre milhares de assuntos diversos. Entre uma cerveja, um punhado de amendoim e um cigarro LA de cereja e cravo mentolado – no meu caso – nós três ponderávamos sobre muitas coisas. Dentre elas, a bondade e a maldade. O que será que cai realmente na definição de um, de outro ou de ambos? Será personalidade um traço desenvolvido pelo meio ou algo inerente aos nossos genes? Será que tem gente que nasce bom, mas que de acordo com as circunstâncias e as lapadas que leva da vida, se torna ruim ou será que tem gente que nasce ruim mesmo, sem esperança de regeneração?

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Vejam só, apesar de todo o questionamento filosófico, a conversa tinha um peso pessoal grande. Minha sobrinha estava muito ressentida com a mãe, minha irmã mais velha. As diferenças de opinião, atitude e personalidade eram tantas entre as duas que elas mal se falavam, mesmo morando de baixo do mesmo teto. E eu, como estava morando lá, pude observar de perto as dinâmicas da casa. Minha irmã, assim como todos na minha família – inclusive eu mesma, não mede palavras e atitudes na hora da raiva. Mas tem gente que diga que vai além do impulso emocional do instante, que é egoísmo ou maldade mesmo. Eu, por outro lado via sinais de bondade, generosidade e carinho na minha irmã, que numa tarde de enxaqueca minha, trouxe no quarto um prato de mangas – minha fruta favorita.

Sempre fui uma pessoa esperançosa, veja você. No meu íntimo sempre acreditei que o melhor fosse possível. Mesmo quando o rendez-vous se instalava, eu pensava “amanhã, tudo se resolve. Amanhã será diferente”. E na maioria das vezes, de tanto eu pensar, as coisas se modificavam. Ou talvez fosse eu que mudasse minha maneira de ver as coisas. Será? Será que tudo é questão de quem vê? Será que vivemos dependentes de como vemos as coisas, assim como as testemunhas oculares da vida? Eu acredito que não. Mas como já disse no inicio deste parágrafo, sou uma pessoa positiva. Acredito no bem. E sim, acredito que o bem, mesmo que entre trancos e barrancos, sempre vence.

Mas como em toda discussão, existem várias opiniões para serem analisadas, várias vertentes, ou como diria meu professor de literatura do segundo grau, Falcão, tudo depende do lado do prisma que você veja, ou caso seja cego, considere. Lembro-me de ele ter dito isso ao receber as diferentes reações causadas na classe do segundo ano científico ao analisarmos um dos poemas de Augusto dos Anjos. Que no meu lado do prisma é um poeta que vê a morte como é: natural e bonita. Discordem, por favor. Afinal, opinião é questão de prisma, ou como analisamos algo.

Se você curte Pink Floyd, e mesmo que não curta provavelmente você já viu a capa do álbum The Dark Side Of The Moon. Pois é, na tal capa tem um desenho de uma pirâmide refletindo uma luz. A luz que atravessa a pirâmide se dissipa em muitas cores distintas. Serão estas as muitas versões de um mesmo fato, de uma mesma pessoa, de uma mesma vida? Não sei. Até porque no mesmo álbum eles afirmam que “não existe um lado escuro da lua”, pois geologicamente “todos são”. Mas como é que eu – uma completa ignorante do âmbito científico – vejo a lua brilhar todos os dias do ano? E de maneiras diversas?

Aí é que vem a coisa do meio. A lua reflete a luz solar, que a faz brilhar. Será que as pessoas também não podem ser como a lua e refletirem a luz alheia? Eu acredito que sim. Até os maiores vilões de nossa história tiveram documentados sentimentos como o amor, a paixão e o romantismo. Napoleão era apaixonado por Josefina, Hitler por Eva. Não estou dizendo que seus atos sejam justificados por terem um lado, digamos afável. Não. Mas isso é prova de que existe esperança. Mesmo que ínfima, ela existe. Isso é fato.

Mesmo os tubarões – tidos como os vilões dos mares – se portam de maneira dócil quando seu ecossistema não está abalado. E, bora ser sincero aqui, ninguém gosta de ser importunado ou julgado injustamente. Claro que tem muito mais a ser acrescentado nesse meu devaneio filosófico de meia tigela. E obviamente que acredito em punição também. Como disse sou positiva e esperançosa, mas não sou idiota. E sou a favor do que é justo, não só para um, mas para todos. Mas a questão é, acredito sermos todos interligados. E se eu negar a salvação de um, estarei negando a minha própria. É como a letra da canção do grupo inglês The Killers intitulada “Read my mind” (Leia minha mente) que em um dos seus versos diz “I don’t shine if you don’t shine” (Eu não brilho se você não brilhar). E é bem assim mesmo que acontece comigo. Eu não me sinto bem ao ver ninguém na pior, por pior que esta pessoa seja.

É… Até que pra uma agnóstica “fervorosa” acho que tenho uma compaixão e uma fé maiores do que as de muitos devotos. Acredito que não seja uma questão de crer mais ou menos no bem, na luz no final do túnel. Mas sim em praticar mais tais crenças. Sendo assim, acredito que não importa tanto um “eu te amo” depois de um tabefe, tanto quanto não importa um abraço seguido de um “você não é bom o suficiente”. Violência é violência. Não importa de que forma venha. Pois muitas vezes as palavras ou as caras e bocas machucam mais do que uma facada.

Em outras palavras, precisamos admitir que refletir a luz das atitudes ou das palavras as quais queremos receber pode sim ser um traço de personalidade, uma prova de quem somos. Claro que nem sempre é assim, mas é hipócrita e completamente improdutivo não tentar provar que sim. Talvez a personalidade de algumas pessoas seja como a lua, uma escuridão infinita. Ou talvez, assim como a lua, estas pessoas com toda a ausência de luz consigam, assim como a pirâmide do Pink Floyd ou a analogia do meu professor de literatura, refletir o arco-íris. É tudo questão de prisma. E espero sinceramente que eu, dando ponto sem nó como toda positivista inveterada, continue sempre procurando a luz, mesmo que em um prato de mangas cortadas servidas no meio da tarde.

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Tatiana Severo é jornalista e cronista.

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