Diretor volta a mesclar ficção em realidade em um longa cheio de ironia e apuro estético típico de sua filmografia

Atenção! Maníacos da sétima arte! Fantástico! Sarcástico! Violento! Um verdadeiro delírio cinematográfico! Nas telas da cidade está em cartaz Era Uma Vez em… Hollywood, o novo ataque cinefílico de , um dos cineastas mais emblemáticos do cinema contemporâneo. Em seu mais recente trabalho, Tarantino faz mais uma vez o que gosta. Revisita e brinca com os gêneros, rompe as barreiras entre realidade e ilusão, tira onda com mitos e celebridades, e consegue ser humano, demasiadamente humano nos mandando um recado: se a realidade é dura e cruel, o cinema, mesmo que seja de mentirinha, pode restaurar alguma possibilidade de esperança.

Era Uma Vez em… Hollywoodé uma superprodução incrível, com muito dinheiro gasto, mas com um resultado maravilhoso. A trama acontece no final dos anos 1960 e tem como eixo principal a amizade entre um ator de televisão e cinema em crise, chamado Rick Dalton (vivido brilhantemente por Leonardo Di Caprio) e um dublê que o acompanha há dez anos (interpretado com maestria por ), e que acaba se tornando uma espécie de faz tudo do ator, de motorista a confidente.

Este pode ser o penúltimo filme de Tarantino, segundo o próprio afirmou em entrevistas. (Divulgação).

As referências da vida pessoal do próprio Tarantino e sua paixão por filmes B, faroestes, filmes de guerra e de kung fu pululam na tela. Também está presente, além de um olhar nostálgico sobre o período, uma radiografia do cinema hollywoodiano na virada dos anos 60 para o 70, às voltas com a concorrência da televisão e dos westerns spaghetti italianos, e com a decadência de um certo estilo de vida dos astros e estrelas da então meca do cinema. Esse ambiente é mostrado, sobretudo, na trama paralela que vai se delineando com a presença da atriz Sharon Tate (vivida por Margot Robbie), como personagem da história. Ela foi casada com o cineasta Roman Polanski e foi brutalmente assassinada por jovens malucos integrantes da família do psicopata Charles Manson.

Não precisa dizer que o roteiro e o apuro visual apresentado por Tarantino é um dos pontos altos desse seu nono longa-metragem. Além das referências a filmes e séries de TV dos anos 60, o cineasta revisita seus próprios trabalhos pela forma como vai encadeando a narrativa. Diálogos inusitados, uso de elementos visuais anti-ilusionistas, flash-backs, reviravoltas inesperadas, e um jogo de câmara e de montagem que nos arrebata e nos joga dentro da trama, nos fazem lembrar de Bastardos Inglórios,Jackie Brown, Pulp Ficition, entre outros, e também levam as 2 horas e 45 minutos de filme passarem desapercebidas.

E claro, como em todos os seus filmes, Tarantino sempre nos oferece uma boa dose de humor ácido. Em Era Uma Vez em… Hollywood, um dos melhores momentos é quando o dublê Cliff Booth, um tipo meio brigão e com um passado sombrio, vai trabalhar no seriado de TV Besouro Verde, cujo personagem Kato, motorista do herói era Bruce Lee, o astro do kung fu ainda no início de sua carreira nos Estados Unidos. A sequência é impagável. A filha de Bruce Lee não gostou muito da brincadeira por macular a memória do pai. Mas ela é muito engraçada.

Contudo, os momentos finais são a cereja do bolo. Mas, infelizmente, não podemos contá-lo. Portanto, vá correndo para o cinema e delicie-se com um dos melhores filmes sobre Hollywood já realizados.

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