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SYLVIA PLATH: VIDA PÚBLICA, DORES PRIVADAS
A reedição de Ariel levanta a polêmica sobre a vida da maior poetisa norte-americana do Século XX
Por Rêmulo Caminha

Depois de descobrir o envolvimento do marido Ted Hughes com Assia Gutman, Sylvia Plath partiu para a fazenda em Devon, Estados Unidos, levando apenas os filhos Nicholas e Frieda. Era junho de 1962, quando Plath, diante da paisagem bucólica e cercando as crianças de mimos e cuidados, produziu incessantemente, resultando nos poemas reunidos sob o título de Ariel (1963), que ganhou uma nova versão e foi lançado recentemente no Brasil. É dessa época também The Bell Jar (1963), publicado um mês antes de Plath cometer um suicídio aos 30 anos de idade.

Plath é daquelas artistas de quem não se pode dissociar a vida da obra. É uma poetisa confessional. Seus textos mais brilhantes refletem suas experiências existenciais. Em Daddy, Lady Lazarus, Purdah e Fever 103 há uma dualidade delírio-loucura. Existe ainda a implacável eliminação dos obstáculos, expressando-se através da morte. É a finitude quem dá sentido para a transcendência. Somente através dela, poderá Plath se livrar dos fantasmas que a espreitam, rondando sua vida, seu processo de criação.

O marido, o poeta Ted Hughes, descrevia-a como uma pessoa de cuja inevitabilidade matemática era capaz de reunir em tudo o que fazia uma excitação única. Ele, na verdade, era o seu mentor, o homem responsável pela sua educação e formação. Em torno desse casal, surgirá o mito do bacante, a arte de escrever sobre assuntos tabus, como os distúrbios mentais, a maternidade e a morte. Plath sempre dizia que, em vez de literatura, deveria ter estudado medicina para ver crianças nascer e corpos a retalhar.

Em 1950, a poetisa iniciou os estudos na Smith College, conseguindo se formar cinco anos depois. Colecionou vários prêmios, um deles foi pelo conto Sunday at Mintons, indo para Nova York. Foi redatora da revista Mademoiselle. No entanto, mesmo não se deixando levar pelo prestígio e reconhecimento, a artista, assolada por uma depressão crônica, cometeu a primeira tentativa de homicídio em 1953, fazendo a família interná-la para tratamento psiquiátrico. Tal experiência foi lembrada no The Bell Jar (1963): ”Eu estava me sentindo muito parada e muito vazia, do jeito que um olho do furacão deve se sentir, movendo-se surdamente em meio ao tumulto.” Ainda nessa obra, ela ressalta: “… Como eu tinha sido burra em comprar todas aquelas roupas caras e inconfortáveis, inérteis no meu armário. E eu como todos os pequenos sucessos que acumulava tão alegremente na faculdade se reduziam a nada do lado de fora das fachadas lustrosas de mármore e vidro laminado ao longo da Madison Avenue”.

Ao se recuperar, Sylvia prosseguiu com os estudos, graduando-se com louvor. Em 1955, munida de uma bolsa Fullbright, partiu para Cambridge, onde conheceu Ted. O primeiro encontro serviu de inspiração para o poema Pursuit. Nele, Sylvia descreve uma pantera que a persegue até a morte, e a quem lança o coração para apaziguar. Sem dúvidas, o texto traz uma premonição fatal capaz de marcar desde o início dessa relação tumultuosa e trágica até o suicídio de Plath em 1963 e a morte de Hughes em 1998.

Casando-se em Junho de 1956, três meses depois de conhecer Ted, Sylvia retorna aos Estados Unidos para lecionar na Smith College. Entretanto, abandona a atividade, dedicando-se exclusivamente à poesia a partir de agosto de 1957. Essa passagem é registrada nos seus diários, a quem ela se referia como o “Mar de Sargasso”. Foi uma época de relativa estabilidade, quase um milagre diante do que iria emplodir anos mais tarde.

Durante o período, Sylvia escreveu The Colossus and The Others Poems. Em1960, nasce a primeira filha, Frieda, e esse livro é publicado. Em 1961, iniciou The Bell Jar, depois sofreu um apendicite, abortou e engravidou mais uma vez. Após o nascimento do segundo filho do casal, Plath descobre a traição de Ted, que teria um envolvimento com Assia Gutman.

Tragédia
Numa manhã gelada de 11 de fevereiro de 1963, Sylvia, após ter vedado cuidadosamente o quarto dos filhos, preparado o leite e colocado o copo ao lado da cabeceira das crianças, ela ligou a torneira do gás de cozinha, inspirando o ar e morrendo asfixiada. Vítima de uma depressão crônica, Sylvia não hesitou usar a morte para superar a decepção com o marido

Após o suicídio, Plath foi canonizada pelo movimento feminista, sendo Ted o seu algoz. Pois, logo em 1969 , Ted casou-se com a amante Assia, que se suicidou também, levando Shura, a filha do casal. Da primavera de 1977 a outubro de 1979, Hughes teve um affair com a escritora Emma Tennant, neta de Margot Asquith, mulher do primeiro ministro Collin. Emma descrevia Ted como o Mr. Rochester, o herói do romance de Jane Eyre, comparando-o constantemente ao Barba Azul.

Ted Hughes nunca conseguiu se livrar do perfume de escândalo, usando-o como afrodisíaco para atrair as mulheres. Apesar da morte de Assia em 1970, Hughes casou-se novamente com Carol Orchard no ano seguinte. Daí, tornou-se recluso, voltando a falar da vida pessoal somente depois da publicação de Birthday Letters, uma coletânia de 88 poemas expondo o choque de Titãs que foi o seu relacionamento com Sylvia. A obra é um testamento literário, uma espécie de pacificação com a mulher.

Na obra de Sylvia, é constante a imagem do colosso masculino cuja origem está na figura paterna. Pois, com a morte do pai, Sylvia aos oito anos de idade se viu diante do primeiro esgotamento. Essa tragédia é a gênese da figura masculina tão presente na sua obra: um deus másculo e onipotente que ela ao mesmo tempo amava e odiava.

Ao lado do pai, Plath inseriu a figura de Ted, que tanto divinizava e por quem tinha uma enorme admiração. Por trás das sombras desses homens, ela se projetará, tentando não ser somente a esposa de um dos maiores poetas americanos da época. O que a fascinava era a presença desses homens poderosos e capazes de diminuí-la. Isso se traduzirá na forma do mito do deus morto ou ausente, cuja morte é celebrada ou lamentada.

Sylvia Plath - Ariel Contudo, não se pode analisar a obra da poetisa só pelo viés da morte ou reduzir o imaginário dela a demembramentos, ossos e órgãos internos, ilustrações muito fortes e presentes na sua poesia. Há ainda o mito da lua, que é o símbolo da inspiração poética. O astro impassível assiste a tudo no texto Edge, surgindo impiedosamente em Elm. Sente-se também a constante presença da cor branca, expressando-se através das palavras: “branco-zinco, nuvens, açúcar, leite ou capuz-ósseo”.

Em 1975, Judith Kroll analisou aquela face mítica da obra de Sylvia Plath. Segundo a pesquisadora, o ponto crucial desse trabalho é o mito do grande deus morto lamentado pela deusa mãe ou amante A Redoma de Vidro (The Bell Jar), Pela Água (Crossing The Water), O Terno Tanto Faz Como Tanto Fez (It Doesn’t Matter Suit), Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos (Johnny Panic and the Bible of Dreams), XXI Poems são os títulos da autora que foram editados no Brasil. No último 27 de outubro, como uma forma de homenageá-la, foi lançado uma nova versão de Ariel (1963) no mesmo dia do aniversário da poetisa que nasceu em Boston, berço de ilustres poetas americanos como: Robert Lowell, Anne Sexton, Elizabeth Bishop, EmilyDickinso e Robert Frost.

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